Adenuer Novaes

Sonhos: mensagens da alma

queles que sonham e objetivam sua realidade.

"...revelam apenas a "fmbria da conscincia", como o brilho plido das
estrelas durante um eclipse total do Sol." C. G. Jung.


"Eu tenho um sonho." Martin Luther King Jnior. Trecho de seu famoso
discurso em 28.08.63, para cerca de 200.000 pessoas na marcha pelos
direitos civis dos negros em Washington.


                            A Rosngela, Camila, Juliana e Diego, esposa
e filhos queridos, sonhos que se tornaram realidade.

                                                    ndice

Prefcio                                               09
Conceitos preliminares                          15
O significado dos sonhos                               25
Dormir: estar desperto para uma realidade plena        30
Pesquisas sobre sonhos                                 34
O que  o sonho (resumo histrico)                     43
Os sonhos em Jung                                      49
Quem  o sujeito dos sonhos                            68
Influncia de substncias qumicas sobre os sonhos     72
Como anotar os sonhos                                  75
Como lembrar dos sonhos                                77
Porque esquecemos dos sonhos                           82
Como continuar a sonhar um sonho interrompido          84
O simbolismo e a linguagem dos sonhos                  86
A estrutura do sonho                                   101
Sonhos repetitivos                                     104
Somatizao dos sonhos                                 106
Das imagens  interpretao descritiva na linguagem do consciente 109
Como interpretar os sonhos                             112
Amplificaes dos sonhos                               127
Uma anlise freudiana                                 130
Utilidade dos sonhos                                  141
Sonhos em terapia                                     145
Sonhos antes e depois da primeira sesso da terapia   152
A depresso e a ansiedade nos sonhos           154
O medo nos sonhos                                     156
A culpa nos sonhos                                    158
A sombra nos sonhos                                   160
Uma anlise esprita                                  163
Sonhos com mortos e com a morte                       184
Os "pesadelos"                                        188
Desdobramentos e sonhos                               195
Sonhos na Bblia                                      203
Sonhos prospectivos                                   205
Sonhos erticos                                       207
A srie de sonhos                                     212
Uma anlise segundo a Gestalt-Terapia          214
Uma anlise segundo a Psicossntese                   217
Uma viso Transpessoal                                219
Sonhos no processo de individuao                    224
Formas de se trabalhar os sonhos                      227
Sonhos criativos                                      230
Sonhos premonitrios ou profticos                    232
Sonhos compensatrios                                 236
Sonhos na gravidez                                    239
Sonhos dentro de sonhos                               243
Os sonhos e a arte                                    245
Reflexes finais                               249
Bibliografia                                          257


                                                 Prefcio

Sempre notei em meus seminrios sobre o "Despertar da Conscincia", a
mudana de interesse das pessoas quando abordava a anlise e
interpretao dos sonhos. O tema, quando surgia, provocava imediato
interesse e fazia mudar o rumo dos assuntos. Isso me motivou a incluir
no ciclo de temas da Fundao Lar Harmonia um seminrio especfico sobre
sonhos, levando-me a escrever mais sobre o assunto. No tenho a
pretenso de trazer tudo sobre os sonhos, pois o tema  extremamente
vasto e complexo. Aqui o abordo de forma sinttica em face do pouco que
conheo sobre o seu sentido e significado. O leitor poder buscar uma
melhor compreenso indo direto s fontes onde me inspirei, constantes na
bibliografia ao final, e, principalmente, na obra de C. G. Jung.

O crescente interesse pelos sonhos em nosso sculo e o aumento de
estudos e publicaes sobre o tema so reflexos de uma mudana
paradigmtica que est ocorrendo em nossa civilizao. A crescente
valorizao do feminino, o aumento da subjetividade, a procura pelas
artes, o surgimento de uma nova Fsica, as abordagens holsticas e
transpessoais so, dentre outros fatores, responsveis por essa
revoluo no campo da Psicologia que, de uma forma ainda acanhada e
lenta, tenta alcanar os avanos da cincia psquica.

A vulgarizao dos estudos sobre os sonhos parece tambm revelar essa
mudana de paradigmas. O tema, ento restrito aos psiclogos e mdicos,
alcana o domnio pblico, interessando cada vez mais o ser humano
comum, desacostumado com os livros clssicos e descompromissado com
teorias complexas e que, muitas vezes, no tm sustentao prtica. Os
sonhos, sobretudo os premonitrios, suscitam o interesse pblico e
provocam o abandono de teorias preconcebidas cuja preocupao bsica  a
negao de sua possibilidade ou o engessamento a dogmas ultrapassados.

Todos sonham, seja de forma premonitria ou no, e isso  incontestvel
face  sua comprovao cientfica, o que nivela coletivamente os seres
humanos num padro nico de atividade psquica, sem distino de
qualquer natureza. Pode-se dizer que o fato de todos sonharmos
estabelece uma conexo transcendente entre ns. O desejo de que algo
futuro se realize, tendo sido tomado popularmente como sendo um sonho,
transformou o termo (sonho) em sinnimo de algo quimrico ou fantasioso.
Em alguns idiomas, a origem da palavra est associada aos termos
"errante" e "vagabundear", porm isso no altera o significado
verdadeiro e real dos sonhos. Muito embora paire uma atmosfera de
irrealidade quando se comenta sobre sonhos, sobretudo entre leigos, eles
expressam, de forma sincera e objetiva, sem subterfgios ou
dissimulaes, o estado real do psiquismo do indivduo. Neste trabalho
evitei apresentar casos ou anlises de sonhos de meus pacientes, a fim
de no estimular certas identificaes que geralmente se fazem e que
levam alguns a acreditar que as interpretaes sempre funcionam da mesma
forma para com todos. A anlise e o estudo de seus sonhos serviram-me
como pano de fundo para a compreenso melhor da cincia dos sonhos.

O mundo mental ou o mundo dos pensamentos, sentimentos, fantasias, etc.,
 o mesmo mundo dos sonhos, pois, estando-se acordado ou dormindo, a
vida obedece s leis da subjetividade interior. Venham de onde vierem,
sejam resultantes fisiolgicos ou no, a vida  comandada pelo que se
elabora psiquicamente. O mundo psquico  completamente simblico. A
realidade, para o mundo psquico,  constituda de smbolos e no das
coisas em si. Tudo no inconsciente se passa dentro de um ambiente de
imagens, de raciocnios lgicos, de sentimentos e intuies, fora do
domnio da conscincia, em face de sua limitao  concentrao e 
excluso do todo. O meio ambiente externo ao mundo psquico  pouco
relevante, salvo para gerar aquelas imagens e idias, pois tudo se passa
a partir do que  apercebido e no do que est posto em si. Partindo
desse princpio, o real  o psquico, pois  a partir dele que se
elaboram respostas ao mundo dito externo a ele. O mundo objetivo do
psquico  exclusivamente simblico. O mundo das coisas em si 
subjetivo ao mundo psquico. O que existe em ns so representaes de
imagens diferentes daquilo que percebemos como sendo o mundo.

Os sonhos fazem parte daquele mundo objetivo do psiquismo. Eles so uma
realidade em si para o mundo psquico, que, efetivamente, comanda a
vida. Dizer-lhes inconscientes  mera questo de relatividade com o ego
vgil.  no mundo dito inconsciente que se elaboram as decises para o
mundo dito consciente e vice-versa. Para investigar aquele mundo dito
inconsciente tem-se que lanar mo de uma srie de ferramentas. Uma
delas  o sonho. As outras so: os complexos, os atos falhos, desenhos,
pinturas, meditaes, trabalhos com argila (esculturas), discursos
verbais, testes projetivos, etc. Todos eles so vlidos e no vejo
qualquer ordem de importncia de um em relao aos outros, pois cada
indivduo estabelece seus mecanismos de defesa que no permitem a
acessibilidade de seu mundo psquico profundo, por este ou aquele
motivo. Os sonhos so retratos instantneos da vida psquica do
sonhador, cuja lente fotogrfica  ele prprio e o material plstico 
colhido do inconsciente. So como espelhos sensveis da situao
psicolgica do indivduo. Eles so fonte de cura e de crise ao mesmo
tempo. Curar-se para iniciar um novo ciclo de crescimento. Crise pela
necessidade de mudana. Os sonhos so sempre mensagens simblicas cujo
contedo est a servio de um propsito evolutivo. Em cada sonho est
implcita uma idia diretora e significativa para a vida do sonhador. Os
sonhos so metforas da vida real, elementos de uma linguagem potica e
genuna da vida psquica do sonhador, que nunca cessa, nem se submete s
contingncias egicas. So fenmenos to complexos quanto a conscincia
o . Ultrapassam o conceito de serem simples mensagens e recados para
que o ego possa melhor dirigir sua vida de relaes, pois so estruturas
vivas e consistentes da personalidade que se desenvolve inexoravelmente.

O mundo dos sonhos nos auxilia a entender o mundo externo, dito
objetivo, material, concreto. O sentido da vida no se explica pelos
fatos referentes a esse mundo constitudo pelos fatos do cotidiano. Eles
so apenas fragmentos conseqentes do pensar humano. Os sonhos, ao
contrrio, nos apresentam aspectos da totalidade objetiva do viver. Os
sonhos permitem a reunio de experincias emocionalmente assemelhadas,
desconectadas ou no no inconsciente, necessitando de elaborao na
conscincia. Por mais que estudemos todos os aspectos sobre sonhos, eles
ainda se constituem um envolvente mistrio para a alma humana. Suas
metforas visuais nem sempre acompanham a lgica do ego, preocupado em
lhes aplicar sua coerncia rgida e convencional.

Durante a confeco deste trabalho, j na sua fase final, faltando
apenas algumas inseres de notas sobre os conceitos de Jung, sonhei que
corrigia uma frase de um determinado trecho deste material que escrevia
ao computador. No sonho, via a frase constituda por uma nica palavra
que necessitava ser separada por espaos e pela insero de vogais.
Quando acordei, decidi no interpretar o sonho, mas aproveitar a energia
intensa de que fui acometido ao levantar-me pela manh. Fui direto ao
computador e conclu o texto rapidamente, pois acreditava que ainda ia
me demorar algumas semanas. Aprendi a desenvolver motivaes a partir da
disposio ao acordar e, certamente, aquele sonho motivara-me a
finalizar este trabalho, inserindo o que faltava como a brevidade das
vogais. Sempre me questionei:  Por que os sonhos exercem tanto fascnio
nas pessoas? No h quem no deseje a interpretao de um sonho que
teve. O surrealismo presente sempre se constituiu num enigma at ento
insolvel ou parcialmente esclarecido atravs das diversas teorias
onricas. Esse fascnio provavelmente advm da natureza essencial
penetrada pelos sonhos, que consegue remeter o sonhador  sua prpria
origem. Por muito tempo se associou o sonho ao feminino, ao prazer, ao
mistrio e ao transcendente, e esses so temas importantes do ser humano
moderno. Desvendar mistrios constitui-se num desafio s explicaes do
significado da vida. Dessa forma, os sonhos penetram na possibilidade de
que, sendo explicados, possa alcanar-se respostas h muito procuradas
sobre a essncia da vida.

Cada vez mais percebo que as escolas psicolgicas, bem como a sabedoria
popular, as afirmaes da Psicologia Transpessoal e as contribuies do
Espiritismo, no seu conjunto, apresentam uma razovel idia de como
entender e trabalhar com os sonhos. Qualquer dessas abordagens, mesmo
aquela que nos parea a mais completa, tomada em particular,
significaria um seccionamento fragmentrio sobre o conhecimento ainda
incipiente do mundo dos sonhos, o que impediria a percepo de sua
riqueza e de sua importncia para o desenvolvimento psquico do ser
humano. As interpretaes psicolgicas que se dem, nos casos dos sonhos
que apresentem fenmenos considerados como experincias fora do corpo e
que apontam para uma realidade extrafsica de natureza espiritual, no
estaro erradas ou equivocadas, pois tais fenmenos se processam com o
humano, e como tal, sujeito a uma dinmica psquica, quer seja
considerado "vivo" ou "morto". H sempre uma instncia inconsciente onde
eles se produzem. A Psicologia no se furta a estudar tais fenmenos
quando eles se tornam objetos de saber e no crena mgica em algo
"sobrenatural". A priori, no se pode excluir qualquer idia, mesmo que
ela nos parea inverossmil. Nenhum trabalho  obra de uma s pessoa.
Seu inconsciente  constantemente contaminado pelos contedos
assimilados de suas relaes com seus semelhantes. Quem pode dizer que o
que pensa ou sente no  tambm fruto de das contaminaes a que est
sujeito, sem se equivocar ou resvalar pelo egocentrismo? Este trabalho
portanto, alm das colaboraes oriundas de vrias fontes e pessoas,
teve a participao direta de amigos queridos aos quais explicitamente
agradeo. A Rosana pela ajuda na pesquisa, a Lahiri, Rita e Sueli, pela
reviso, a Slzen pela complementao do contedo e aos meus pacientes
pelo material onrico fornecido.

Salvador
Maro de 1998


Conceitos preliminares

A maioria das consideraes emitidas neste trabalho vm da Psicologia
Analtica de Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra suo, de cujas
obras extramos as idias e os conceitos sintetizados adiante,
necessrios  compreenso do significado dos sonhos e de sua importncia
para o desenvolvimento do indivduo. Evidentemente que no temos a
pretenso de apresentar as observaes e idias de Jung, no seu
conjunto, a respeito dos sonhos. Sua obra  por demais vasta, rica e
extensa no estudo dos sonhos. No a conhecemos o suficiente para falar
em seu nome ou dizer que escrevemos numa linguagem junguiana.
Apresentamos apenas algumas idias extradas de parte de sua obra. No
creio que seria possvel a algum, sozinho, alcanar tamanha proeza.
Mesmo aqueles que conviveram de perto com ele, no alcanaram penetrar
na totalidade de suas idias luminosas. Jung foi maior que sua poca.
Nunca mais a Psicologia foi a mesma aps ele. Estabeleceu um marco
divisrio nos estudos da mente humana. O reconhecimento de sua obra veio
ainda em vida, quando novas abordagens psicolgicas surgiram tendo como
razes seus conceitos e suas pesquisas sobre as origens e estrutura do
psiquismo humano. Eis, portanto, os conceitos que considero relevantes
para o nosso fim:


nima

 o aspecto feminino interior do homem. Representa o somatrio das
experincias do homem com mulheres (me, irm, amiga, esposa, amante,
etc.).  a imagem feminina "perseguida" pelo homem. Sua projeo inicial
estabelece-se primeiramente na me e depois sobre outras mulheres.  uma
espcie de imago materna que acompanha e influencia o homem por toda sua
vida. O homem tende a, inconscientemente, comparar toda mulher, que se
apresente a ele, com sua nima. A tentativa de plasmar sua nima numa
mulher tende a se tornar uma operao arriscada e perigosa na vida de
todo homem. Nos sonhos geralmente ela aparece como figuras femininas
sedutoras e arrebatadoras ou mesmo condutoras do sonhador. Quando o
homem se deixa influenciar pelo arqutipo da nima, geralmente ele se
torna melindroso e irritadio, caprichoso, ciumento e vazio. Diz Jung
que: - "A anima  o arqutipo da prpria vida." Ele distinguiu quatro
grandes estgios da nima, personificados como Eva, Helena, Maria e
Sofia, isto , de me, de amante, de deusa e de sabedoria.  nesse
quarto estgio que a nima de um homem funciona como guia da vida
interior, intervindo entre os contedos consciente e inconsciente. Jung
considerava importante o confronto com a nima para o desenvolvimento do
homem.

nimus

 o aspecto masculino interior de toda mulher. Representa o somatrio
das experincias da mulher com homens (pai, irmo, esposo, amigo,
amante, etc.).  a imagem masculina "perseguida" pela mulher. Jung dizia
que " Como a anima corresponde ao Eros materno, o animus corresponde ao
Logos paterno." "O animus  uma espcie de sedimento de todas as
experincias ancestrais da mulher em relao ao homem, e mais ainda, 
um ser criativo e engendrador, no na forma da criao masculina." Daryl
Sharp diz que "Jung descreveu quatro estgios do desenvolvimento do
animus numa mulher. Ele aparece primeiramente nos sonhos e nas fantasias
como a personificao da fora fsica, um atleta, homem musculoso ou
bandido. No segundo estgio, o animus fornece-lhe iniciativa e
capacidade para a ao planejada. Est por detrs de seus desejos de
independncia e de profisso prpria. No estgio seguinte, o animus  a
"palavra" que se personifica muitas vezes em sonhos na figura de um
professor ou de um clrigo. No quarto estgio, o animus  a encarnao
do sentido espiritual. Neste nvel mais elevado,  maneira da anima como
Sofia, o animus  um intermedirio entre a mente consciente da mulher e
seu inconsciente. Na mitologia, este aspecto do animus aparece como
Hermes, mensageiro dos deuses; nos sonhos,  um guia espiritual
prestativo." Tanto quanto da nima,  desejvel a integrao parcial do
nimus a fim de auxiliar o indivduo a lidar com a complexidade das
relaes com as outras pessoas, assim como consigo mesmo.

Aparelho psquico

Expresso utilizada para significar a psiqu ou a totalidade do
psiquismo inconsciente e consciente. Nele se situam todos os processos
psicodinmicos. Nele esto as estruturas dinmicas de identidade e de
relao, alm do Self. As primeiras so o ego e a sombra, as segundas
so a persona e a nima/nimus.

Arqutipo

Estruturas virtuais, primordiais da psiqu, responsveis por padres e
tendncias de comportamentos estruturais. So anteriores  vida
consciente. No so passveis de materializao, mas de representao
simblica. Para Jung, so hereditrios e representam o aspecto psquico
do crebro. So universais, comuns a todos os seres humanos e ordenam
imagens reconhecveis pelos efeitos que produzem. Pode-se perceb-los
pelos complexos que todos temos, pelas imagens arquetpicas que geram,
assim como pelas tendncias culturais coletivas.

Complexos

Os complexos so contedos psquicos carregados de afetividade,
agrupados pelo tom emocional comum. So temas emocionais reprimidos
capazes de provocar distrbios psicolgicos permanentes, e que reagem
mais rapidamente aos estmulos externos'. So manifestaes vitais da
psique, feixes de foras contendo potencialidades evolutivas que,
todavia, ainda no alcanaram o limiar da conscincia e, irrealizadas,
exercem presso para vir  tona. So unidades vivas dentro da psiqu e
que gozam de relativa autonomia. Por vezes somos dirigidos pelos
complexos. Eles no so elementos patolgicos, salvo quando atraem para
si excessiva quantidade de energia psquica, manifestando-se como
conflito perturbador da personalidade. Os complexos tm a facilidade de
alterar nosso estado de esprito, sem que nos apercebamos de sua
presena constelada na conscincia.  semelhana de um campo magntico,
no so passveis de serem observados diretamente, mas por meio da
aglutinao de contedos que lhes constituem. No mago de um complexo
sempre encontramos um ncleo arquetpico.

Conscincia ou Consciente

Atitude psquica que envolve contedos, com forte carga de energia,
acessveis ao ego. Sua base e origem  o inconsciente. Difere do eu ou
ego pelo seu contedo amplo e por ser seu campo de atuao. Geralmente
se ope ao que h no inconsciente. Jung escreveu que "No h conscincia
sem discriminao de opostos."7 Em 19398 , Jung afirmou: - "Nossa
conscincia no se cria a si mesma; mas emana de profundezas
desconhecidas. Desperta gradualmente na criana, e cada manh, ao longo
da existncia, desperta das profundezas do sono, saindo de um estado de
inconscincia.  como uma criana que nasce diariamente do inconsciente
materno. Sim, um estudo mais acurado da conscincia nos mostra
claramente que ela no  somente influenciada pelo inconsciente, como
tambm emana constantemente, do abismo do inconsciente, sob a forma de
inumerveis idias espontneas."

Ego ou eu

 o sujeito da ao consciente. Primeiro complexo a se formar na
conscincia, sendo seu centro. Estrutura-se a partir do inconsciente e
, muitas vezes, confundido com o centro organizador e diretor do
aparelho psquico. Conhecer a si mesmo no  conhecer o eu ou ego, que
s conhece seus prprios contedos, mas, tambm, aquele centro
organizador. O processo de desenvolvimento da personalidade, a
individuao, consiste em diferenciar o ego de suas estruturas
arquetpicas auxiliares. O ego, o Self (centro organizador da psiqu) e
o ego onrico (o eu dos sonhos) so instncias psquicas diferentes. O
ego se baseia no arqutipo do si-mesmo, sendo, de certa forma, seu
agente no mundo da conscincia.

Inconsciente

Constitui-se de contedos sem energia psquica suficiente para atingir a
conscincia.  a parte da psiqu onde se encontram os contedos
arquetpicos. Jung diz que o inconsciente " a fonte de todas as foras
instintivas da psique". Seu contedo no est relacionado de modo
perceptvel com o eu. No inconsciente est tudo que sei, mas que no
estou pensando no momento ou que esqueci; tudo que  captado
subliminarmente, mas no percebido; tudo o que fao involuntariamente
bem como novas elaboraes psquicas a partir do material existente.
Neste ltimo caso atribui-se uma funo criativa ao inconsciente. Tudo
isso poder se tornar consciente algum dia. Muitas vezes estar com os
contedos inconscientes acessveis  conscincia poder provocar
sintomas psicides. Os contedos inconscientes, dispostos de forma
simblica, quando acessveis pela conscincia, devero sofrer a
necessria interpretao. Jung colocou que existem duas espcies de
inconsciente: o pessoal e o coletivo. O pessoal  formado pelas
experincias, reprimidas ou no, que o indivduo tem em sua vida
consciente desde a infncia. O coletivo  resultante das experincias da
humanidade sedimentadas na psiqu coletiva, pela hereditariedade. Os
contedos do inconsciente coletivo, para Jung, no podiam ser adquiridos
individualmente, mas coletivamente. Para ele toda a mitologia seria uma
espcie de projeo do inconsciente coletivo ou psiqu objetiva.

Individuao

 um dos conceitos centrais da Psicologia Analtica de Jung.  o
processo de desenvolvimento da personalidade pela diferenciao
psicolgica do eu.  um processo no qual o ego visa tornar-se
diferenciado da coletividade, embora nela vivendo, ampliando suas
relaes. Para se alcanar a individuao  necessrio se evitar as
tendncias coletivas inconscientes. A individuao respeita as normas
coletivas e o individualismo as combate. O contrrio  individuao 
ceder s tendncias egocntricas e narcisistas ou  identificao com
papis coletivos. A individuao leva  realizao do Self, e no
simplesmente  satisfao do ego.  um processo dinmico que passa pela
compreenso da finitude da existncia material, objetiva, face 
inevitabilidade da morte fsica.

Persona ou mscara

O termo persona deriva das mscaras que os atores gregos usavam para os
diversos papis ou personalidades que interpretavam.  o aspecto ideal
do eu que se apresenta ao mundo e que se forma pela necessidade de
adaptao e convivncia pessoal.  o que se pensa que . Muitas vezes a
persona  influenciada pela psiqu coletiva confundindo nossas aes
como se fossem individuais. Ela representa um pacto entre o indivduo e
a sociedade, sendo um conjunto de personalidades ou uma multiplicidade
de pessoas numa s. A identificao do ego com a persona provoca o
afastamento de nossa identidade pessoal, isto , corremos o risco de no
sabermos quem realmente somos. Somos, ao mesmo tempo, seres individuais
e coletivos, pois temos uma natureza singular como tambm temos atitudes
que nos confundem com a coletividade.

Psiqu

O mesmo que aparelho psquico. Representa a totalidade das funes
psquicas e todos os processos que envolvem o deslocamento de energia a
servio do processo de individuao. Engloba no s os processos
conscientes e inconscientes como tambm aqueles que fogem ao domnio
imediato da realidade. Nele se encontram os opostos que anseiam em se
completarem. Jung dizia que a psiqu  o princpio e o fim de todo o
conhecimento,  o objeto e o sujeito da cincia. So quatro os nveis da
psiqu: conscincia pessoal, inconsciente pessoal, conscincia coletiva
e inconsciente coletivo.

Self ou si-mesmo

 o centro organizador da psiqu.  o arqutipo da totalidade.  a
unidade e a totalidade da personalidade do indivduo.  o centro do
aparelho psquico, englobando o consciente e o inconsciente. Como
arqutipo, se apresenta nos sonhos, mitos e contos de fadas como uma
personalidade superior, como um rei, um salvador ou um redentor.  uma
dimenso da qual o ego evolui e se constitui. Jung dizia que: - "O
si-mesmo tambm pode ser chamado o Deus em ns.", e completava
acrescentando que "o si-mesmo est para o eu, assim como Sol est para a
Terra." Isso nos faz entender melhor qual  a relao entre o centro
diretor da conscincia e o centro organizador da vida psquica do
indivduo. O Self  o arqutipo central da ordem, da organizao. So
numerosos os smbolos onricos do Self, a maioria deles aparecendo como
figura central no sonho.

Smbolo

Representa algo cuja existncia  reconhecida, porm no se revela
presente. "O smbolo, no entanto, pressupe sempre que a expresso
escolhida seja a melhor designao ou frmula possvel de um fato
relativamente desconhecido, mas cuja existncia  conhecida ou
postulada." "Uma expresso usada para designar coisa conhecida continua
sendo apenas um sinal e nunca ser um smbolo." Pode-se, portanto,
inventar um sinal, nunca um smbolo. Os smbolos tm a capacidade de
transformar e redirecionam a energia psquica instintiva em favor do
processo de desenvolvimento da personalidade. Eles so produzidos
constantemente na psiqu e surgem nos sonhos e nas fantasias.

Sombra

Representa o que no sabemos ou negamos a respeito de ns mesmos. A
sombra  o arqutipo que representa os aspectos obscuros da
personalidade e desconhecidos da conscincia e que est mais acessvel a
ela. Normalmente temos resistncia em reconhecer e integrar a nossa
sombra, o que nos leva inconscientemente s projees. Essa integrao 
geralmente feita com relativo esforo moral. A sombra representa o que
consideramos mal e no nos damos conta de que nos pertence, fazendo
parte de ns tanto quanto o bem. A sombra contm o bem e o mal
desconhecidos ou negados em ns, ou que no foram conscientizados.
Portanto,  acertado dizer-se que a sombra contm tambm qualidades
boas. Ela d lugar  persona por uma necessidade de adaptao social.
Sua exposio torna o indivduo inadequado e inviabiliza sua convivncia
harmnica. Nos sonhos, a sombra costuma aparecer como personagens do
mesmo sexo do sonhador, muitas vezes em atitudes aversivas ou como
algum conhecido e antipatizado por ele. Temos uma tendncia a projetar
as caractersticas pessoais da sombra nos outros, considerando-os
moralmente inferiores. Reconhecer a prpria sombra  um grande passo no
processo de individuao. A sombra se ope  persona e ambas se
relacionam num regime mtuo de compensao.

Estes conceitos so necessrios  compreenso de boa parte do contedo
deste trabalho, muito embora no representem condio essencial, pois a
compreenso dos sonhos no passa pela necessidade de um sistema de
cdigos. A grande complexidade do tema exige abordagens diversas para
melhor percepo de seu significado. No h frmula padro como no h
essencialmente um sonho igual a outro.


O significado dos sonhos

A natureza  mais complexa e ao mesmo tempo muito mais simples e bela do
que supomos. Apresenta nuances cujo deleite s  possvel se
transcendermos a esfera comum da anlise fria e racional, tpica do
arcaico pensamento excessivamente dogmtico e racionalista da
humanidade. Ao ser humano, hoje, exige-se um estado de percepo do
mundo, coerente com a beleza prpria da natureza. O mundo no se
constitui apenas do que  apreendido pelos sentidos, que a lgica nos
obrigou a descrever a partir do organicismo tpico dos sculos XIX e XX.
O mundo dos sonhos vem nos mostrar uma outra faceta da mesma realidade,
antes observada pelas lentes embaadas do intelecto, muitas vezes de
modo inconseqente, pois foi a conscincia racional dos homens que gerou
guerras. Sua interpretao pela conscincia  apenas uma possibilidade
de compreenso que, alm de ser deformada, no aambarca a realidade dos
sonhos como um mundo em si, rico de imagens, smbolos, emoes, enfim,
de vida. Os avanos cientficos do sculo XX e as descobertas que se
prenunciam para o sculo XXI, principalmente no campo da Fsica Quntica
e da Psicologia, levaro a uma compreenso mais adequada do campo dos
sonhos. A estreiteza de sua compreenso no se deve propriamente a seus
estudiosos, mas, tambm, aos limites estabelecidos pela poca em que
viveram e vivem. Trata-se de uma ausncia de faculdades psquicas que
pudessem permitir uma maior compreenso da realidade. Isso equivale 
falta da capacidade de voar de algumas aves de grande porte, cuja
deficincia foi suprida pela evoluo que lhes direcionou para a
estruturao da convivncia social, junto  natureza-me, na terra. O
vo do ser humano dever ser mais alto e mais prximo ao si mesmo,
credenciando-o  compreenso da natureza real do que  gerado em seu
aspecto desconhecido e incomensurvel, onde qualquer teoria preconcebida
seria no mnimo incompleta. Costumo dizer aos meus pacientes que seus
sonhos so mais importantes do que o que sua conscincia me diz. Atravs
deles, estabelecemos um dilogo permanente entre o que ele
conscientemente no consegue me dizer e que ele necessita saber. queles
que costumam dizer que no sonham, afirmo-lhes categoricamente, buscando
induzir-lhes, que a partir daquele dia (primeira ou segunda sesso) eles
sonharo, basta que assim o desejem.

Dormir no se ope ao estar desperto ou acordado do ponto de vista
psicolgico, tampouco o sonhar se ope ao sono. Enquanto se dorme,
processam-se fenmenos riqussimos que podem mudar a vida da pessoa. A
atividade do sono est ligada  vida ntima do ser humano. O sonho, como
atividade onrica, revela de forma sinttica a riqueza fantstica do
dormir. O sono  uma importante fonte de prazer do ser humano, muito
embora, s vezes, pode revelar-se doloroso para o ego ao mostrar-lhe,
atravs do sonho, situaes e contedos que vo de encontro s suas
tendncias e aspiraes conscientes.

O sonho  um grito inaudvel e frutfero do senhor da vida psquica, o
Self, e, portanto, tambm da conscincia, contra seu algoz, o sono, que,
embora facilite a emisso da mensagem de forma direta, impede a
manuteno da conscincia do ego.  a tentativa exitosa do ego em
perpetuar-se, face aos receios temerosos da conscincia. O sonho 
impondervel e improvvel. Qualquer que seja o estado do sonhador,
durante e depois do sonho, ele  simultaneamente fascinante, misterioso
e paradoxal. Traz  conscincia uma situao mgica e singular, variando
do maravilhoso ao sobrenatural, do divino ao dantesco, do incrvel ao
absolutamente verdadeiro. s vezes, nos levam a momentos inesquecveis,
a situaes de deleite intraduzveis, de cuja sensao no queremos nos
desligar. Outras vezes, nos trazem medo e pavor ou angstia, dando-nos
um aperto no corao. Sua linguagem  completamente simblica e nem
sempre encontra correlaes na cultura do sonhador. Sua mensagem,
portanto, se levada ao p da letra, nem sempre poder ser compreendida.
Eles tm a peculiaridade de nos apresentar geralmente uma situao de
conflito. Digo geralmente, pois os sonhos podem ser gerados exatamente
pelo oposto. Nem sempre o so por um conflito, mas pela satisfao em
relao a algo que deve chegar  conscincia. Quando os explanamos, as
palavras mas, porm, entretanto, parecem se repetir com muita
freqncia. Uma situao oposta ou contrria  normalidade consciente
surge nos sonhos e esse estado pode ser extremamente varivel.

Ao mesmo tempo que o sonhador quer uma anlise de seu sonho, ele elabora
uma que atende imediatamente a ansiedade que porventura tenha sido
provocada. Caso sua anlise seja contrariada, ele buscar entender a que
lhe foi dada e readaptar a anterior visando obter mais alvio 
conscincia. O sonho  algo improvvel, salvo pelo depoimento do
sonhador, nica e solitria testemunha de seu objeto de curiosidade. 
uma daquelas ocorrncias da vida psquica do ser humano que o obriga a
uma resposta sobre sua gnese, pela sua incognoscibilidade inicial. Tudo
que diz respeito ao psiquismo humano  objeto de controvrsias, quanto a
sua gnese, nas mais variadas escolas que estudam o comportamento
humano. Os sonhos no escapariam a essa discusso. Umas os consideram
fantasia, frutos da imaginao, portanto sem valor cientfico; outras os
colocam como uma espcie de subproduto psquico, algo que se elimina
como material imprestvel. Porm seu valor, causal e finalista ao mesmo
tempo, tem sido defendido ultimamente.

Em que pese nem sempre ser possvel a compreenso do seu sentido, as
conseqncias de sua ocorrncia, porm, so observveis. Muitas pessoas
alteram seu humor a partir da lembrana, ao acordar, do sonho. Outras
tomam atitudes aps seus sonhos, ou mesmo realizam projetos aps
lembrar-se deles. Mesmo assim, eles sugerem interrogaes e desejos de
compreenso. Em que meio eles ocorrem? Como so provocados? Qual o
material de que se utilizam?  possvel domin-los? Para que ocorrem?
So interrogaes comuns de todos os sonhadores. Muito lgico que
entendamos que o sonho se processe numa instncia inconsciente e, por um
mecanismo desconhecido, alcance o crtex, pois, para ser lembrado,
dever ser impresso nos neurnios cerebrais. Esse "imprint" deve
alcanar neurnios novos, cujo poder de reteno  mnimo, fazendo com
que os sonhos sejam facilmente esquecidos. Essa probabilidade dos sonhos
ficarem registrados em neurnios novos parece se assemelhar 
possibilidade de existir uma memria virtual, voltil, que se inibe com
a atividade consciente. A fora de certas imagens onricas parece no
conter energia suficiente para permanecer retida no crtex por muito
tempo, tendo em vista no contarem com o mecanismo associativo
proporcionado pelo ego.

So pensamentos no pensados, no elaborados ou elaboraes mentais
irrompidas  conscincia sem que esta tome qualquer iniciativa. So
emanaes do inconsciente no controladas pela conscincia, no sendo
possvel sonhar-se exatamente como e o que se deseja. O sonho , muitas
vezes, perturbador, revelando os mais dramticos conflitos interiores e,
por ser inconsciente, leva o indivduo  ansiedade,  angstia e a
estados de humor incontrolveis. Pelo mesmo motivo, podem levar o
sonhador a estados felizes e ditosos incomensurveis, aliviando as
tenses entre o consciente e o inconsciente. Sua interpretao sempre
despertou vivo interesse nas pessoas e vem desafiando srios estudiosos
quanto  sua veracidade e alcance. Tentarei neste trabalho trazer alguns
apontamentos que venho fazendo em meu trabalho clnico, sem contudo
achar que trarei algo novo ou que no tenha sido objeto de estudos
anteriores. De qualquer forma o assunto  palpitante, emocionante e que
transcende a esfera clnica. Espero trazer algo de bom quele que o ler.


Dormir: estar desperto para uma realidade plena

H pessoas, cujo hbito de dormir  -lhes extremamente importante e
chegam a no trocar qualquer outro prazer por um bom sono. Vivem sob o
domnio de Morfeu, a quem se entregam prazerosamente. Porm h aqueles
para os quais dormir representa algo extremamente desagradvel e
dispensvel. Suas ocupaes dirias so mais importantes que seu sono.
Dormem mal e acordam mal. A insnia pode representar tambm a fuga do
estado onrico desagradvel. A dificuldade de dormir associa-se 
preocupao latente por algo importante na vida de viglia, mas tambm
por algo incognoscvel e complexo na vida ntima da pessoa. Se no
fossem os sonhos, poder-se-ia dizer que o sono  uma morte com direito a
retorno, face ao seu estado de absoluta inconscincia. Mas os sonhos
perturbam' o sono demonstrando um estado "consciente" alm da
conscincia desperta. O sonho  um recado do Inconsciente (Self) para o
Consciente (ego).  uma mensagem com endereo certo, sem devoluo,
pois, sempre chega ao seu destino, independente da vontade consciente do
ego. Ele tem um papel orientador e regulador da relao das duas
instncias psquicas conhecidas, o inconsciente e o consciente. Na
leitura de textos sobre sonhos, oriundos de vrios autores, observamos
nas anlises e interpretaes dos mesmos uma certa funo auxiliadora
dos sonhos. Parece que os autores so unnimes em lhes atribuir tal
carter. Os sonhos atuam a servio do desenvolvimento do ser, denotando,
simultaneamente, os sentidos evolutivo e curativo de que so portadores.
Independente destes dois aspectos, o ato de dormir e sonhar certamente
refletiro no estado de esprito da pessoa no dia seguinte. Ter um sono
tranqilo representa um bom incio de dia para qualquer pessoa, porm h
quem j acorde de mal com a vida, como se o mundo lhe fosse extremamente
adverso, em face de um mau sonho. Geralmente isso ocorre em funo de um
sono intranqilo e mal dormido, principalmente se seus sonhos chamarem a
ateno aos aspectos negados ou aversivos. Muitas vezes acordamos com a
sensao de ter experimentado algo muito importante, agradvel e
fascinante, diferente de tudo que se viveu antes. Parece que, durante o
sono entramos em contato com uma natureza extremamente prazerosa capaz
de fazer com que os fatos e fenmenos do estado de viglia paream sem
importncia.  o sono com sonhos profundos que nos mantm em contato com
nossa natureza essencial e divina.

Os sonhos refletem o passado, o presente e o futuro, bem como situaes
atemporais. Tempo e espao so relativizados nos sonhos assim como a
noo de causalidade. No se pode querer que os sonhos apresentem a
mesma seqncia cronolgica de eventos como na conscincia. Se assim
fosse no seriam sonhos, mas apenas a continuidade da vida de viglia.
Tratam de uma natureza que escapa  maneira ortodoxa e rgida de ver os
fatos como o faz a conscincia. Todo sonho tem uma mensagem que, quando
no entendida pelo ego do sonhador, se repetir at que o processo de
crescimento tenha atingido seu real objetivo. Essa mensagem  que tem
sido objeto de busca e compreenso. Nem sempre ela  encontrada,
principalmente devido  forma pragmtica e preconcebida como a buscamos.
A parte da mente que busca o significado dos sonhos no  a mesma que os
elabora. Talvez o grande desejo do sonhador seja ter o domnio da
conscincia durante seu sonho a fim de observar melhor o universo em que
eles so elaborados. Essa tentativa de manter sua vitalidade  vencida
pelo processo fisiolgico natural do sono. Quando a conscincia retorna,
ela tenta, da mesma forma, compreender os sonhos, resvalando em sua
prpria incapacidade de penetrar nos domnios que no lhe pertencem.

Pensar sobre os sonhos, anot-los, tentar interpret-los, ou dar-lhes
qualquer ateno, disparar um mecanismo psquico que produzir novos
sonhos criados pelo fato de lhes atribuirmos algum valor. Isso nos leva
a entender que sonhos que so criados pela observao que fazemos deles,
segundo o princpio da incerteza ou da indeterminao de Heisenberg, de
que o objeto observado se altera com a viso do observador. Jung se
refere a esse princpio, agradecendo ao fsico norte-americano de origem
austraca, Prmio Nobel de 1946, Wolfgang Pauli, por t-lo ajudado a
entend-lo.

Os registros encefalogrficos mostram traados durante o sonho
semelhantes aos obtidos no estado de viglia. Enquanto o estado de
viglia caracteriza-se pela coerncia consciente de contedos, os sonhos
apresentam uma certa coerncia temtica de imagens visuais. Com os
estudos acadmicos os sonhos deixaram de pertencer ao domnio das
teorias, tornando-se objetos de investigao experimental. As
descobertas eletroencefalogrficas foram fundamentais para que se
avanasse nos estudos sobre sonhos e se criassem laboratrios em vrias
partes do mundo exclusivamente para pesquisas onricas. Alm dos estados
de sono, de despertar e de conscincia absoluta, a filosofia hindu
considera o sonho um dos estados de conscincia em que o irreal passa a
ser real, o subjetivo passa a ser objetivo. No volume XI das Obras
Completas sobre Ramana Maharshi, encontramos suas impresses sobre os
sonhos, na seguinte questo: Pergunta 2214 - No existe diferena entre
viglia e sonho? Resposta - "A viglia  longa e o sonho curto; essa  a
nica diferena. Assim como os acontecimentos do perodo de viglia
parecem reais enquanto estamos despertos, tambm os acontecimentos do
perodo de sonho parecem reais enquanto sonhamos. No sonho, a mente toma
outro corpo. Tanto no estado de viglia como no estado de sonho,
pensamentos, nomes e formas ocorrem simultaneamente."

Muito provavelmente os sonhos apresentem uma marca registrada do
sonhador. Cada indivduo possui um certo padro de sonho cuja
caracterstica bsica torna-se sua identidade essencial. Cada sonhador
apresentar, sempre, um estilo prprio de sonho, independente de seu
conflito pessoal ou das imagens arquetpicas que utilizar. Como o sonho
 uma realidade do sonhador, nele vamos encontrar sua identidade e seu
estado psquico.


Pesquisas sobre sonhos

A neurofisiologia ainda se encontra embrionria para a compreenso das
mudanas bioqumicas que ocorrem durante o sono, sobretudo na conexo
porventura existente entre a qumica cerebral e os sonhos. Sem dvida
que substncias qumicas alteram os padres de sono, conseqentemente
modificam os sonhos, porm no se sabe o que elas alteram e de que forma
o fazem. O desenvolvimento da compreenso fisiolgica dos sonhos
indiscutivelmente se inicia com a inveno do eletroencefalograma por
Hans Berger, que demonstrou que as ondas cerebrais no cessam durante o
sono. Porm, a primeira descoberta importante no campo dos sonhos se deu
com o estudante americano Eugene Aserinsky, em 1953, que, orientado por
seu professor de fisiologia Nathaniel Kleitman, percebeu, ao observar
crianas dormindo, que seus olhos mexiam intensamente durante o sono,
mesmo depois de cessada a atividade corporal. Esse estgio do sono
passou a chamar-se, por aquele motivo, REM (Rapid Eyes Movement 
movimento rpido dos olhos'), cujas ondas cerebrais se aproximam muito
daquelas do estado de viglia. O estgio REM  chamado de sono paradoxal
ou dessincronizado.

 principalmente no estgio REM que os sonhos ocorrem. Enquanto cerca de
noventa e cinco por cento das pessoas acordadas durante esse estgio se
lembram dos sonhos, apenas dez por cento se lembram dos sonhos quando
acordadas em outros estgios do sono (sono No-REM). As pessoas privadas
do sono REM tm dificuldade de concentrao e memria fraca e as pessoas
privadas do sono NREM mostram-se cansadas e lentas. Nathaniel Kleitman
escreveu sobre o tema, tendo publicado suas pesquisas pela Universidade
de Chicago, com o ttulo Padres de Sonhos, que a seguir comento e, s
vezes, transcrevo suas palavras para no lhes alterar o contedo, que,
com certeza traz informaes preciosas aos estudiosos do assunto.

Ele inicia criticando as interpretaes dos sonhos como vises
profticas e como determinadores da personalidade, destituindo-lhes o
valor cientfico. Porm ele admite a dificuldade do pesquisador que
queira investigar o processo do sonho revelando o motivo: - "Somente a
pessoa que dormia  que pode, ao despertar, testemunhar o fato de ter
sonhado. Se ela afirma que no sonhou, pode ser que tenha esquecido seu
sonho." Admitindo essa dificuldade ele prossegue em sua investigao e
chega a descobrir um modo objetivo e aparentemente confivel de
determinar se uma pessoa adormecida est sonhando  no sentido,  claro,
de seu "relato de ter sonhado" quando ela acorda ou  acordada. O
indicador objetivo do sonho, caracterizado por um padro diferenciado de
ondas cerebrais, tornou possvel marcar o incio e a durao de
episdios de sonho durante a noite, sem perturbar a pessoa adormecida.
Ele tambm pode despert-la e interrog-la aps constatar o incio de um
sonho. Ele determinou que h uma periodicidade no sonho e observou as
conseqncias dos esforos para perturbar essa periodicidade. Os
resultados indicam que o sonho, como um processo fisiolgico
fundamental, est relacionado a outros ritmos do corpo. Seu trabalho
procura responder a questes como: Ser que todos sonham? Quanto se
sonha no decorrer de uma noite de sono? Est o "enredo" de um sonho
realmente condensado num momento de sonho? Os estmulos externos e
internos  luz, barulho, fome ou sede  afetam o contedo dos sonhos?

Foi com o trabalho de Eugene Aserinsky que se descobriu
que os movimentos oculares forneciam u meio mais confivel
para distinguir entre as fases ativas e as tranqilas do sono. Antes
isso era feito atravs dos grandes movimentos corporais. Suas
observaes sugeriram que os movimentos oculares poderiam ser
usados para seguir ciclos semelhantes na profundidade do sono
em adultos. O incmodo para a pessoa adormecida era
minimizado controlando-se remotamente os movimentos oculares
com um eletroencefalgrafo, um mecanismo que registra os sinais
eltricos fracos continuamente gerados pelo crebro. Tais
movimentos oculares comeavam geralmente aps uma hora e
meia de sono e se repetiam em perodos de tempo irregulares
durante todo o sono.
Embora a pessoa adormecida estivesse imvel, as taxas de
pulsao e respirao aumentavam durante o sono REM,
sugerindo uma atividade cerebral emocionalmente15 carregada.
Ele testou essa hiptese acordando a pessoa e questionando-a
sobre o que ocorria naquele momento do despertar.
Muito embora as pesquisas de Kleitman no pudessem
alcanar o contedo dos sonhos, elas chegaram a determinar os
momentos de seu incio e fim. Mesmo sabendo que no poderia

entrar no mrito do "enredo" (como ele chama o contedo, com aspas) ele
anotou: - "O contedo alucinatrio dos sonhos parecia, desse ponto de
vista, ser apenas expresso de um tipo grosseiro de atividade executada
no crtex cerebral durante uma certa fase do sono." Vale salientar que
afirmar ser alucinatrio o contedo do sonho, vem mais do preconceito
dele do que de suas pesquisas.

Analisando, tambm distante dos resultados de suas pesquisas, a ausncia
de censura do sujeito do sonho (que supe ser o prprio sonhador e no o
ego onrico), ele afirma o seguinte: " instrutivo observar o contraste
com o tipo de atividade cerebral que caracteriza o estado de viglia em
adultos sadios e crianas mais velhas. Respondendo aos impulsos que
chegam dos vrios rgos receptores do sistema sensorial, o crtex
primeiro os submete  anlise. Relaciona o momento presente da
experincia com sua memria do passado e projeta passado e presente no
futuro, pesando as conseqncias da ao no realizada. Chega-se a uma
deciso, e o crtex gera uma resposta integrada. Esta se manifesta na
ao dos rgos efetores (principalmente msculos) ou na inibio
deliberada de ao. (Boa parte do comportamento civilizado consiste em
no fazer o que naturalmente se faria). No processo de sonho, o mesmo
tipo de atividade cortical se processa num nvel inferior de desempenho.
A anlise dos fenmenos  falha; o sonhador reconhece um amigo falecido,
mas aceita sua presena sem surpresa. A memria  cheia de fendas e traz
confusamente o passado  superfcie. Conseqentemente, a integrao da
resposta cortical  incompleta e o sonhador  muitas vezes levado a
cometer imaginariamente atos anti-sociais. Felizmente, os impulsos do
crtex adormecido morrem a caminho dos rgos efetores e nada de mal
acontece." Em seu trabalho ele tambm verificou que alguns sujeitos
relataram que estavam sonhando durante perodos em que no mostravam
movimentos oculares rpidos. E, algumas vezes, durante o sonho, o
corao e a taxa de respirao diminuam, ao invs de se acelerarem.
Kleitman, citando William Dement, outro estudante de seu laboratrio,
afirma que o critrio mais confivel para se registrar o momento do
sonho  o padro de ondas cerebrais. Ele descreve esse critrio a partir
dos registros encefalogrficos de uma pessoa em estado de viglia e
tambm dormindo. Diz ele: "Uma pessoa que est acordada, mas em repouso,
com os olhos fechados, mostra o chamado ritmo alfa  ondas cerebrais com
uma amplitude relativamente grande e uma freqncia de oito a treze
ciclos por segundo. Quando adormece, a amplitude das ondas diminui e o
ritmo cai para quatro a seis ciclos por segundo. Dement denominou esse
padro de eletroencefalograma Estgio 1. O sono mais profundo se
caracteriza pelo aparecimento de "fusos de sono"  sries curtas de
ondas que aumentam e diminuem progressivamente na amplitude e tm uma
freqncia de 14 a 16 ciclos por segundo. Dement dividiu esse nvel de
sono em dois estgios (EEG Estgio 2 e EEG Estgio 3). O nvel mais
profundo do sono caracteriza-se pelo aparecimentos de ondas grandes e
lentas (EEG Estgio 4). Durante uma tpica noite de sono, a profundidade
do sono flutua num ciclo que dura aproximadamente 90 minutos. O p adro
do EEG passa o estgio 1. Durante ciclos posteriores o sono no pode ser
to profundo; o padro do EEG pode no ir alm do estgio intermedirio
antes de retornar ao estgio 1." Kleitman afirma que os movimentos
oculares rpidos podem ser horizontais ou verticais e que parecem
representar um laborioso esquadrinhar da cena da ao do sono, isto , a
qualidade e direo dos movimentos oculares correspondem ao que o
sonhador est olhando ou seguindo com seus olhos. Alm disso, movimentos
oculares rpidos parecem estar relacionados com o grau em que o sonhador
participa dos acontecimentos do sonho. Um sonho "ativo", no qual o
sonhador est muito envolvido,  mais provavelmente acompanhado de
movimentos oculares rpidos do que um sonho "passivo". e Isso nos l va a
acreditar que o sonho, cujo contedo se transforma em imagens
impressionveis no crtex, interfere no organismo do indivduo a ponto
de lhe transmitir m ovimentos, mesmo que sejam apenas nos olhos, tal
qual um filme que se assiste. Edward A. Wolpert, tambm da Universidade
de Chicago, registrou potenciais eltricos de ao tambm nos msculos
dos membros de sonhadores, que, ao serem acordados durante o sono REM,
relataram estarem fazendo movimentos com aqueles membros na mesma
seqncia registrada nos eletrodos. Essa interferncia no pode nos
levar a afirmar que tais sonhos no sejam meramente simblicos, ou que
retratem o sonhador, num estado psicofsico ("viagem astral") realizando
alguma atividade fsica no momento do sono. A atividade registrada no
eletroencefalograma quer apenas dizer que o sonho interfere no organismo
numa medida capaz de ser captada visualmente, pelos movimentos oculares,
e eletricamente, pelo aparelho. Nathaniel vai mais longe justificando o
sonambulismo a partir do defluxo motor registrado, em grau extremo. Essa
constatao cientfica derrubou por terra a hiptese que afirmava serem
os contedos onricos oriundos dos movimentos corporais durante o sono,
isto , o sonhar com um movimento era fruto do prprio movimento
corporal durante o sono. Por exemplo: um sonho onde o sonhador est cego
seria mero reflexo de sua dificuldade em abrir os olhos ao acordar.

Aps suas pesquisas ele afirmou seguramente que todos sonhavam e o
faziam repetidamente toda noite, de acordo com os relatos obtidos
daqueles que foram acordados nos momentos adequados. Ele diz que h
`recordadores' e `no-recordadores'. Para testar a idia de que os
estmulos externos podem afetar os sonhos de algum, Dement e Wolpert
expuseram alguns sujeitos aos estmulos de som, luz e gotas d'gua
durante o perodo de sonho. O resultado foi o seguinte: "Elementos
sugestivos de tais estmulos apareceram apenas numa minoria dos sonhos
recontados depois. O estmulo mais sugestivo foram as gotas d'gua
caindo na pele. Quedas d'gua apareceram em seis dos quinzes sonhos
relatados depois de o sujeito ter sido despertado por esse estmulo, e a
gua apareceu em l4 das 33 narrativas quando as pessoas estiveram
sujeitas ao estmulo, mas no haviam sido despertadas por ele. Uma
campainha eltrica usada rotineiramente para despertar os sujeitos
apareceu em vinte dos 204 sonhos, mas freqentemente como uma campainha
de telefone ou de porta. Afirmou-se que estmulos internos, das
vsceras, provocariam ou ao menos i fluenciariam os sonhos. Afirmou-se
que os sonhos sobre comer so estimulados por contraes de um estmago
vazio. Dement e Wolpert tinham trs sujeitos que passaram sem lquidos
durante vinte e quatro horas. Em cinco ocasies, apenas cinco das quinze
narrativas de sonho continham elementos que poderiam relacionar-se com a
sede. Em nenhum dos casos a narrativa envolveu uma conscincia da sede
ou descries de beber, embora os sujeitos estivessem muito sedentos
quando foram para cama."

Nathaniel tambm verificou o tempo versus quantidade de sonho recordada,
chegando  concluso de que quanto mais tempo se durma depois do sonho
menos o sonhador se recorda dele. De suas pesquisas ele concluiu que os
sonhos ocorrem em intervalos de noventa minutos e com durao mdia de
trinta e cinco minutos cada, tendo-se em mdia de trs a cinco perodos
de sonho, num total de uma ou duas horas de sonho por noite. Foram
realizadas 2343 sesses de sono, com 33 sujeitos. Dement concluiu que,
provisoriamente, suas descobertas so indicativas de que "uma certa
quantidade de sonho  uma necessidade". De uma forma bastante
pragmtica, Kleitman conclui em seu relatrio que os sonhos podem no
ter qualquer funo significativa. Vale lembrar que a atividade cortical
nos primeiros estgios do sono  diferente daquela registrada ao
acordar-se. Os eventos e pensamentos do dia certamente estaro presentes
nos sonhos ocorridos no incio do sono. Os sonhos que se do no final do
sono certamente so mais profundos, isto , alcanam contedos mais
inconscientes, principalmente pela pouca influncia cortical. David
Feinstein coloca que "H vigorosos paralelos entre essa estrutura e as
descobertas feitas nas pesquisas de Rosalind Cartwright, que identificou
um padro noturno, em que os sonhos iniciais tendiam a rever
preocupaes no resolvidas do dia anterior. Em seguida vm os sonhos
que consideram cenas do passado em que problemas anlogos de seus
sonhos, onde justifica-os pelas suas crenas da infncia e nas
dificuldades inconciliveis entre suas pernas e o cobertor. Para ele, os
sonhos estavam relacionados no apenas com a sensao de um estado, mas
simplesmente com a sensao e postura do corpo no momento dado. foram
enfrentados anteriormente; depois, vm os sonhos orientados pelo desejo,
em que h a sensao de que o conflito foi resolvido. Os sonhos finais
tentam integrar os vrios elementos da seqncia de sonhos numa
resoluo vivel do conflito."

Comentrios

As experincias de Kleitman no devem ser tomadas como a ltima palavra
sobre os sonhos. Sem sombra de dvidas representam um avano sobre o
estudo do tema, mas requerem uma reviso tendo em vista o longo tempo
que separa a poca (1953) da sofisticao atual dos aparelhos que a
medicina se utiliza para a investigao cerebral. Estabelecer o momento
em que se pode detectar, por meio de uma alterao de freqncia
cerebral, que se esteve sonhando, no quer dizer que se desvendou o
significado dos sonhos ou de sua teleologia. Mesmo considerando que
Kleitman se utilizou de todo o rigor cientfico exigido, suas concluses
no devem ser generalizadas. Elas no trouxeram uma compreenso do
significado dos contedos dos sonhos. Concluses mais significativas
teremos quando for possvel alcanar uma amostra mais representativa,
num tempo maior de pesquisa. Observamos, em certos aspectos, que seu
trabalho teve uma preocupao em investigar os pressupostos
psicanalticos. Esse fator pode, de alguma forma, ter provocado um certo
vis em seu trabalho. Estudos posteriores, sobretudo os de Krippner
(1994), vieram trazer maiores resultados.

O que  o sonho (resumo histrico)

Certamente que os sonhos so mais complexos que os conceitos que temos
deles.  uma atividade que se processa de forma espontnea em todos os
seres humanos, capaz de ser registrada cientificamente. As primeiras
notcias histricas sobre sonhos, citadas no livro No Mundo dos Sonhos,
da Time-Life Books, editado por Janet Cave, afirmam existir referncia
no ano 2070 a. C., de um certo Rei Mericate, do Egito, que dizia ser o
sonho uma intuio de um futuro possvel. Posteriormente a ele, citados
pela Bblia, h os sonhos de Jos, bem como aqueles por ele
interpretados, cujo conceito se prende a uma certa premonio a partir
das imagens simblicas trazidas pelo sonhador. No  difcil encontrar
na histria da humanidade poetas, pensadores, filsofos, homens de
cincia, religiosos, visionrios, escritores, etc., que tenham escrito
algo sobre sonhos, cuja natureza mgica a todos eles fascinou. Nas
civilizaes mais antigas, na China, na Grcia, na ndia, e mesmo na
Europa, os sonhos exerceram, e exercem, uma atrao irresistvel pela
sua proximidade com o maravilhoso, o espiritual, o divino.

Pode-se, sem sombra de dvida, afirmar que tal encanto pelos sonhos se
deve  sua identidade com a essncia mtica e transcendente do ser
humano. Os antigos viam os sonhos sob pontos de vista diferentes. Alguns
eram cticos a ponto de os tratarem como fantasias. Outros, sob a tica
religiosa, acreditavam tratar-se de sugestes demonacas. Outros
acreditavam que eles vinham dos deuses que queriam avisar sobre os
destinos humanos, utilizando-os nas prticas adivinhatrias. Outros
acreditavam tratar-se de sintomas das doenas, sendo eles avisos sobre
as partes doentias, ou que se tratavam de delrios semelhantes aos dos
loucos e eram sinais de quem estava perturbado mentalmente. Alguns, como
os pitagricos, aceitavam a tese de que os sonhos eram estados da alma
que se emancipava entrando em contato com outros seres no mundo no
corpreo. Porm, o mais famoso trabalho sobre sonho vem de Artemidoro de
feso, datado de cerca de 150 d.C., cujo ttulo era Oneirocriticon (A
Interpretao dos Sonhos), onde ele colocava a realidade do sonho como
inerente ao sonhador. Ele dizia, nos cinco volumes de sua obra, que
continha a anlise de cerca de 3000 sonhos, que podem ser de cinco
tipos: simblicos, profticos, fantasiosos, pesadelos e vises diurnas.
Os antigos acreditavam que os sonhos estavam relacionados com o mundo
dos seres supra-humanos, com os deuses e com os demnios. Na Grcia
antiga existiam templos dedicados  cura advinda da interpretao dos
sonhos do doente. Hipcrates (460  351 a.C.) j relacionava os sonhos
com as doenas. Aristteles, filsofo estagirita grego (383  322 a.C.),
acreditava que os sonhos eram demonacos, mas que tambm revelavam
aspectos mrbidos do corpo alm de serem fragmentos de lembranas dos
fatos do dia.

Porm a efetiva entrada do estudo sobre os sonhos no mundo cientfico
acadmico se deu com o tambm famoso trabalho sobre o tema: A
Interpretao dos Sonhos, de Sigmund Freud (1856-1939), datado de 1900.
Sem dvida nenhuma, sua teoria sobre os sonhos como realizao
(disfarada) de desejos inconscientes abriu um imenso leque de estudos e
proposies para os que se dedicavam ao tema. Talvez essa importncia se
deva  prpria teoria freudiana do inconsciente. A percepo da
existncia do inconsciente como instncia psquica e como gerador dos
sonhos foi fundamental para o desenvolvimento de sua compreenso.  do
trabalho de Freud que extramos a maioria dos nomes e resumos das
abordagens dos seguintes autores que se dedicaram ao estudo dos sonhos:
Kant (1764)  Afirmava que "o louco  um sonhador acordado."; Cabanis
(1802) e Lelut (1852)  Estabeleciam um certo parentesco entre os sonhos
e as desordens mentais; Burdach (1838)  Criticava a teoria de que o
sonho era um estado de viglia parcial. Ele dizia que o sonho  uma
atividade natural da mente e que era a vitalidade livremente operante
dos centros sensoriais; Krauss (1861)  Ele dizia que "a loucura  um
sonho que se teve enquanto os sentidos esto despertos."; Griesinges
(1861)  Ele afirmava que "As idias nos sonhos e nas psicoses
apresentam em comum a caracterstica de serem realizaes de desejos.";
Scherner (1861)  Para ele, o material das imaginaes onricas, alm de
serem estmulos somticos orgnicos, falam por smbolos e no por
palavras. Dizia que interpretar um sonho  atribuir-lhe um significado;
Robert (1866)  Descreve os sonhos como um processo de excreo somtico
que conscientizamos quando reagimos a ele e que servem como uma vlvula
de escape ao crebro sobrecarregado. Eles curam e aliviam; Volket (1875)
 Para ele os sonhos representavam partes do organismo de forma
simblica e apresentavam mais desprazer e dor do que prazer; Maury
(1878)  O sonho era um estado de viglia incompleto e parcial. Ele
tinha sonhos hipermnsicos (conhecimento superior inexistente no estado
de viglia); Binz (1878)  Os sonhos eram impresses materiais do
passado mais recente, concatenados de forma tumultuada e irregular. Os
sonhos deveriam ser categorizados como processos somticos e que eram,
em todos os casos, inteis e, em muitos casos, positivamente
patolgicos; Radestock (1879)  Fazia analogia entre os sonhos e a
loucura, seguindo uma tendncia comum na Medicina de sua poca e
complementava dizendo que os sonhos eram compensatrios. Suas idias
influenciaram Freud; Delboeuf (1885)  Para ele, o sonho era uma
continuidade da atividade psquica; Haffner (1887)  Ele assinalou que
Em primeiro lugar, os sonhos do prosseguimento  vida de viglia.
Nossos sonhos regularmente se associam s idias que tenham estado em
nossa conscincia pouco antes. A observao acurada quase sempre
encontra um fio que liga um sonho s experincias do dia anterior.';
Eduard von Hartmann (1890)  Para ele, em quem Jung se baseou no estudo
do inconsciente, os sonhos eram contrariedades da vida de viglia
transportadas para o estado de sono; Yves Delage (1891)  Os contedos
dos sonhos, segundo ele, eram fragmentos e resduos dos dias precedentes
e de pocas anteriores. Resultavam da reproduo no reconhecida de
material j experimentado. A energia psquica armazenada durante o dia,
mediante inibio e supresso, tornava-se a fora motriz dos sonhos 
noite. O material psquico que tinha sido suprimido vinha  luz nos
sonhos; Herbart (1892)  Ele considerava que o sonho era um despertar
gradual, parcial e, ao mesmo tempo, altamente anormal; Florence Hallam e
Sarah Weed (1896)  Realizaram estatsticas com seus prprios sonhos,
chegando  concluso de que eles eram mais desprazerosos que prazerosos;
Freud deu continuidade aos estudos sobre sonhos trazendo efetivamente
algo novo, sobretudo  compreenso da natureza essencial dos sonhos.
Suas teorias ainda hoje so objeto de estudos e utilizadas na prtica
clnica. Muitos estudos que foram feitos posteriormente a ele tentaram
desfazer suas teorias, com relativo sucesso, porm no foram s
uficientes para impedir sua utilizao, nem apagar o brilho de seu
pioneirismo na cincia psquica. Sobre os estudos de Jung a respeito dos
sonhos em sua atividade clnica, poderemos melhor avaliar seu pensamento
num captulo  parte. Mas podemos afirmar que sua contribuio foi
fundamental para o desenvolvimento da prpria Psicologia e do
entendimento do significado dos sonhos, sobretudo do simbolismo que lhe
 caracterstico. Os estudos com rigor cientfico se tornaram mais
freqentes a partir dos trabalhos de Aserinsky e Kleitman, de 1953, que
conseguiram estabelecer parmetros de deteco do momento do sonho. Esse
achado tornou o sonho um objeto cientfico importante para os estudos
sobre o sono. Podemos distinguir tambm determinadas idias e seus
autores em pocas distintas: Hipcrates, considerando que os sonhos
refletem problemas patolgicos do organismo; o Espiritismo, afirmando
que os sonhos so produtos das atividades do esprito durante o sono;
Freud, assinalando que os sonhos so realizaes de desejos reprimidos;
Jung, estabelecendo que os sonhos so manifestaes simblicas do
inconsciente; Ouspensky, colocando que os sonhos so produtos dos
movimentos corporais; e, por fim, Kleitman, mostrando que os sonhos so
produtos de atividades cerebrais. Nem sempre as afirmaes de cada um
deles se baseou nas hipteses anteriores, mas, no se pode negar que, no
seu conjunto, elas formam a base da histria dos estudos sobre os
sonhos. Isoladas, essas idias se mostram incompletas para a percepo
global dos sonhos e de seu real significado. Ainda estamos longe de
alcanar uma preciso maior sobre o sentido dos sonhos e seus
significados, pois, em face de sua natureza, eles ainda so pouco
estudados e, quando isso ocorre, muitos autores sustentam-se em teorias
cuja comprovao cientfica se torna difcil. Em cincia  fundamental
teorizar, porm preconceber dogmaticamente torna-se um crime contra o
bom senso coletivo.


Os sonhos em Jung

Talvez os sonhos sejam um dos temas mais abundante na Psicologia de
Jung. Se no o for, creio que seja o mais recorrente, dada a sua
importncia para a compreenso dos aspectos inconscientes da psiqu. Ele
soube notar a importncia fundamental desse fenmeno para a compreenso
da n atureza humana e de seu desenvolvimento. Seus estudos mais
importantes incluem essa via de acesso aos contedos inconscientes da
mesma forma que um astrnomo se utiliza do telescpio para ver o
universo. Ele o explorou de vrias formas sobre pontos de vista nunca
antes experimentados. Dos tericos que se dedicaram ao estudo dos
sonhos, ele foi o que mais se utilizou de estudos experimentais para o
desenvolvimento de suas afirmaes. Foi fundamental para Jung o
desenvolvimento do m todo das associaes de palavras na constituio
de sua teoria psicolgica, em particular no que se refere  descoberta
dos complexos e  anlise dos sonhos. Em 1902, antes de avistar-se com
Freud, Jung, ento um jovem mdico de 27 anos, tece algumas
consideraes sobre os sonhos em seu trabalho Estudos Psiquitricos,
onde considera que os sonhos apresentam  conscincia um simbolismo
daquilo que nunca  admitido. Neste particular, que se refere  forma
como o sonho se apresenta, ele parece querer mostrar, com outra
linguagem, o que Freud chamava de contedo latente dos sonhos. Ao
analisar os fenmenos denominados de alucinaes, Jung levantava uma
questo a respeito dos estudos de Freud sobre sonhos, em seu Die
Traumdeutung, cuja leitura lhe fora recente. Ele, embora admitisse o
simbolismo expresso pelo sonho, no identificara, no caso em estudo, a
represso afirmada por Freud. Reconhecia uma certa censura no sonho,
como Freud j havia assinalado antes. Creio que, talvez, ele j
percebesse o simbolismo de que os sonhos se revestem. Jung considerava
que "quanto menos a conscincia acordada interferir com reflexes e
clculos, mais segura e convincente ser a objetivao do sonho.
Atribuindo ao inconsciente o papel de gerador dos sonhos, ele deixa em
aberto a possibilidade da interferncia da atividade consciente (o
desejo, por exemplo). Ele no considerava que os sonhos no pudessem ser
fruto da realizao de desejos sexuais, como consta no pargrafo 120 do
Volume I de sua obra. Porm, ele admitia a existncia de outros tipos de
sonhos com outras interferncias. Mais tarde, na sua obra Estudos
Experimentais, escrita entre 1904 e 1907, ele cita outro tipo de
sonho, o sonamblico, que surge como sintoma da histeria. Nesta mesma
obra ele vai estabelecer21 o paradigma de que h sonhos que so
expresses simblicas do complexo, cujo conceito ainda no estava bem
definido claramente. Jung fazia estudos sobre associao, sonho e
sintoma histrico e c olocava o sonho como sendo uma porta  compreenso
dos complexos. Mais tarde ele vai assinalar que o inconsciente  de tal
forma rico que no se pode ter a pretenso de enxerg-lo a partir de uma
nica estrutura (o sonho). No pargrafo 844 ele diz:  "Vimos
principalmente que os sonhos confirmam o complexo revelado nos testes de
associao. As associaes indicam um complexo sexual intenso e os
sonhos se referem exclusivamente, por assim dizer, ao tema do
acasalamento. Ficamos sabendo que os complexos que constelam as
associaes no estado de viglia tambm constelam os sonhos. Encontramos
tambm na anlise dos sonhos os mesmos bloqueios que se manifestam no
experimento das associaes. A anlise das imagens onricas revelou o
complexo sexual, sua transposio para o autor, a desiluso e volta da
paciente para a me e o reatamento de uma relao infantil e misteriosa
com o irmo." Seus estudos o levaram ao inevitvel paralelismo entre os
sonhos e os complexos. Como Freud, Jung tambm considerava os sonhos
como resduos do dia. Ele empregava, na anlise, o mtodo psicanaltico
freudiano. Ele afirmava que os sonhos, ao invs de serem conseqncia
de desejos reprimidos, eram representao de complexos reprimidos. Ainda
nesta poca, por volta de 1906, Jung publica seu trabalho intitulado
Psicognese das Doenas Mentais, onde ele continua a colocar a anlise
dos complexos juntamente com os sonhos. No captulo III  A influncia
do complexo de tonalidade afetiva sobre a valncia da associao,
daquela obra, no pargrafo 122, ele afirma:  "Os sonhos tambm se
estruturam segundo os modos de expresso simblica do complexo
reprimido, (...). Na verdade, encontramos os mais belos exemplos de
expresso por semelhana de imagens nos sonhos. Freud reconhecidamente
abriu um novo horizonte para a anlise dos sonhos. Espero que a
psicologia logo venha a perceber esta verdade, que lhe traria enormes
benefcios. Nessa perspectiva, a Interpretao dos Sonhos de Freud 
fundamental no que concerne ao conceito de expresso por semelhana de
imagens, to i portante na psicologia da dementia praecox." Jung
considerava que a maior parte dos complexos fosse de origem
ertica-sexual, porm afirmava que existiam outros tipos. Seguindo a
cronologia, num texto escrito em 1909, em francs, ainda contaminado
pelas idias de Freud, embora j apresentando aspectos novos e
preparando sua teoria sobre os sonhos, Jung coloca que as sensaes
orgnicas no so a causa dos sonhos. Os sonhos possuem um significado.
Eles desfiguram, mas apontam para o complexo reprimido. Essa
desfigurao  feita pela censura. Perguntar ao sonhador o significado
direto do sonho  perder tempo. Deve-se ir s associaes. Deve-se fazer
perguntas ao sonhador. Quem? O que? Etc. No volume V das Obras
Completas, Smbolos da Transformao, escrito entre 1911 e 1912, que
marca a dissidncia entre ele e Freud, encontramos elementos atravs dos
quais se pode dizer efetivamente que ele apresenta uma nova teoria dos
sonhos. Desenvolve o conceito de que os primeiros sonhos em anlise
tratam da relao transferencial e servem de excelente instrumento ao
analista no seu trabalho teraputico. Procura demonstrar que as bases
inconscientes dos sonhos no so somente reminiscncias infantis, mas,
na realidade, tratam-se de formas de pensamento primitivas ou arcaicas,
que naturalmente aparecem mais claramente na infncia do que depois.
Coloca a questo da compensao dos sonhos em relao ao estado
consciente, isto , completam o que nele falta. Apresenta a idia dos
sonhos prospectivos afirmando que "os sonhos repetem a realidade com
exatido excessiva ou insistem com excessiva nitidez numa realidade
antecipada". Em 1916, Jung volta a abordar a importncia dos sonhos para
o conhecimento das camadas do inconsciente, pessoal e coletivo,
colocando os arqutipos como estruturas pertencentes a estes ltimos, e
que surgem nos sonhos, a exemplo da sombra. Critica o procedimento
redutivo, exclusivamente causal, na anlise dos sonhos, face aos
smbolos no mais serem passveis de reduo s reminiscncias ou
anseios pessoais, por trazerem imagens do inconsciente c oletivo. A
partir de muitos fracassos, segundo Jung, ele abandonou a orientao
exclusivamente personalstica da psicologia teraputica. Ele afirmava
que toda anlise deve ser seguida de uma sntese, e essa sntese deve
ser feita com o material arquetpico ampliado. Reafirma a natureza
compensatria dos sonhos a fim de conservar o equilbrio da alma, porm,
esta no  a nica finalidade da imagem do sonho. Ele (o sonho) tambm
retifica a concepo do paciente. Sua tcnica se refora com a busca dos
elementos arquetpicos presentes nos sonhos e sua necessidade de
compreenso por parte do paciente. Mais tarde, em 1921, no volume VI,
Tipos Psicolgicos, ele tratou do tema, reforando a idia de que os
sonhos possuem a facilidade de fazer reaparecer a realidade primitiva da
imagem psquica, encontrando neles os temas da mitologia grega presentes
em negros de raa pura, alm de uma faculdade de antecipar o futuro de
forma construtiva visando o desenvolvimento psicolgico. Assinala
novamente a funo compensadora inconsciente. Neste volume ele tambm
desenvolve os conceitos sobre as interpretaes no plano do objeto e no
plano do sujeito. Sobre esse assunto ele afirmava: "Quando falo de
interpretar um sonho ou fantasia no plano do objeto, quero dizer que as
pessoas ou situaes que neles aparecem so objetivamente reais, em
oposio ao plano do sujeito em que as pessoas ou situaes nos sonhos
se referem exclusivamente a grandezas subjetivas. A concepo freudiana
dos sonhos est exclusivamente no plano do objeto, uma vez que os
desejos nos sonhos se referem a objetos reais ou a processos sexuais que
incidem na esfera fisiolgica, portanto extrapsicolgica."
cereja
Em 1928, ao escrever os "Aspectos Gerais da Psicologia
do Sonho", ele desenvolve outros conceitos que reforam suas
concepes, cada vez mais distanciadas das idias freudianas.
Para Jung, nessa poca, o sonho  uma criao psquica que
contrasta com os contedos habituais da conscincia. No  o
resultado de uma continuidade da experincia, mas o resduo de
uma atividade que se exerce durante o sono. Porm, eles no
esto totalmente  margem da continuidade da conscincia, pois
se podem encontrar detalhes que provm do dia anterior ou de
dias anteriores. A dificuldade de se recordar os sonhos vem da
combinao das representaes numa seqncia estranha ao
modo habitual de se pensar. Chamam-se os sonhos de absurdos
pela prpria projeo da incapacidade de entend-los. A
significao psicolgica mais profunda dos sonhos  semelhante
ao sentido moral oculto das fbulas. Para se explicar
psicologicamente os sonhos deve-se investigar as experincias
precedentes de que se compem.
Ele considerava que, para se entender o sentido do sonho
deve-se perguntar ao paciente que elementos esto associados 
imagem onrica. Lugares conhecidos, familiares, parentes, fatos
passados, etc., porm a reduo  insuficiente. Deve-se
questionar o "porqu" daquelas associaes e no outras. Uma
causa s  insuficiente. "S a influncia de vrias causas 
capaz de dar uma determinao verossmil das imagens do
sonho." Pode-se evocar toda a histria do indivduo como
56

material associativo ao sonho, porm deve-se ir at onde possa
parecer necessrio. Deve ser feita uma seleo do material e
submet-lo ao mtodo comparativo. Os fenmenos psicolgicos
podem ser abordados de duas formas: causalidade e finalidade.
Do ponto de vista causal, o material recolhido leva s tendncias.
Saindo da causalidade e indo para finalidade, Jung pergunta para
que serve o sonho. Para que e no por que ele ocorre. Ele no
deixa de concordar com as interpretaes causais, porm vai mais
alm. Afirma que a compreenso no  um processo intelectual. A
eficcia dos smbolos religiosos  um exemplo disso. O sonho no
 simplesmente uma instncia moral. O inconsciente  aquilo que
no se conhece num dado momento. O sonho acrescenta 
situao psicolgica aspectos essenciais desconhecidos. O sonho
acrescenta ao sonhador aspectos que foram ignorados por ele.
Critica novamente a concepo freudiana pela limitao 
anlise causal, que parte do desejo recalcado e que tudo poderia
desembocar no aspecto genital ertico. Para ele a linguagem dos
sonhos no deve ser interpretada em sentido concreto. A
linguagem sexual  de natureza arcaica, cheia de analogias, sem
coincidir todas as vezes com o contedo sexual verdadeiro. Ele
afirma a riqueza dos smbolos e critica a uniformidade de
significao. Para ele o ponto de vista causal tende para essa
uniformidade, ao contrrio do final, baseado na concepo de que
o smbolo no dissimula, ensina. O ponto de vista final  capaz de
concorrer para a educao prtica da personalidade, pois mostra
o que ela est negligenciando.
Muito embora assinale a limitao da anlise causal ele
considera que a psiqu no pode ser entendida apenas pelo
modo causal. Ela tambm exige uma abordagem finalista. O sonho
s pode ser melhor compreendido pela conjugao dos dois
pontos de vista.
Quanto aos motivos dos sonhos, eles podem ser
57

encontrados nos mitos e contos de fadas. A psicologia onrica 
uma psicologia comparada. Muito embora se deva munir dos
elementos mitolgicos, ele considera que os sonhos comunicam
pensamentos, julgamentos, concepes, diretrizes, tendncias,
etc., inconscientes recalcados, reunidos associativamente face 
necessidade do estado momentneo da conscincia, sendo
fundamental conhecer-se esse estado para se compreender o
sonho.
Como ele considerava que todos os sonhos tm um carter
compensador em relao aos contedos conscientes, eles
contribuem para a auto-regulao da psiqu. Nesse processo de
compensao, ao contrrio de Freud, ele dizia que o sonho 
justamente aquilo que mais perturba o sono. Ele afirma que a
concepo de Freud  estreita e reafirma a funo compensadora
dos sonhos em dado momento da conscincia. As atitudes
unilaterais da conscincia sofrem a reao do inconsciente com o
intuito de manter o equilbrio produzindo sonhos em contraste
com aquelas atitudes ou idias fixas. O carter compensador dos
sonhos  individual e se manifesta de acordo com a personalidade
de cada um. A funo compensadora implica que o inconsciente
acrescenta  situao consciente todos os elementos que no
alcanam o limiar da conscincia por causa do recalque ou
simplesmente por serem dbeis demais para chegar  conscincia.
Ele aborda a questo da finalidade como uma funo
prospectiva e que ela  uma antecipao, surgida no inconsciente,
de futuras atividades conscientes, um exerccio preparatrio ou
um esboo preliminar, um plano traado antecipadamente. Ela 
superior  combinao consciente e precoce das possibilidades,
face aos contedos subliminares do inconsciente e atua quando o
indivduo se encontra inadaptado ou fora da norma. Porm, alerta
que a funo prospectiva dos sonhos pode levar a se exagerar a
importncia do inconsciente. A importncia do inconsciente 
58

quase igual  da conscincia. No se deve desprezar a atitude
consciente e guiar-se pelos sonhos. Quando o indivduo est
aqum do que pensa que , a funo prospectiva atua
negativamente, adquirindo um carter de uma funo redutora do
inconsciente, levando-o a perceber-se atravs de imagens
inferiores ao seu papel consciente.
Ampliando os tipos de sonhos e sua funo para o
r
indivduo, cita um outro comum em situaes t aumticas. Ele
dizia que os sonhos redutores, prospectivos, compensadores, no
esgotam todas as possibilidades de interpretao, pois h sonhos
reativos que derivam de situaes traumticas graves. Esses
sonhos reproduzem uma situao traumtica vivenciada at que
seu contedo seja destitudo da intensa carga afetiva associada ao
trauma e possa ser reintegrado na hierarquia psquica. Ele 
reativo quando a interpretao analtica no interrompe sua
produo dramtica.
Fala da influncia do organismo do sonhador na produo
dos sonhos, afirmando que os estmulos somticos s
excepcionalmente tm sua significao determinante nos sonhos.
Coloca tambm que os fenmenos telepticos tambm exercem
influncia sobre os sonhos. Eles so os que antecipam no tempo e
espao um acontecimento, por exemplo, o falecimento de algum;
muito embora considere que no haja leis sobrenaturais, sabe-se
que h fatos cuja explicao transcende o saber acadmico.
Sobre o significado intrnseco das imagens onricas ele
analisa primeiro a questo das projees, considerando a
necessidade de se estabelecer diferena entre o objeto e sua
imagem. Para ele, os contedos do nosso inconsciente so todos
projetados em nosso meio ambiente. Deve-se perceber a
importncia das projees e o valor simblico do objeto. A
interpretao objetiva decorre, s vezes, da incapacidade de
distinguir-se entre o objeto e a idia que se tem dele. H apenas
59

uma relao esttica entre a imagem e o objeto. Assim, como no
temos uma idia precisa de algum, a imagem onrica expressa a
subjetividade. As imagens onricas so partes constitutivas de
nossa mente. So fatores subjetivos que se agrupam numa
imagem, no por motivos externos, mas por motivos internos
desconhecidos. A interpretao ao nvel do sujeito concebe todas
as figuras do sonho como traos personificados da figura do
sonhador. Ele se questiona sobre o que  mais importante: o nvel
do objeto ou o nvel do sujeito? Os laos afetivos com a
personagem do sonho pode levar a um dos lados. A substituio
das figuras  um trabalho dos sonhos motivado pelo recalque. 
natural que ocorram substituies das figuras nos sonhos j que o
recalque mantm afastado da conscincia aqueles contedos que
ainda no so passveis de integrao. Desse modo, o sonho
apresenta tais contedos sob a forma de imagens (smbolos) que
penetram na conscincia pela necessidade de serem reconhecidos
e trabalhados. Tal substituio pode refletir o pouco valor do
afeto com a pessoa. A interpretao ao nvel do sujeito traz ao
sonhador uma ajuda a fim de que corrija suas atitudes
inadequadas. Alm disso, a relao vital entre o sonhador e a
personagem do sonho auxilia a decidir qual ser o nvel de
interpretao a ser empregado. A interpretao no nvel do
sujeito perturba a concepo ingnua da identidade dos
contedos da conscincia com os objetos. Toda religio antiga se
fundamenta nessa ligao mstica com o objeto, onde as
projees inconscientes so colocadas.
Em 1947  publicado o texto escrito em 1931, oriundo de
um discurso, intitulado "A aplicao prtica da anlise dos
sonhos", onde Jung estabelece novas consideraes s      obre os
sonhos e sua prtica psicoteraputica.
Baseando-se no conceito de inconsciente, formulado por
C. G. Carus, no "campo incomensurvel de idias" de Kant e na
60

formulao de um inconsciente anmico de Leibnitz, ele afirma que
o problema dos sonhos no subsiste sem a hiptese do
inconsciente, pois sem ele, reduzem-se s sobras do dia. Para ele
o objetivo da anlise dos sonhos  a descoberta e a
conscientizao de contedos at ento inconscientes, sendo eles
sua expresso direta e capazes de apresentar sua etiologia. Alguns
sonhos so mais complexos e neles no transparecem
prognsticos nem etiologias, porm podem apresentar uma
orientao  terapia.
Os sonhos apresentam a situao inconsciente como ela ,
independente do desejo do sonhador ou das interpretaes do
analista. Quando a anlise  causalista, o sonho pode ser privado
do sentido de indicar algo ao sonhador. Os sonhos iniciais da
anlise so mais claros e de fcil entendimento.  medida que o
tratamento avana, eles perdem a clareza e, se essa condio
permanece,  sinal de que a anlise no chegou  parte essencial
da personalidade. H sonhos iniciais que desvendam toda a
programao futura do inconsciente e que, por motivos
teraputicos, no se deve revelar ao paciente. Muitas vezes,
quando o analista considera que o sonho, ou mesmo seu paciente,
 confuso, ele deveria admitir sua prpria confuso, reconhecendo
sua projeo.
Segundo Jung, o analista deve tentar convencer o paciente,
e, em certos casos, mostrar-lhe sua resistncia. Porm deve,
acima de tudo, querer buscar o consenso, o que impedir a
sugesto, na anlise do sonho, evitando a compreenso unilateral,
pois ela pode ser fruto da tentativa de encaixar sua opinio numa
ortodoxia. O paciente no deve ser instrudo acerca de uma
verdade, mas evoluir at ela. Nesse ponto, o analista deve evitar a
sugesto ao paciente, sempre convidando-o a dar sua opinio e a
tomar decises quando colocado diante de problemas. Da mesma
forma o analista deve precaver-se para no se confundir com as
61

interpretaes apressadas de seus pacientes. O sonho deve ser
sempre encarado como uma novidade, fazendo surgir no analista
a pergunta:  para que este sonho?
Para Jung, a concepo de que o sonho  a satisfao de
um desejo j estava superada, pois os sonhos podem ocorrer
exatamente representando desejos realizados. Eles podem
exprimir: verdades implacveis, sentenas filosficas, iluses,
desenfreadas fantasias, recordaes, planos, antecipaes, vises
telepticas, experincias irracionais, etc. Eles no devem ser
submetidos a uma doutrina, pois determinam algo de essencial 
conscincia, que apenas  concentrao, limitao e excluso. A
assimilao do sentido do sonho integra os contedos
inconscientes  conscincia. As regras operacionais para a
interpretao dos sonhos devem ser abertas a modificaes. Elas
devem tentar compor o contexto do sonho para depois entend-
lo, a partir da focalizao dos elos associativos. A associao
livre, por si s, no leva  compreenso do sonho, sendo
necessria a montagem do contexto. Ela leva aos complexos, mas
no ao sentido do sonho.
A regra bsica para a compreenso dos sonhos  a teoria
da compensao para o pensamento psquico geral. Deve-se
perguntar: Que atitude consciente  compensada pelo sonho?
Acolhendo o sonho como ele , percebe-se que, alm de ser um
instrumento de informao e controle,  o recurso mais eficaz na
construo da personalidade. Quando o analista percebe de
antemo algumas informaes contidas nos sonhos, que, se
conscientizadas, podem alterar negativamente valores de seu
uas
paciente e que podem prejudicar s relaes com terceiros,
deve ele evitar coloc-las, salvo de forma a no lhe levar prejuzo
algum.  importante no destruir valores verdadeiros da
personalidade de seu paciente. O analista deve no s levar em
considerao como respeitar as convices religiosas, filosficas e
62

morais de seu paciente.
Jung tambm critica a posio freudiana a respeito dos
smbolos sexuais onricos, que tendia a interpretar como um pnis
o que parecesse flico. Para ele, os smbolos sexuais onricos
podem expressar algo que vai da atividade glandular fisiolgica
aos mais sublimes e fulgurantes lampejos indefinveis de
espiritualidade, pois eles representavam o criativo, o determinado,
o mana, etc.
Posteriormente, em 1945, ele escreve um trabalho intitulado
"Da Essncia dos Sonhos", onde procura aprofundar suas
concepes e estabelecer princpios gerais a eles aplicados.
Ele considera que os sonhos dizem respeito  sade e 
doena, e que, no futuro, sero importantes para a identificao
dos prognsticos referentes a uma doena ulterior ou mesmo 
morte. Eles no procuram satisfazer  lgica,  moral e  esttica;
os que assim se apresentam so excees. Deve-se ter cuidado
em no ferir a sensibilidade do paciente com interpretaes que
lhe so agressivas, mesmo que bvias. Ao ouvir um sonho deve o
analista pensar:  "No tenho a mnima idia do que este sonho
quer significar." Mesmo que eles tenham motivos onricos
tpicos freqentes, no so suficientes para se concluir que a
estrutura dos sonhos obedece leis determinadas, muito embora
sua repetio logicamente queira dizer alguma coisa. Neste
trabalho de buscar o sentido dos sonhos, precisa-se da ajuda do
sonhador para limitar a diversidade das significaes verbais ao
seu contedo essencial, pois  necessrio descobrir-se o contexto
subjetivo dos termos surgidos. Jung afirmava que considerar os
sonhos como resultantes da realizao de desejos recalcados
limitou os procedimentos com eles.
As associaes so necessrias para que se alcance a
reconstituio do contexto, com o intuito de descobrir o sentido
do sonho, e, para tanto, exige-se:
63


a)   empatia psicolgica;
b)   capacidade de fazer combinaes;
c)   penetrao intuitiva;
d)   conhecimento do mundo e dos homens; e,
e)   um saber especfico.

 o prprio sonho que nos fornece a maior parte do
material emprico para a explorao do inconsciente. A autonomia
do inconsciente produz sonhos que muitas vezes se opem 
conscincia. No sonho ocorre um sistema de compensao que
se distingue do de complementao. A compensao resulta num
equilbrio ou numa retificao. Na atitude consciente fortemente
unilateral, o sonho adota um partido oposto. Na atitude
consciente mais ou menos no centro, isto , flexvel ou que admite
possibilidades, o sonho exprime posies variantes. Na atitude
consciente correta o sonho coincide com essa atitude.
Jung coloca a importncia da anlise da srie de sonhos
como uma maneira de se entender o processo evolutivo da
personalidade, cujo fenmeno, inconsciente, ele chamou de
processo de individuao, que para ser visto fora da anlise
exige um certo tempo. O processo de individuao  a realizao
espontnea do ser humano total. A compreenso do processo de
individuao exige conhecimentos da mitologia, do folclore, da
psicologia dos primitivos e da histria comparada das religies.
Os chamados grandes sonhos (significativos), nunca esquecidos,
so importantes para a percepo do processo de individuao,
por conterem motivos mitolgicos ou arquetpicos. Neles
verificamos que a alma  singular e coletiva; ao mesmo tempo, 
subjetiva e objetiva.
Esses sonhos vm da camada mais profunda da psiqu e
ocorrem nos grandes momentos da vida. O material associativo
64

em torno de suas imagens  escasso. Eles geralmente ocorrem na
meia idade. Trazem temas comuns tais como: drages, heris,
cavernas, animais benfazejos, demnios, velho sbio, homem-
animal, tesouro oculto, rvore mgica, a fonte, o jardim protegido
por alta muralha, processos de transformao, substncias da
alquimia, etc.

Comentrios

Embora no tivesse um mtodo rgido para anlise e
interpretao dos sonhos de seus pacientes, Jung freqentemente
recorria a que eles fizessem amplificaes buscando a explorao
de seus contedos.
Jung considerava que os sonhos eram sinais oriundos da
esfera da psiqu ainda no contaminada pela nossa
intencionalidade e sabedoria superior.23
Enquanto em Freud vamos encontrar um sistema rgido em
relao  anlise dos sonhos, em Jung vamos perceber um
enfoque aberto que permitiu uma viso mais ampla atravs dos
smbolos mitolgicos e antropolgicos. Os sonhos so
considerados processos psquicos naturais e reguladores da
psiqu. Um dos diferenciais da anlise dos sonhos entre Freud e
Jung  a concepo deste ltimo do inconsciente coletivo.
Jung procurou tambm fazer distino entre sinais e
smbolos a fim de melhor se fazer entender quanto ao significado
das imagens onricas. Enquanto os sinais se prestam apenas a
indicar os objetos que esto ligados, os smbolos indicam algo
que se encontra oculto, vago ou desconhecido, que no 
imediato nem se encontra manifesto. Os sonhos retratam smbolos
de forma espontnea e inconsciente, fora do domnio, portanto,

23
C. G. Jung, Obras Completas Vol. VII, par. 209.
65

da conscincia. Para Jung, os sonhos so uma forma de segundo
pensamento que se apresenta de maneira simblica, por ter
passado despercebido  conscincia. Coloca ainda que muitos
psiclogos justificam a existncia da psiqu inconsciente, pelo
estudo dos sonhos, por serem estes reveladores dos aspectos
inconscientes.
Ele chama os sonhos de " - fantasias inconscientes,
evasivas, precrias, vagas e incertas do nosso
inconsciente."24 , ou ainda "o mais fecundo e acessvel campo
de explorao para quem deseje investigar a faculdade de
simbolizao do homem", cuja importncia est em ser um elo
de ligao entre as duas instncias psquicas (consciente e
inconsciente).
Ele aceitava a tese de que os sonhos expressam, atravs de
formas simblicas, sintomas neurticos, porm no acreditava que
se restringissem a isso, dado que manifestam smbolos numa
variedade muito maior que aqueles sintomas. Da mesma forma
aceitava a viso freudiana de que os desejos e a represso
surgissem manifestados nos smbolos onricos. Porm, a partir da
constatao da existncia dos complexos (`temas emocionais
reprimidos capazes de provocar distrbios psicolgicos
permanentes', e que `reagem mais rapidamente aos estmulos
externos'), ele percebeu que os sonhos poderiam estar levando o
sonhador  percepo dos mesmos, tanto quanto de qualquer
outra situao at ento desconhecida da conscincia. A ele
percebeu que os sonhos tm uma significao prpria.
Decidiu ento no mais utilizar o mtodo da livre
associao para anlise e interpretao dos sonhos, mas
preocupar-se com o contedo e a forma com que os smbolos


24
O Homem e Seus Smbolos, p. 25.
66

neles se apresentam, a fim de no se afastar do que eles realmente
queriam dizer.
Analisando os sonhos e verificando suas inconsistncias
com a vida do sonhador e percebendo que ela no apresentava
aspectos que pudessem ser correlacionados aos smbolos
onricos, ele buscou referenciais na histria e na cultura, cujas
semelhanas eram evidentes. Verificou que os smbolos so
universais e surgem nos sonhos de forma nem sempre coerente
para a conscincia, tendo em vista que seus elementos geradores
no so dela provenientes.
Considerando os sonhos como mensagens ao sonhador ele
afirma que a conscincia tende a rejeitar ou ignorar aquilo que 
novo ou desconhece. Os sonhos devem ser tratados sem
suposies prvias e sim como expresses do inconsciente.
Ampliando a viso que se tinha sobre os sonhos ele
afirmava "que as imagens e as idias contidas no sonho no
podem ser explicadas apenas em termos de memria; expressam
pensamentos novos que ainda no chegaram ao limiar da
conscincia."25
Os pensamentos, idias e elementos pertencentes  esfera
da conscincia nem sempre tm o sentido que lhes atribumos.
Eles esto conectados a aspectos inconscientes dos quais no
temos a menor idia. Os sonhos vm revelar que sentido eles tm.
Parecem desconexos e inverossmeis  conscincia, porm,
atravs das imagens onricas podemos vislumbrar seus
significados destitudos da lgica linear do ego, trazendo o
significado inconsciente. Essas imagens so muito mais vivas e
precisas do que as experincias semelhantes da vida consciente.
Os sonhos do ser humano moderno so ricos em smbolos
e, neste aspecto, diferem dos sonhos do ser humano primitivo

25
Idem, p. 38.
67

tendo em vista a forma diversa como as experincias conscientes
afetam a ambos. O ser humano primitivo era mais instintivo,
psiquicamente indiferenciado, inconsciente e, portanto,
constantemente ligado aos seus contedos. O ser humano
moderno, mais controlado (reprimido), possuidor de uma
conscincia extremamente diferenciada, necessita dos smbolos
onricos inconscientes para compensar a unilateralidade
consciente.
Sobre o contedo dos sonhos, Jung escreveu:  "Os
sonhos contm imagens e associaes de pensamentos que
no criamos atravs da inteno consciente. Eles aparecem
de modo espontneo, sem nossa interveno e revelam uma
atividade psquica alheia  nossa vontade arbitrria. O sonho
 portanto um produto natural e altamente objetivo da psique
do qual podemos esperar indicaes ou pelo menos pistas de
certas tendncias bsicas do processo psquico. Este ltimo,
como qualquer outro processo vital, no consiste numa
simples seqncia causal, sendo tambm um processo de
orientao teleolgica. Assim pois, podemos esperar que os
sonhos nos forneam certos indcios sobre a causalidade
objetiva e sobre as tendncias objetivas, pois so verdadeiros
auto-retratos do processo psquico em curso."26
Numa perspectiva junguiana, os sonhos so fenmenos
livres, independentes da vontade do ego vgil e espontneos,
gerados no inconsciente. Tornam-se seletivamente conscientes
por um processo desconhecido. A esse respeito Jung coloca,
numa perspectiva fenomenolgica, que "os sonhos no so
invenes intencionadas e dependentes do arbtrio, mas sim




26
C. G. Jung, Obras Completas Vol. VII, par. 210.
68

fenmenos naturais, que no constituem nada mais do que
aquilo mesmo que representam."27
Diferente de outros estudiosos, que se prenderam aos
aspectos circunstanciais apresentados nos sonhos, Jung percebeu
a riqueza expressa em suas imagens como oriundas da psiqu
coletiva. Verificando que essas imagens arquetpicas no podiam
ser adquiridas na vida do sonhador, aliado a outros conceitos, ele
emprestou aos sonhos um carter mais universal. Entender os
conceitos de inconsciente coletivo, arqutipos e complexos, 
fundamental para uma boa anlise dos sonhos.
Podemos dizer que uma abordagem junguiana passaria por
uma viso ntida e compreensiva do sonho, suas possibilidades de
associaes e amplificaes, bem como uma contextualizao de
seu contedo em relao ao processo de desenvolvimento do
sonhador.
Jung assinala28 sua discordncia de que o sonho seja uma
continuidade da vida consciente do sonhador, preferindo acreditar
que se trata de um fenmeno que contrasta com os contedos da
conscincia, muito embora no se distancie deles, em face de uma
certa continuidade para frente.




27
C. G. Jung, Obras Completas Vol. XVII, par. 189.
28
Obras Completas, Vol. VIII, par. 443 e seguintes.
69




Quem  o sujeito do sonho


O sonho  uma realidade do sonhador. Por mais que se
sonhe com a realidade de algum ou de algo que porventura
venha a acontecer, as imagens cedidas ao crtex pertencem ao
sonhador e elas surgem numa disposio prpria de cada um,
independente das influncias que receba do consciente ou
inconsciente alheio.
Parece haver uma tendncia a se entender que o sujeito do
sonho (ego onrico)  o mesmo sujeito desperto (ego consciente);
como tambm que seja o mesmo para o qual o sonho se destina e
o mesmo do qual ele se origina. Como muitas vezes o ego
desperto no se satisfaz com o que o sonho produz, muito menos
quando sua sobrevivncia  ameaada,  claro que se tratam de
instncias e sujeitos distintos.
O ego desperto no  o principal "executivo" da vida,
muito menos do sonho. Ele apenas representa uma estrutura
psquica maior, que comanda a vida consciente do sonhador,
esteja este dormindo ou desperto. Quando dormindo, ele se
chama ego onrico, quando acordado, se chama ego desperto ou
vgil. So egos, porm, instncias diferentes. Um da vida
consciente, o outro da vida onrica. Ambos vivem a servio do
Self. Fundamental  comparar as atitudes discrepantes entre essas
70

duas instncias psquicas bem como suas particularidades, pois os
sonhos estaro apontando para uma situao de conciliao, a
servio do processo de desenvolvimento psquico.
Muitas vezes o sonhador estranha a forma como ele
prprio aparece no seu sonho. Independente disso, que
trataremos adiante, ele se admira de suas atitudes, que diferem
daquelas no estado de viglia. O sujeito do sonho, chamado
tambm de ego onrico, apresenta um certo grau de
independncia em relao ao ego da conscincia vgil.
Ele, o ego onrico, goza de uma espcie de livre pensar
cuja capacidade de censura desaparece quase que
completamente. O sonhador acredita tratar-se dele mesmo, nem
sempre percebendo a diferena de que, no sonho, ele est num
outro estado de (in)conscincia.
Nem sempre o ego desperto  representado
simbolicamente pelo ego onrico no formato humano, s vezes ele
aparece como figuras inanimadas ou mesmo por animais.
Raramente o ego onrico dir ao ego desperto o que fazer.
Apenas apontar situaes de conciliao e compensao. A
situao em que esse ego onrico se encontra  que vai dar um
indicativo da mensagem para o ego desperto. O ego desperto
geralmente acredita ser o mesmo ego onrico. Tende a realizar
conexes objetivas. Na anlise dos prprios sonhos, o ego
desperto, ou vgil, dificilmente impedir sua funo persona de
atuar. A persona tende a exercer uma certa ao de adaptao
do sonho s suas necessidades de convivncia. Seus
condicionamentos conscientes geralmente distorcem o significado
do sonho. A persona geralmente busca a compreenso do sonho
relacionando-o diretamente aos papis normalmente executados
pelo ego desperto, o que resulta, s vezes, num entendimento
equivocado sobre seu significado.
71

H sempre uma perda quando as imagens onricas so
expressas em forma de palavras. Essa perda tambm ocorre pela
tentativa de se traduzir em linguagem do ego acordado o que vem
do ego onrico. As palavras falam menos que as imagens e estas
menos que os contedos reais.
Uma figura importante surge nos sonhos: o ego onrico. Ele
representa uma viso com a qual o sonhador no conta no estado
de viglia. O ego onrico tenta se manter, sobreviver. Geralmente
no apresenta as mesmas defesas e sentimentos do ego
acordado.  um ego auxiliar e sua atuao ou no num sonho 
importante para se entender o significado da mensagem contida.
s vezes, o ego onrico se coloca como mero observador
no sonho, o que pode significar que, na vida desperta, ele est
sendo tomado, inconscientemente, pela atitude do sonho. A
participao ativa ou no do ego onrico no sonho  uma
excelente pista para a compreenso de um sonho. Sonhos em que
o ego onrico estabelece relaes emocionais, ou mesmo que elas
estejam ausentes, podem conter respostas aos complexos
constelados no inconsciente. A ausncia de receptividade
emocional pode tambm simbolizar uma necessidade de atividade
por parte do ego desperto. Quando a figura personificada pelo
ego onrico fisicamente se assemelha ao ego desperto, temos uma
identidade e uma confirmao da atitude consciente; quando o
ego onrico no guarda semelhana fsica com o ego desperto,
temos a um distanciamento daquela atitude.
Para qualquer pessoa  aterrorizante a idia de perder a
conscincia, de perder o controle sobre seus prprios sentidos,
porm, a vontade, ou melhor, a necessidade de dormir no
perturba nem inquieta a ningum. A certeza do acordar no dia
seguinte com a mesma identidade do dia anterior  garantia para
se perder a conscincia sem traumas maiores.  paradoxal
acreditar-se que o ego permanece consciente durante o sono,
72

pois sua volio, propriedade vital, desaparece. Nos fenmenos
onricos noturnos que se assemelham aos sonhos, alguns deles
chamados de sonhos lcidos, outros de viagens astrais, em que
persiste a volio e deles nos recordamos, o ego onrico d lugar
ao ego desperto, por razes ainda desconhecidas.
Do ponto de vista psicolgico subjetivo, os personagens
conhecidos do ego vgil, que surgem nos sonhos, nem sempre
devem ser considerados como "reais". Certamente a
interpretao objetiva, que considera os personagens conhecidos
como sendo eles prprios que aparecem nos sonhos, tender a
influenciar o fortalecimento da relao que se tenha com eles. Em
se tratando, por exemplo, de um caso em que o analista aparea
no sonho de seu paciente, o cuidado deve ser dobrado quando se
tratar da interpretao objetiva, sobretudo naqueles de carter
ertico. Essa interpretao objetiva  linear e direta, pois
relaciona as imagens onricas diretamente com a realidade externa
ao sonhador.
Atitudes do ego onrico podem representar um confronto
aos papis assumidos pelo ego desperto. As imagens onricas
podem estabelecer uma necessidade de que o ego desperto
perceba os equvocos de determinada situao de persona.
73




Influncia de substncias
qumicas sobre os sonhos


Os estudos de Stanislav Grof revelaram que o uso de
substncias qumicas, psicodlicas ou no, altera os estados de
conscincia, provocando vises muito semelhantes s obtidas nos
estados de xtase dos msticos. Os sonhos de seus pacientes
traziam, de forma extremamente acentuada, imagens do
inconsciente.
Os comprimidos para dormir, substncias alucingenas,
calmantes, bem como os ansiolticos, principalmente os
benzodiazepnicos, e os antidepressivos, alteram o ciclo regular de
sono, influindo diretamente no sono REM. Geralmente eles, bem
como as anfetaminas, diminuem a quantidade de tempo do sono
REM, conforme Grof.
Em geral quem ingere tais substncias tem poucos sonhos e
de difcil interpretao, face ao grande volume de smbolos
desconexos que afloram ao crtex, oriundos do inconsciente
pessoal e, principalmente, do coletivo.
A anlise de sonhos de pacientes psiquitricos que tomam
medicao imunodepressora deve revestir-se de muita cautela
tendo em vista as vinculaes provocadas por substncias
74

qumicas que alteram o sistema nervoso central. Seus sonhos,
complexos pela natureza de seus conflitos inconscientes,
costumam trazer imagens cujas associaes em geral podem ser
amplas, portanto pouco esclarecedoras.
O "sono artificial" provocado por tais substncias  repleto
de inconsistncias simblicas que podem induzir a interpretaes
esdrxulas e estapafrdias pelo sonhador ou pelo analista de
sonhos. O trabalho com sonhos de pacientes psiquitricos deve
ser no sentido de entender a formao de outros smbolos a partir
dos smbolos onricos. Os smbolos onricos desses pacientes
geralmente esto contaminados, merecendo uma nova reduo s
imagens mais prximas da conscincia. Solicitar que eles
desenhem, pintem ou representem os sonhos na caixa-de-areia ou
com argila, ser muito mais valioso que a anlise descritiva direta.
A dificuldade que os pacientes psiquitricos tm em verbalizar
seus conflitos, como em fazer associaes, pode ser facilitado
pelo trabalho concreto com os sonhos. Os trabalhos de Nise da
Silveira junto a esse conjunto de sujeitos redundou na criao do
Museu do Inconsciente, que abriga obras de arte oriundas das
elaboraes psquicas, onricas ou no.
Sabe-se que substncias qumicas contidas nos
medicamentos imunodepressores e ansiolticos afetam, no s o
sistema nervoso central como tambm os estados de conscincia
e inconscincia do ser humano. Como conseqncia, os smbolos
onricos trazidos ao crtex estaro mais livres de vinculaes uns
com os outros. Elas abrem os canais inibidores que impedem o
acesso ao inconsciente, adicionando mais energia psquica aos
complexos ali existentes, aproximando-os por demais 
conscincia.
A anlise dos sonhos de pacientes que se encontram sob
medicao psiquitrica, mesmo que no se observe qualquer
alterao de sua capacidade cognitiva ou motora, deve se revestir
75

de precaues quanto  correlao que se queira fazer,
envolvendo aspectos da vida consciente do sonhador. Os
aspectos presentes nos sonhos se referem a contedos da
camada mais profunda da psiqu. Trazem mais informaes sobre
vivncias passadas, num perodo pouco acessvel  compreenso
lgica do prprio paciente.
Pessoas que tomam remdios antidepressivos, a partir de
um diagnstico preciso, geralmente tm sonhos mais voltados ao
passado e em situaes de angstia, sofrimento ou de ausncia
materna, cujo sentimento de autopiedade  a caracterstica bsica
de seus enredos.
Pacientes que, alm da anlise, se encontram em tratamento
psiquitrico, podem fornecer pistas, atravs de seus sonhos,
visando a modificaes positivas na medicao prescrita. 
desejvel, quando conveniente, uma interao entre o analista e o
psiquiatra, visando o auxlio mtuo, em benefcio do paciente
comum. Determinados medicamentos interferem nos sonhos, e
estes, atravs das imagens onricas, podem sugerir modificaes
de dosagens, suspenso ou alteraes daqueles. Quando no 
possvel aquela interao, costumo sugerir, com certa cautela para
no induzi-lo a fazer por conta prpria, que o paciente leve ao seu
psiquiatra solicitaes de suspenso e/ou reduo da medicao,
tomando por base o contedo dos sonhos. s vezes, tambm
sugiro que ele converse com o psiquiatra sobre a necessidade de
aumentar a dosagem desta ou daquela medicao, muito embora,
pessoalmente, seja favorvel  reduo progressiva.
Os processos psquicos se camuflam com o auxlio da
medicao, o que no deixa de ter uma funo redutora da dor e
da angstia do prprio paciente. Mas chega um momento em que
a dor maior  a no soluo do conflito ntimo. Essa situao, de
querer sair da medicao,  do interesse do Self, s vezes
76

inconsciente ao ego, a fim de que ele continue seu processo de
individuao.
77




Como anotar os sonhos


Tenha sempre  cabeceira de sua cama, preferencialmente 
vista, um caderno (seu caderno de sonhos), uma caneta ou lpis,
uma pequena lanterna. Um pequeno gravador a pilha pode
substituir a caneta ou lpis.
Sempre que voc for anotar o sonho no se esquea de
anotar o dia da ocorrncia (no coloque o dia em que voc foi
dormir, mas sim o dia em que ocorreu o sonho). Caso a
lembrana tenha sido muito tempo depois do acordar, 
conveniente que voc anote a hora da lembrana e o fato ou o
local que a motivou.
Ao acordar, se voc se lembrar de um sonho, antes de
levantar-se para anot-lo, repasse-o ainda deitado29 e, s depois
de t-lo em mente, voc deve levantar-se para escrev-lo ou
tomar de um pequeno gravador convenientemente preparado. s
vezes, basta anotar algumas palavras chaves e todo o sonho ser
lembrado depois.  comum, em terapia, ao se relatar um sonho,
relembrar-se de detalhes no registrados ao acordar, o que


29
Ouspensky, afirmava que esse momento, que ele chamava de semi-sonho, era
fundamental para a compreenso dos sonhos. Freqentemente ele entendia seus
sonhos anteriores repassando-os nesse momento.
78

refora a necessidade de que relatemos nossos sonhos a algum,
pois essa atitude nos faz recordar mais detalhes do sonho.
O seu caderno de sonhos pode funcionar como um dirio.
Nele voc pode grafar outras lembranas que lhe venham  mente.
Algo que voc pensou, fruto de uma meditao ou de uma
inspirao, ou intuio, mesmo que no tenha um significado
prprio no momento, voc poder anotar. Tenha apenas o
cuidado de destacar que tais lembranas no se tratam de sonho.
No se esquea de, alm de anotar o sonho como ele
ocorreu, sem qualquer interpretao, escrever suas emoes
durante o sonho e as associaes e correlaes que fez depois
que acordou. Caso voc lembre, anote seus pensamentos antes
de dormir pois, em muitos casos, eles catalisam a formao do
sonho.
Aps anotar o sonho, horas depois, relate suas impresses
e fale dos personagens do sonho. Se forem figuras conhecidas fale
da sua relao com eles. Se os locais que surgirem no sonho
forem conhecidos, relate as semelhanas e diferenas. Se voc
quiser, pode dar um ttulo ao sonho ou fazer aluso a algum fato
que voc acredite ter correlao com ele.
Procure anotar toda e qualquer impresso que o sonho lhe
causou como tambm as correlaes com o passado e com o
futuro, que porventura voc venha a fazer.
79




Como lembrar dos sonhos


Pode-se separar as pessoas em dois grupos: aquelas que se
lembram dos sonhos e aquelas que no se lembram. Em ambos os
casos tudo leva a crer que sempre se sonha. A lembrana pode
estar associada a uma predisposio para a livre associao. As
pessoas que se lembram de seus sonhos geralmente tm facilidade
de fazer associaes mentais por uma questo de treinamento,
muito embora, s vezes, trate-se de uma capacidade inata. Quanto
mais dermos valor aos nossos sonhos mais nos lembraremos
deles.
O no lembrar dos sonhos ao acordar no quer dizer que a
pessoa no possa record-los durante o restante do dia. Uma
palavra, um fato, um sentimento poder desencadear a lembrana
do sonho. Muito embora, aps os primeiros dez minutos depois
do acordar, torna-se cada vez mais difcil acess-lo. Caso se
venha a lembrar do sonho aps esse perodo, deve-se proceder
com calma a fim de recordar todo o sonho. Forar a memria
nem sempre  produtivo. Deve-se parar, concentrar-se e deixar
fluir os pensamentos e as imagens que venham  mente naquele
instante e que tenham conexo com o sonho.
s vezes, quando acordamos e nos lembramos de um
sonho e vamos graf-lo num papel ou mesmo na memria,
80

tentamos dar-lhe uma feio compreensvel a ns mesmos ou a
algum. Essa preocupao costuma mutilar o sonho de tal forma
que, muitas vezes, sua mensagem se torna contrria ao objetivo
pretendido.
Preste ateno ao conjunto de eventos, externos e internos,
que o fizeram retornar  lembrana do sonho. Geralmente h uma
emoo envolvida na recordao espontnea.
A lembrana dos sonhos pode, portanto, ser trabalhada de
vrias formas, embora no se possa garantir que seja eficaz para
todas as pessoas.
Para lembrar dos sonhos, deve-se observar as seguintes
recomendaes:

1. Associe seu ato de sonhar a um objeto visto todas as
noites antes de dormir. Preferencialmente que esse objeto seja um
caderno junto a uma caneta. Escreva neste caderno, na capa,
"Caderno de Sonhos" e, quando um caderno acabar, compre
outro e escreva a mesma coisa;
2. Coloque-o em algum lugar que fique sempre visvel,
junto a um abajur, onde voc normalmente dorme; no h nenhum
problema que seu caderno de sonhos fique acessvel a algum,
pois eles so to indecifrveis para voc quanto para outra
pessoa. Salvo se seu contedo trouxer informaes
comprometedoras ou constrangedoras a algum;
3. Sempre que voc acordar, ainda deitado, pergunte-se se
teve algum sonho. Caso positivo, registre-o imediatamente no seu
caderno de sonhos que dever estar prximo. No se esquea de
anotar o dia da ocorrncia;
4. Esteja sempre atento durante o dia para as ocorrncias
inusitadas. Elas so sinais que podem possibilitar conexes com
sonhos anteriores, no lembrados ao acordar. Assim que voc se
lembrar de um sonho durante o dia, anote-o em um rascunho e
81

depois passe para o caderno, registrando, nesse caso, o dia e o
horrio da lembrana;
5. Antes de adormecer, j no leito, deseje sonhar com
determinado assunto ou pessoa; evite pensar em problemas ou
situaes de conflito nas quais voc esteja envolvido; afirme
convictamente "sonharei e me lembrarei quando acordar";
6. Evite dormir cansado. Antes de dormir, no leito, faa
exerccios respiratrios. Respire pelo menos cinco vezes de forma
lenta e profunda, at no mais sentir a respirao. Acostume-se se
banhar antes de ir para a cama. Frio ou quente, o banho relaxa e
diminui a tenso;
7. Acostume-se a contar seus sonhos a outras pessoas e
busque sempre sua interpretao algumas horas depois de
escrev-los. Exercite constantemente esse hbito. Anote, nas
pginas do caderno, aps o registro do sonho, sua(s)
interpretao(es);
8. Valorize cada sonho. Sua ateno a eles funciona como
estmulo a novas produes. No os trate como elementos
excitadores da adivinhao ou fantasias inconseqentes nem
estimuladores da cobia;
9. Trate dos seus sonhos como parte de seu mundo interior
objetivo e de relevncia para sua vida cotidiana. Eles so sinais
proveitosos para sua individuao;
10.Quando acordar procure, independente de lembrar ou
no dos sonhos, perceber o que est sentindo, isto , qual seu
estado de esprito naquele momento ao despertar.

Se ainda assim voc continuar tendo dificuldade em lembrar
seus sonhos, faa a seguinte experincia durante uma semana:

1. Permanea na cama alguns instantes ao acordar e tente
lembrar de algum sonho;
82

2. Caso no consiga lembrar de nada, procure verificar
qual a emoo que voc est sentindo naquele momento. Entre
em contato com essa emoo;
3. Se ainda assim voc no conseguir, recapitule seu dia
anterior, ainda na cama;
4. Relembre um conflito que esteja ocupando sua mente
nos ltimos dias;
5. Por ltimo, antes de dormir e caso o passo anterior no
lhe tenha trazido a lembrana de bons sonhos, visualize algo de
bom com o qual deseje sonhar. Escolha algo de positivo e
agradvel;
6. Persista no mtodo at alcanar xito.

O cansao antes de dormir prejudica a lembrana dos
sonhos no dia seguinte, assim como a pressa ao levantar por uma
obrigao qualquer.
A lembrana do sonho  possvel graas  sua influncia no
crtex, durante o sono. Provavelmente a baixa atividade cerebral
favorece o imprint dos registros onricos. Desconhece-se, por
enquanto, qual o mecanismo que provoca essa impresso, s
vezes to indelvel.
Acredita-se que as pessoas que tm dificuldade em lembrar
seus sonhos geralmente necessitam trabalhar inicialmente os
contedos conscientes. s vezes, o ego desperto utiliza um
mecanismo de defesa que aprisiona a energia psquica e impede a
aproximao dos contedos inconscientes. Por outro lado, a
grande quantidade de informaes conscientes administradas pelo
ego, pode conduzi-lo  desvalorizao dos sonhos atravs da
recusa em encar-los com seriedade.
Se voc lembrou de um sonho, mas no conseguiu reter
aspectos importantes e deseja faz-lo, ou ainda, se ao acordar,
lembrou-se de um sonho, mas no o anotou e depois, durante o
83

dia deseja relembr-lo, h formas de tentar resgatar esses
contedos para a conscincia.
Repassar as partes do que foi lembrado de um sonho, com
pacincia, sem pressa mental de concluir sua percepo, poder
levar o indivduo a se lembrar dos trechos esquecidos.
Pode-se tambm, caso no se alcance sucesso para
lembrar do sonho com mais detalhes, propor conscientemente um
final (desfecho) para ele. Essa atitude certamente levar o
inconsciente a provocar um novo sonho, confirmando ou negando
a proposta do ego vgil.
84




Porque esquecemos dos
sonhos


Esquecemos por no serem suficientemente relevantes ao
ego desperto, pois, muitas vezes, tratam de temas gerados no
inconsciente, a partir das elaboraes entre o ego onrico e o
Self, e que no tm energia suficiente para impressionar a
conscincia. Por serem gerados num estado de conscincia
abaixo do nvel desperto, no conseguem ser retidos por ela.
Aqueles que contm carga energtica suficiente para vencer
as resistncias do ego desperto e que possuem contedos
relevantes para este, conseguem emergir  conscincia para a
necessria compreenso. Esses so constitudos de certa carga
emocional capaz de impressionar o ego desperto.
Jung dizia que "Os sonhos significativos...
freqentemente so lembrados a vida inteira e, no raras
vezes, demonstram ser a jia preciosa do palcio de tesouros
que  a experincia psquica."
Esquecemos deles porque tratam de contedos
inconscientes que se situam numa camada da psiqu inacessvel
diretamente pela conscincia, exatamente por terem pouca
energia, o que no lhes diminui a importncia. Ali se alojam, ou
85

so gerados, por no caberem na conscincia pela incapacidade
desta de tudo reter.
Quando so lembrados recebem um quantum de energia
suficiente para impressionar o crtex cerebral, a fim de serem
compreendidos. Essa quantidade de energia  suficiente por
alguns instantes, porm, se no anotados, retornam  sua camada
inconsciente para s serem lembrados se receberem novo
quantum de energia psquica.
Por no serem lembrados no significa que no cumpriram
sua funo. O ato de sonhar permite um equilbrio de tenses
entre o consciente e o inconsciente.  um resultante compensador
e aliviador.
86




Como continuar a sonhar um
sonho interrompido


Caso voc deseje continuar a sonhar um sonho
interrompido, naturalmente ao acordar, ou por qualquer outro
motivo,  possvel consegui-lo, desde que ele tenha algum
significado especial que merea ser relembrado. Se ele no for
relembrado, o inconsciente produzir outro que tenha o mesmo
objetivo.
 importante que voc se lembre cada passo das cenas
anteriores  interrupo do sonho, para poder continu-lo.
Procure no interpret-lo na hora de relembr-lo, mas apenas
rever cada detalhe dele.
Depois de ter escrito seu sonho ou fragmento dele, sublinhe
os verbos e descreva as emoes que voc sentiu durante e
depois do sonho.
Antes de dormir procure fazer o exerccio respiratrio
recomendado em captulo anterior. Aps isso e depois de estar
descansado e com sono, rememore cada passo do sonho anterior
e adormea. Se no adormecer logo, repita a rememorao vrias
vezes at adormecer.
Faa isso por noites seguidas. O resultado ser:
87


1. a continuao do sonho; ou
2. um novo sonho em resposta  solicitao consciente da
continuidade do sonho anterior.

A solicitao de produo de um sonho funciona como uma
espcie de dilogo entre o eu consciente (ego) e o eu
inconsciente, Self (centro organizador da vida psquica).
Vale lembrar que, quando acordamos durante um sonho e
nos lembramos dele naquele momento, voltando a dormir ou no,
significa que o sonho lembrado tem uma importncia maior do que
se imagina. Trata-se de um recado importante que no devemos
desprezar. Deve-se levantar, mesmo no meio da noite, e escrever
o sonho, bem como as impresses que ele causou, e s ento
voltar a dormir.
88




O simbolismo e a linguagem
dos sonhos


A civilizao tecnolgica de hoje tem gradativamente
perdido o contato com a Natureza, ameaando a conexo
emocional do ser humano com a prpria vida. O ser humano de
hoje  marcado por uma certa orfandade psquica resultante do
distanciamento de suas razes culturais e afetivas. Essa perda,
segundo Jung,  compensada pelos smbolos revelados nos
sonhos.
As tentativas de interpretao dos sonhos sem o cuidado
de entender que sua expresso  puramente simblica e figurada,
resvalar pela fantasia absurda de estabelecer elementos
universais para todos os contedos onricos.
Antes de qualquer anlise  necessrio verificar se
efetivamente o fenmeno onrico se trata de um sonho. H
experincias onricas que no devem ser definidas como sonhos,
pelo menos da forma como os concebemos. Quando essas
ocorrerem, a anlise a ser feita ser diferente e o analista dever
ter bastante conhecimento para no supor interpretaes ou
associaes descabidas, fruto de sua ignorncia, a    rrogncia ou
preconceitos, sobre os processos psquicos noturnos. O mundo
89

extra-fsico ou psquico poder ser tratado de forma surreal pelo
sonhador ao acordar, face  ausncia de correlatos para
descrever o que foi experienciado. Faltam-lhe palavras para
descrever o que no pertence ao domnio consciente. Nesses
casos, o uso de smbolos ser necessrio e poder parecer, ao
analista acostumado s interpretaes psicolgicas, que eles
decorrem de processos psquicos do sonhador.
O sonho  prprio de cada sonhador. Tem significados
distintos os mesmos smbolos para diferentes pessoas. Nenhum
significado simblico nele contido pode ser dissociado da
personalidade do sonhador. O sonho provm do inconsciente e se
processa na inconscincia, sendo traduzido ao consciente sob a
forma de imagens no crtex. As imagens que aparecem no crtex
do sonhador lhe so prprias, tendo significados singulares.
Os sonhos sempre trazem alguma mensagem. Eles falam
da vida psquica do sonhador numa linguagem prpria. So uma
espcie de logogrifo com vinhetas, um rbus30 , com imagens
criptografadas. So mensagens que afloram  conscincia com
energia suficiente para romper a fora da vida consciente e sua
unilateralidade. Irrompem  conscincia mesmo no estado de
viglia pela necessidade de serem compreendidos, integrados ou
reconhecidos. Sua irrupo independe da vontade consciente do
sonhador. Eles trazem do inconsciente o que deveria estar na
conscincia e no coube ou no foi possvel, mas que no deve
mais permanecer excludo dela.
H que entendermos que a linguagem do inconsciente no 
verbal ou mesmo pictrica. Como disse Jacques Lacan "o
inconsciente se estrutura como uma linguagem". No
sabemos a natureza dessa linguagem mas, certamente, para se
fazer entender (o Self) ela  expressa atravs dos smbolos

30
Whitmont e Perera, Sonhos, um portal para a fonte, p. 41.
90

existentes no inconsciente e no consciente. As imagens produzidas
nos sonhos no so em si a linguagem do inconsciente, mas, to
somente, o material disponvel para a expresso de uma
mensagem que sempre vem codificada.
Se misturamos rudos externos aos sonhos, isto , se
inclumos como acontecimentos deles rudos da televiso,
campainhas, conversas, chamados de telefone, e outros que
n
estejam ocorrendo paralelamente ao sono, isso no i valida seu
contedo simblico. Freqentemente, quando eles ocorrem, os
rudos externos podem ser aproveitados para a elaborao dos
sonhos. Eles desempenham o mesmo papel simblico dos
contedos inconscientes.
No s os complexos, mas tambm os arqutipos so
modeladores dos sonhos, estruturando seus enredos e reunindo
os smbolos adequados ao propsito do Self. Complexos e
arqutipos so estruturas psquicas que agem como ncleos
geradores das imagens onricas. Muitos temas da vida do ser
humano surgem nos sonhos; so eles padres tpicos de
n
comportamentos engendrados pelos arqutipos do i consciente
coletivo. Imagens onricas distintas podem representar, num
mesmo sonho ou em sonhos diferentes, os mesmos complexos.
Nos sonhos, os complexos so apresentados de forma simblica,
como uma espcie de metfora.
O ser humano  essencialmente subjetividade. Sua estrutura
psquica, que lhe comanda a vida orgnica e de relaes com o
mundo,  constituda de elementos imponderveis, cuja definio
escapa  cincia. Podemos dizer, para uma melhor compreenso,
a partir de uma viso cientfica, descritiva, que o mundo ntimo do
ser humano  o inverso de seu mundo exterior. Se dissermos que
o mundo exterior ao ser humano  concreto, ento classificaremos
de abstrato seu interior.  como uma lente em que se v de um
91

lado a imagem invertida em relao ao outro. A diferena  que a
inverso  de essncia e no de posio.
Ao estabelecermos essa forma de compreenso, estaremos
afirmando que o mundo com o qual o ser humano lida
verdadeiramente  o mundo interior, onde est contido todo o
mundo exterior adaptado e condicionado de forma simblica.
Desse ponto de vista, o mundo objetivo  aquele com o qual o ser
humano lida imediatamente no seu psiquismo.
Preferimos dizer que o mundo ntimo contm uma parte
organizadora de si mesmo.  essa parte organizadora que envia
suas mensagens atravs das imagens inconscientes. Mas, elas,
como tudo que provm do mundo inconsciente, passam pela
conscincia e se ligam s imagens ali existentes, dando-lhes
direcionamento ou alterando sua disposio. O resultado dessa
conexo  o sonho, que, de certa forma, se presta ao papel de
aglutinar, ou permitir uma socializao dos contedos
inconscientes dispersos que, por uma tenso interna, exigem uma
exteriorizao e compreenso.

Simbolismo

A utilizao de certos smbolos, bem como sua organizao
nos sonhos,  uma disposio diretamente relacionada com o
nvel de desenvolvimento do Self. O estgio de desenvolvimento
psquico poder interferir na lucidez dos s  onhos bem como na
forma como eles se apresentam, a fim de facilitar sua
compreenso pelo ego desperto.
Quando surgem smbolos arquetpicos nos sonhos, a
interpretao no deve ser pessoal, isto , pouco adianta
perguntar ao sonhador o que ele acha daquele smbolo. Pode-se
at faz-lo, mas deve-se buscar o significado mitolgico, cultural,
enfim, arquetpico, portanto coletivo, para aquele smbolo
92

especfico. Isso levar a um certo distanciamento do carter
pessoal da anlise. Algumas imagens que surgem nos sonhos
parecem ter significados, de tal forma c  oerentes, que sugerem
uma certa universalidade a indicar origens comuns, parecendo
pertencentes a um substrato coletivo da psiqu humana.
Jung dizia que - "Devemos entender que os smbolos do
sonho so, na sua maioria, manifestaes de uma parte da
psique que escapa ao controle do consciente."31
Os sonhos podem ser, quanto  origem das imagens:

Superficiais: quando provm das camadas superficiais da
vida psquica. Referem-se ao inconsciente prximo (pessoal) ou
ao consciente. Trazem imagens representantes de experincias e
emoes vivenciadas pelo sonhador. So geralmente
interpretados no plano do objeto, muito embora devam sempre
ser tomados, tambm, no plano do sujeito.

Profundos: provenientes das camadas profundas da
psiqu. Geralmente alcanam o inconsciente coletivo e so
chamados de sonhos arquetpicos ou grandes sonhos. Trazem
imagens de carter impessoal, arquetpicas, tecendo geralmente
temas mticos. Ocorrem em momentos prprios de
transformaes e so espaados entre si por longos perodos.
Devem ser sempre interpretados no plano do sujeito, porm sem
se distanciar da realidade do sonhador.
Os smbolos arrostados pelo inconsciente podem ser:
pessoais, coletivos, regionais, nacionais, culturais, raciais, etc. A
depender do teor da mensagem, o inconsciente ir buscar o
smbolo mais adequado.


31
O Homem e seus Smbolos, p. 64.
93

A situao ou contexto em que os smbolos so
organizados, isto , o paradoxo que o sonho apresenta,  mais
importante do que as imagens em si. A situao problema ou a
afirmao contida numa mensagem simblica deve ocupar o
sonhador mais do que o significado aparente do smbolo. Uma
imagem onrica nunca  apenas a prpria imagem. A ela esto
associados elementos fundamentais  compreenso do significado
de sua presena no sonho. Uma boa "investigao" sobre o
sonho trar aqueles elementos de volta  conscincia.
 sempre importante se ter uma percepo, dentro do
contexto dos sonhos, de quais as emoes e a intensidade com
que ocorrem para cada imagem surgida. A arrumao de certas
imagens onricas se refere a alguns tipos de emoes que no so
sentidas pelo sonhador ao acordar. As imagens, tanto quanto sua
arrumao, sugerem essas emoes. Os sonhos expressam: um
tema onrico principal, uma perspectiva de realidade psicolgica
do sonhador, um simbolismo particular, ncleos de significado,
padres de energia, uma expressividade emocional.
 comum o surgimento de animais nos sonhos, cuja
interpretao  sempre dada como fcil e de correlao com
aspectos instintivos. Alguns autores consideram que a depender
da espcie animal que surja no sonho o instinto ser diferente. H
quem afirme que, quando o animal, no sonho, est correndo atrs
do sonhador e o alcana,  sintoma ou de que aquele instinto j
foi integrado ou, ao contrrio, dessa necessidade. Como os
significados sero variveis e de acordo com a cultura de cada
sonhador, a espcie animal poder ter significaes simblicas
diferentes.
Lgico  que a relatividade com que devemos estabelecer
associaes poder proporcionar entendimentos diferentes ao
significado do sonho. Nunca, em hiptese alguma, poder
esquecer-se o analista do contexto do sonho bem como da
94

personalidade do sonhador. As associaes universais tendem a
incorrer em equvocos cuja correo ficar sobrecarregando a
psiqu para a necessidade da produo de novos smbolos a fim
de consertar o resultado das interpretaes anteriores.
Muito embora as experincias arquetpicas, pertencentes ao
inconsciente coletivo de cada indivduo, possam contribuir para a
n
produo de smbolos universais, suas i terpretaes ou mesmo
associaes que se possam fazer podero permitir compreenses
distintas e diferenciadas, e at contraditrias, exatamente por
serem arquetpicas.
Da mesma forma so comuns sonhos com fogo, cuja
interpretao ou associao mais comum  a transformao, alm
de simbolizar a energia psquica que se manifesta na forma de
impulsos, vontades, desejos, determinao, etc. Essas
associaes se do pela utilizao milenar da experincia de se
lidar com ele como elemento transformador e gerador de uma
nova substncia. Mas no podemos esquecer os significados
particulares que as experincias individuais podem dar quele
smbolo. Uma experincia traumtica com o fogo, seja do
sonhador ou de algum que lhe  prximo e em sua presena,
poder provocar o surgimento da imagem com objetivo diferente
do que a experincia universal sugere.
As imagens onde a gua  elemento abundante e o
sonhador mantm contato com ela, costumam ser associadas e
interpretadas como sendo a camada inconsciente da psiqu
humana ou ainda relacionadas  sua vida afetiva e sexual. Tais
idias advm do prprio significado da gua como "fonte da
vida", sem maiores correlaes diretas com o sonhador, mas com
aspectos coletivos da espcie humana.
H smbolos universais e pessoais, como tambm h os
naturais e os culturais. Eles, de qualquer forma, expressaro
aspectos do ser humano, de sua poca, de sua histria e de suas
95

tradies. Como no ser humano encontramos os traos de toda a
humanidade, os smbolos tambm traro a histria individual e
coletiva.
O fato do sonhador fixar uma imagem especfica de seu
sonho e lembrar-se mais detidamente dela, no significa que se
deve reduzir sua interpretao  anlise desse ponto. Seria mais
conveniente observar outros, buscando correlacionar suas
imagens. Ao nos determos agora em partes de sonhos, no
significa dizer que estaremos desprezando sua anlise global.
Quando o sonhador valoriza determinada imagem de um sonho,
pode-se deduzir que ele se incomodou com aquele aspecto, mas
no se pode dizer que ali est o significado total do sonho.
A seguir faremos algumas associaes comuns que se pode
estabelecer com imagens dos sonhos. Essas associaes no
devem ser tomadas sempre como universais e verdadeiras.
Podem ter significados distintos a depender do enredo em que se
encontram e do estado de conscincia do sonhador.

Sonhar com rvores

Sonhos onde aparecem rvores tendem a ser associados ao
prprio processo de transformao que ocorre na vida do
sonhador. Elas tambm podem representar um grupo familiar,
empresarial, associativo, etc., cujo significado ser dado pela
forma e pelo tamanho com que se apresentem. Em alguns sonhos
a cruz tem significado semelhante ao das rvores.

Sonhar com gua

Sonhar com o mar, com praia, com orla ou margem de rio,
geralmente significa contato e entrada em outras instncias
psquicas alm do consciente. A gua  o elemento primordial da
96

vida humana. Por esse motivo ela pode ter muitos significados;
geralmente eles esto associados  idia do inconsciente e tudo
que a ele se refere.

Sonhar caindo

So sonhos que lembram os aspectos do processo de
transformao ocorridos a nvel consciente e, a depender das
sensaes do sonhador, podero significar a tomada ou a
interrupo, na conscincia, do contato com os elementos
fundamentais de seu desenvolvimento. Nos casos de viagens
astrais, costuma-se correlacionar com o movimento de
deslocamento do corpo etreo em relao ao corpo que dorme.

Sonhar com nmeros

Os nmeros que aparecem nos sonhos devem ser
reduzidos ao que exceder da diviso por quatro, nmero da
totalidade. O excesso da diviso, seja um, dois ou trs, tem
significado prprio. O nmero um significa ativao, o comeo, a
semente. O nmero dois significa atrao, casamento de opostos.
O nmero trs significa expanso, movimento, necessidade de
equilbrio. O nmero quatro significa harmonia, segurana,
totalidade.

Sonhar voando

Esses sonhos podem tentar nos mostrar algo em relao
aos nossos limites e aos incios e trminos de estgios ou fases do
processo de desenvolvimento da personalidade. As imagens e
sensaes antes e depois do voar demarcaro aquelas fases.
97

Semelhantes  sensao de cair, podem tambm ser reflexos da
atividade de entrar e sair do corpo durante o sono.

Sonhar com animais

Os animais nos sonhos geralmente representam a  spectos
instintivos ou pr-racionais do sonhador. No raro, tambm, o
animal que aparece nos sonhos pode estar se referindo a figuras
mitolgicas do inconsciente coletivo que tm o sentido de
divindades. O tipo de animal ser fundamental para que as
associaes possam ocorrer. H determinados animais, com os
quais o sonhador pode ter tido uma experincia traumtica
consciente, que provocaro associaes ao nvel do objeto, isto
, mais direta e causal. Outros merecero uma anlise subjetiva,
variando com a espcie do animal.

Sonhar com cobra

A cobra  um animal que se assemelha ao que se conhece
mitologicamente com o nome de serpente, que tem um simbolismo
muito amplo. Em muitas culturas ela foi, e ainda , smbolo sexual;
em outras  o smbolo da sabedoria, do conhecimento, da
prudncia, da transformao, do mal, do renascimento e da
morte. Deve-se levar em conta o enredo do sonho para se
encontrar o significado mais coerente.

Sonhar com uma casa

A casa  geralmente tomada como smbolo da conscincia
do sonhador. Ela pode estar representando aspectos da vida atual
ou de experincias passadas, variando pelos elementos
decorativos internos e externos do imvel do sonho. Quando o
98

sonhador se encontra dentro ou fora dela, geralmente se associa
aos aspectos da vida consciente em que ele necessita
respectivamente integrar ou eliminar da conscincia.

Sonhar com dinheiro

O dinheiro  um elemento neutro que possui uma relevncia
muito grande em nossa sociedade. Certamente o sonhador no
escapar de estabelecer uma relao entre ele e seu processo de
crescimento. O dinheiro pode significar toda a possibilidade de
progresso e o futuro do prprio sonhador. Pode tambm ser
correlacionado com a energia psquica.

Sonhar com veculos

 muito comum relacionar-se as situaes em que o
sonhador contracena com carros, com sua prpria liberdade e
movimentao na vida. Muitas vezes o carro que lhe aparece
parado ou em movimento no sonho, retrata seu prprio corpo,
cuja idade ou aparncia poder ter similaridade com a do veculo.

Sonhar lavando alguma coisa

Esses so sonhos cujo contedo nos remete  necessidade
de redeno ou purificao.  um tema que nos prope uma
espcie de desculpa de si mesmo e compreenso em relao s
prprias atitudes.  o tema do perdo a si mesmo.

Sonhar com casamento

So sonhos das unies desejveis ou necessrias, em que o
sonhador ainda no se deu conta de sua importncia. Muitas
99

vezes eles representam uma necessidade do encontro com algo ou
com aspectos da personalidade de algum, esquecidos do
sonhador e que devam ser a ele integrados.

Sonhos de perseguio

O captulo sobre pesadelos pode trazer uma melhor
compreenso sobre esse tipo de sonho, porm,  bom atentarmos
para o simbolismo contido no contexto da perseguio
apresentada.  conveniente o sonhador atentar para quem ou o
que o persegue e para o motivo da perseguio. Independente
dos aspectos apresentados na anlise esprita, a interpretao
simblica ser de grande utilidade. O que nos persegue pode
representar algo com o qual devemos nos reconciliar ou buscar
integrar  nossa personalidade consciente.

Sonhar com uma profisso

Quando o sonho apresenta o sonhador numa determinada
profisso, ele geralmente quer mostrar aspectos relacionados 
personalidade do sonhador enfocando seu papel social ou a forma
como ele  visto pelas pessoas de sua convivncia. Est
mostrando traos de sua persona.

Sonhar com uma autoridade

Tais sonhos geralmente esto relacionados com a maneira
como o sonhador se relaciona com as figuras masculinas, e com o
masculino na sua vida: o pai, o chefe, a lei, o estado, etc. Quando
no sonho a autoridade se apresenta como um dos smbolos
caractersticos do Self, merece outra interpretao; so como
recados diretos do Self ao ego.
100


Sonhar com religio ou figuras religiosas

Tais sonhos estaro provavelmente se referindo  vida
moral do sonhador; s suas represses e s proibies familiares.
s vezes, as figuras religiosas podem representar conselheiros a
ara
tentar passar orientaes importantes p a vida do sonhador.
Numa linguagem junguiana, simbolizam o arqutipo do Velho
Sbio. Alguns sonhos com figuras religiosas podem tentar mostrar
ao sonhador a importncia da moral em sua vida.

Sonhar com cristais

O cristal, mais especificamente o diamante, sempre foi
tomado como um elemento puro e figurativo do equilbrio pessoal,
da transcendncia. Seu simbolismo est associado ao Self,
tornando-se sua imagem mais lmpida.

Sonhar com crianas

Muitas vezes os sonhos com crianas, principalmente
quando  o prprio sonhador que se reveste daquele papel,
denota algo relacionado com sua "criana interior". Podem trazer
aspectos negativos da posio infantil do ego desperto como
podem representar sua simplicidade e pureza. A idade da criana
bem como sua atitude no sonho sero relevantes para se obter
uma melhor interpretao. Ao nvel do objeto, podem representar
vivncias do sonhador quando no perodo da infncia.

Sonhar com maternidade
101

"Me  um arqutipo que indica origem, natureza, o
procriador passivo (conseqentemente, matria, substncia)
e, portanto, a natureza material, o ventre, (tero) e as
funes vegetativas e, por conseguinte, tambm o
inconsciente, o instinto e o natural, a coisa fisiolgica, o
corpo no qual habitamos ou somos contidos."32
H sonhos que refletem situaes referentes aos estados
corporais, como afirma Patricia Garfield33 , cujo estudo se
restringiu  mulher: " medida que o corpo da mulher se
transforma, passando da infncia  adolescncia, de um ciclo
menstrual a outro, da virgindade  atividade sexual, da
concepo ao parto e da amamentao  velhice, essas
mudanas se refletem no espelho dos seus sonhos. Todos os
traumas infligidos ao seu corpo por acidente ou por molstia
so igualmente retratados nos sonhos. As transformaes no
tamanho, na forma, na sensao ou no funcionamento do
corpo da mulher, assim como suas emoes a propsito
dessas mudanas, so reveladas pelas imagens que ela cria
em seus sonhos."

Smbolos do Self

O Self, enquanto totalidade psquica e centro organizador,
apresenta-se nos sonhos com aspectos variados, mas que,
ordinariamente, ocupam posio de destaque na vida consciente.
So smbolos comuns do Self, que surgem como imagens
onricas: o Sol, uma divindade, o diamante, o rei, a rainha, uma
praa central, uma mandala, um crculo, uma esfera, um
quadrado, a quaternidade, o centro, a cruz, o Cristo, um velho


32
C. G. Jung, Obras Completas Vol. XVI, par. 344.
33
Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 146.
102

sbio, o Buda, um conselheiro, uma flor, uma bola, uma pirmide,
um cristal, um anel, o ouro, etc. Geralmente so smbolos que
apareceram na histria da humanidade significando um centro
organizador e ordenador.

A soluo dos problemas profissionais nos sonhos

No apenas dos problemas profissionais, mas tambm de
qualquer problema, os sonhos podem se tornar poderoso
instrumento de auxlio, quando so colocados a servio desse
propsito. Antes de dormir deve-se, alm de desejar sonhar com
determinado aspecto que envolva o problema que esteja mais
preocupando, deve-se tambm propor uma soluo para se ter a
confirmao ou a negativa atravs do sonho. Deve-se aguardar, s
vezes por alguns dias, os resultados. Eles podero vir atravs dos
sonhos ou de intuies conscientes. Os antigos, na Grcia,
costumavam incubar os sonhos, o que consistia em levar o
indivduo a um templo especfico, a fim de que ele, ali dormindo,
sonhasse e, com a proposta do sonho, resolvesse seu problema,
fosse de sade ou de outra ordem.
Na anlise dos smbolos contidos nos sonhos, Jung
verificou as semelhanas existentes entre as imagens onricas do
ser humano primitivo e as do ser humano moderno. Percebeu a
presena de motivos mitolgicos em ambos, o que denominou de
imagens primordiais ou arqutipos (resduos arcaicos, na
linguagem freudiana). Eles aparecem nos sonhos como
organizadores do contedo inconsciente para percepo da
conscincia.
103




A estrutura do sonho


Os sonhos geralmente tm uma estrutura tpica: Exposio,
Desenvolvimento, Clmax e Soluo. A exposio  uma espcie
de prlogo onde encontramos um cenrio e, s vezes, a
introduo do problema ou a narrao do tema. No
desenvolvimento temos as peripcias e o desenrolar da histria.
No clmax ou impasse, tambm chamado de crise, geralmente se
d uma situao de tenso ou mudana. Na soluo, ou lysis, que
tambm pode no estar presente no sonho, encontramos a
proposta final ou catstrofe, como chama Marie-Louise von
Franz34 .
Muitos sonhos tm uma estrutura dramtica clssica.
H uma exposio (lugar, tempo e personagem) que mostra a
situao inicial do sonhador. Na segunda fase h um
desenvolvimento do enredo (ocorre a ao). A terceira fase
traz a culminao ou clmax (ocorre um evento decisivo). A
fase final  o resultado ou a soluo (se  que existe) da ao
no sonho.35
Exposio ou situao  onde encontramos a indicao de
lugar, dos principais protagonistas, da situao inicial e o

34
O Caminho dos Sonhos, p.48.
35
Daryl Sharp, Lxico Junguiano, p. 153.
104

levantamento de questes;  nesse ponto inicial que costumamos
localizar a questo problemtica. Desenvolvimento ou
complicao  onde encontramos o enredo, que geralmente se
complica fazendo surgir, s vezes, uma tenso. Clmax: algo
definido acontece ou a situao muda; muitas vezes as situaes
de tenso ocorrem em vrias partes do sonho, no se restringindo
a um s momento.
Soluo ou desfecho: nem todos os sonhos a tm, porm
h uma situao final, na qual uma proposta  colocada; quando a
soluo no  apresentada, o ego desperto deve buscar vrias
alternativas para resolver seu conflito. Quando o desfecho do
sonho  a parte considerada mais significativa e de maior
contedo emocional por parte do sonhador, costumo iniciar sua
anlise por ela, questionando-lhe a que situao de sua vida
aquela situao, que est sendo apresentada, se refere. Em tais
casos  mais recomendado iniciar-se pela anlise objetiva.
Longe de serem mensagens aleatrias e sem conexo com
a vida do sonhador, os sonhos se apresentam como um cdigo a
ser decifrado por ele. Se sua estrutura no se apresentar coerente
ou como o modelo apresentado acima, no significa que no deva
ser analisado.  exatamente por no estar de acordo com a lgica
da conscincia que deve ser buscado seu sentido.
Geralmente tm uma estrutura central, enredo, foco ou
motivo principal. Alm desse foco, eles geralmente tm uma
concluso ou final significativo ao enredo. Suas imagens so
elementos constitutivos, porm no nicos para seu significado.
Alm delas, cuja importncia  fundamental, deve-se ficar atento
ao sentimento do sonhador durante e depois do sonho. Eles so
importantssimos para sua decifrao.
Quando ocorre na primeira fase do sono, geralmente ele se
relaciona com aspectos da conscincia e trata de temas em
continuao ao estado de viglia. Quando o sonho se d na
105

metade do sono, se relaciona com aspectos mais profundos do
inconsciente. Quando ocorre no final do sono, geralmente se
relaciona com aspectos que sero enfrentados pelo ego ao
acordar. Essas fases esto relacionadas com a durao relativa do
sono de cada pessoa.
O sonho se assemelha a uma histria, a um ato ou uma
encenao proporcionada pelo sonhador. Encontraremos uma
estrutura, um enredo, e, na grande maioria deles, h sempre uma
personagem principal. O sonhador poder envergar a tnica
dessa personagem ou ser um espectador ou ator. Mas mesmo na
posio de espectador, ele dever entender que cada personagem
do ato  parte sua que ali est sendo encenada. Cada ator
representa um pouco dele e cada enredo (se houver mais de um)
poder ser um complexo ou grupo de complexos, representados.
Ali, naquelas imagens, poder estar representada a histria de
vida do sonhador, sem os inconvenientes do relato feito pelo
consciente. Os sonhos no envolvem, necessariamente, tempo e
espao. Trazendo-nos a realidade do sonhador de forma ampla
com conexes causais e tambm acausais e atemporais.
Jung colocava36 que os sonhos, em geral, possuem uma
estrutura dramtica. A exposio continha as indicaes de lugar,
das personagens da ao e a situao inicial. Tudo isso  a
exposio. No desenvolvimento da ao surge uma
complicao ou tenso. No seu enredo h um certo momento de
tenso, e quando acontece algo de decisivo ou uma mudana, ele
chama de culminao ou peripcia. A etapa final, chamada de
lysis,  a soluo ou o resultado produzido pelo sonho.  a
situao final ou resultado procurado. A falta de concluso
representa um problema especial.


36
Obras Completas, Vol. VIII, par. 561s.
106




Sonhos repetitivos


O fato de chamarmos de repetitivos no significa dizer que
eles sejam iguais. O sonho  sempre nico, singular. Ele  como
uma equao com vrias incgnitas. Quando se pretende
interpret-lo, introduz-se mais variveis, tipo: momento
psicolgico do sonhador ou seu estado emocional, o lugar da
interpretao, quem o auxilia a interpretar e sua acuidade intuitiva,
as associaes, as amplificaes, etc. A simples lembrana, face 
linguagem lgica do ego, produz alteraes nos sonhos.
 comum as pessoas relatarem sonhos repetitivos que, de
tempos em tempos retornam, onde ocorrem situaes ou lugares
j vividos em outros, ou que trazem os mesmos temas. Isso se d
em funo da necessidade do ego consciente se aperceber de
algo muito importante. O sonho que se repete traz uma mensagem
significativa para a vida do sonhador e sua interpretao  de
suma relevncia para seu destino.
Os sonhos geralmente se apresentam em srie e trazem um
padro de mensagem a ser assimilada pelo ego desperto que, por
ser dotado de muita energia psquica, no sintoniza facilmente
com a mensagem que o Self lhe envia. Essa srie pode aparecer
em sonhos de uma mesma noite assim como em sonhos
espaados em dias ou mesmo em anos.
107

Esse padro se repete pela constelao de um ou mais
arqutipos que, atravs dos complexos, predominam nos sonhos.
A repetio se d na tentativa do sonhador dar-se conta de seus
complexos, que necessitam de conscientizao por parte do ego
desperto.
H casos em que os sonhos se repetem trazendo pequenas
diferenas entre uns e outros, mas com a mesma temtica. Essas
pequenas diferenas so pistas valiosas para sua compreenso.
Nelas encontramos elementos simblicos que visam cada vez mais
o esclarecimento do sonhador.
Eles desaparecem na medida que seus recados sejam
entendidos, isto , quando o sonhador se d conta de seu
complexo e trabalha pela sua dissoluo. A partir da os sonhos
tero novas temticas, conduzindo o sonhador no processo de
desenvolvimento de sua personalidade.
Mesmo numa srie de sonhos pode haver um ou mais,
intercalados, que destoam da temtica dos outros; tal ocorre pela
necessidade da conscincia de estabelecer paralelos com
processos psquicos que se correlacionam, porm se distanciam
no tempo.
H pessoas que nunca esquecem determinado sonho, de tal
forma que as imagens nele produzidas perseguem a vida do
sonhador por muitos anos, influenciando, inclusive, suas atitudes
de forma imperceptvel. Esses sonhos so fundamentais e
costumam surgir nos momentos decisivos da vida do ser humano.
Jung denominava esses sonhos de recorrentes. Ele afirmou:
"Esse tipo de sonho  em geral uma tentativa de
compensao para algum defeito particular que existe na
atitude do sonhador em relao  vida; ou pode datar de um
traumatismo que tenha deixado alguma marca. Pode tambm
ser a antecipao de algo importante que est para
108

acontecer." Eles ocorrem na primeira infncia, na adolescncia e
na meia idade.
109




Somatizao dos sonhos


Jung coloca37 que "em algum lugar a alma  corpo vivo,
e corpo vivo  matria animada; de alguma forma e em
algum lugar existe uma irreconhecvel unidade de psique e
corpo que precisaria ser pesquisada psquica e fisicamente,
isto , tal unidade deveria ser considerada pelo pesquisador
como dependente tanto do corpo quanto da psique."
Adam Zwig38 citando B. Siegel, em Love, Medice, and
Miracles, lembra uma interpretao de Jung de um sonho de um
paciente seu, em que ele v uma lagoa e um mastodonte e 
aconselhado, por Jung, a verificar se no havia algum bloqueio do
fluido crebro-espinhal.
Marie-Louise von Franz coloca39 que alguns sonhos com
cobras ou insetos, por exemplo, podem ocorrer quando h
perturbaes do sistema nervoso simptico e que, alguns
arqutipos esto ligados a certas reas especficas do corpo,
denunciando sua situao atravs dos sonhos.
Sabemos que alguns sonhos erticos em determinados
indivduos, sob certas condies, podem provocar o orgasmo,

37
C. G. Jung, Obras Completas, Vol. VI, par. 1031.
38
Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 81.
39
Os Sonhos e a Morte, p.120.
110

interferindo assim no organismo do sonhador. Da mesma forma, a
depender do estado fsico do sonhador e do tipo de sonho, ele
poder trazer ao corpo aspectos que podero provocar doenas.
Algumas doenas, inclusive, so antecipadas nos sonhos; nesse
caso, eles no sero causadores, mas sinais de alerta. Podemos
perguntar:  se os sonhos curam, porque eles tambm no
poderiam causar problemas de sade? Se eles causassem tais
problemas, que mecanismo seria responsvel por essa fatalidade
psicossomtica?
O estudo sobre a influncia de sonhos traumticos como
indicadores de advertncias de grave molstia encoberta,  citado
por Robert Smith no livro Decifrando a Linguagem dos Sonhos,
 pgina 209. Para ele, esses sonhos so advertncias, como uma
bandeira vermelha ou sinais de perigo, do sofrimento psicolgico
encoberto do sonhador. Sua anlise se refere a pacientes
hospitalizados, no se aplicando aos sadios.
Independente das teorias sobre os sonhos, eles
representam sintomas de algo que se processa num nvel
inacessvel  conscincia no instante em que ocorrem. So
sintomas da atividade psquica, como afirma Jung, quer sejam
prenncio de doenas ou no; algo ocorre, e eles avisam, abaixo
do nvel da conscincia.
Invariavelmente os sonhos dizem mais respeito 
personalidade do que ao corpo, muito embora haja aqueles que
atuam como prognsticos em relao a aspectos orgnicos
particulares.
Jung, no que diz respeito aos sonhos se referirem a
aspectos orgnicos, escreveu40 : "Os sonhos endgenos dizem
respeito exclusivamente aos complexos, e os exgenos, isto ,
os sonhos influenciados ou gerados por estmulos corporais

40
Obras Completas, Vol. III, nota 146 do par. 163.
111

que se do durante o sono so, tanto quanto pude observar
at hoje, fuses de constelaes do complexo com
elaboraes mais ou menos simblicas da sensao
corporal." Noutro trabalho, Jung interpreta dois sonhos de uma
jovem, cujo desfecho  letal, que apresentam, segundo ele, os
traos indicativos de uma doena orgnica grave, mas que no se
referiam diretamente  morte, muito embora entendesse que isso
pudesse ocorrer em certos sonhos. Na anlise de Jung41 , v-se a
identificao, em smbolos especficos, do aspecto autodestrutivo
prognosticado nos sonhos do paciente.




41
Obras Completas, Vol. XVI, par. 343s.
112




Das imagens  interpretao
descritiva na linguagem do
consciente


 necessrio levantar-se um questionamento dialtico sobre
os sonhos: independente de seus significados, eles devem ser
vistos como uma pergunta ou como uma resposta para o
sonhador? Muito comum que se queira entender os sonhos como
uma resposta aos conflitos do sonhador, tendo em vista sua
utilizao no passado. Na Grcia eles eram usados com a funo
de trazer tais respostas, atravs dos ncubos. Porm, o sonhador
deve ficar atento a essa armadilha cujo poder  muito grande. Os
sonhos podem, e geralmente o fazem, trazer questes ao ego,
mais do que respostas.
As respostas ou perguntas trazidas nos sonhos se referem
ao momento presente, aos perodos da infncia,  vida como um
todo ou ao futuro do sonhador? Esse  outro cuidado que tanto o
sonhador quanto o analista devem ter na anlise dos sonhos.
Escolher a alternativa adequada nem sempre  tarefa fcil,
exigindo perspiccia e pacincia. As associaes e amplificaes
113

sero relevantes para se obter a resposta mais adequada a essa
pergunta.
Outra questo que se levanta  quanto  aplicao que se
deve dar ao entendimento do sonho. Ele deve levar o sonhador
para fora (mundo da persona) ou para dentro (mundo da
sombra)? As perguntas ou as respostas advindas das imagens
onricas devero levar a uma reflexo sobre as atitudes externas
ou sobre reflexes (atitudes) internas? A soluo desse conflito
poder vir a partir da anlise de uma srie de sonhos e n     o
apenas de um ou de uma particularidade dele.
Os sonhos se formam pelo conjunto de imagens forjadas
pela interao entre a vida psquica inconsciente e a consciente.
Eles no so a linguagem do inconsciente, mas representam
aquela linguagem que, para aflorar  conscincia, isto , para
chegar ao seu destino, o ego, solicita as imagens codificadas no
inconsciente e as imprime no crtex. O "recado" do sonho, vindo
do centro organizador do psiquismo, sofre alteraes pelos
n
elementos existentes no i consciente e utiliza-se dos cdigos de
imagens presentes na conscincia, reorganizando-os de acordo
com seus objetivos.
O sonho  resultante :

1. De uma mensagem do centro organizador da vida
psquica;
2. Da interferncia que essa mensagem sofre na passagem
pelos contedos inconscientes;
3. Das imagens-smbolos disponveis no crtex, em forma
de cdigos;
4. Do estado de esprito do sonhador em relao  sua
vida consciente.
114

A interpretao dos sonhos pode se dar apenas para
alcanar quais os fatores inconscientes que interferem na vida do
sonhador. Geralmente as terapias s alcanam os primeiros nveis
do inconsciente (quando alcanam). Os n     veis mais profundos,
isto , de onde provm a mensagem, dificilmente tm sido
alcanados. A mensagem do sonho representa, muitas vezes, uma
correo de rumo na vida do sonhador.
O inconsciente tem sua prpria linguagem, cujos sinais no
se assemelham queles constantes na linguagem da vida
consciente. Para se fazer entender, o Self utiliza os smbolos
disponveis e compreensveis ao ego desperto. A mensagem
traduzida da linguagem singular do inconsciente, chega para a
mente consciente atravs de imagens sensoriais, visuais, auditivas,
proprioceptivas ou cinestsicas.
Jung, consciente da riqueza do mundo inconsciente,
costumava buscar em seus prprios pacientes e em sua
capacidade de imaginar e recriar smbolos, os significados
profundos da linguagem onrica vinda do inconsciente. Ele
afirmou: "Observei muitos pacientes cujos sonhos indicavam
rico material produzido pela fantasia. Estes pacientes
tambm me davam a impresso de estarem literalmente
cheios de fantasias, mas incapazes de dizer em que consistia a
presso interior. Por isto, eu aproveitava uma imagem
onrica ou uma associao do paciente para lhe dar como
tarefa elaborar ou desenvolver estas imagens, deixando a
fantasia trabalhar livremente. De conformidade com o gosto
ou os dotes pessoais, cada um poderia faz-lo de forma
dramtica, dialtica, visual, acstica, ou em forma de dana,
de pintura, de desenho ou de modelagem."(...) ",... eu
observei que este mtodo muitas vezes diminua, de modo
considervel, a freqncia e a intensidade dos sonhos,
reduzindo, destarte, a presso inexplicvel exercida pelo
115

inconsciente. Em muitos casos, isso produzia um efeito
teraputico notvel, encorajava tanto a mim como o paciente
a prosseguir no tratamento, ..."42




42
C. G. Jung, Obras Completas Vol. VIII par. 400s.
116




Como interpretar os sonhos


Interpretar os sonhos no  um simples exerccio intelectual
nem uma atividade professoral. Seu campo pertence  esfera
emocional e intuitiva, onde os insights possibilitam uma apreenso
do significado necessrio e do sentido de suas imagens onricas.
Alm do uso do conhecimento tcnico, deve-se utilizar,
sobretudo, a sensibilidade e a intuio. Muito embora se possa
considerar o intrprete de sonhos um simples tradutor, o que no
lhe outorga portanto a cincia completa de seus significados, esse
papel no  mecnico. No se trata de traduzir linearmente os
smbolos, mas de penetrar numa histria real, de forma
consciente, entendendo que seu inconsciente tambm enviar os
necessrios insights, como uma espcie de intuio, para a
compreenso dos significados simblicos e dos sentimentos a eles
subjacentes. Na interpretao de um sonho, analista e sonhador,
devem chegar, atravs das associaes e das questes levantadas
e respondidas, s conexes emocionais que os smbolos contm.
So essas conexes emocionais que faro o sonhador alcanar o
sentido e o significado do sonho e, principalmente, seus
complexos.
As interpretaes das imagens onricas requerem o
conhecimento, pelo analista, da personalidade do sonhador. Essa
117

condio pode, de certa forma, interferir na anlise dos sonhos,
pois o analista tender a encaixar as imagens trazidas  realidade
do sonhador, como uma obrigao e um limite.  claro que no
se pode dissociar os smbolos onricos da realidade do sonhador,
porm no se deve ter isso como uma camisa de fora, tendo em
vista a condio prospectiva e numinosa dos sonhos.
O exerccio da interpretao de sonhos, ao lado de se
constituir numa forma de alicerar o conhecimento sobre seu
significado profundo, serve tambm para o desenvolvimento de
uma faculdade humana extremamente importante no exerccio
profissional de um analista, que  a intuio. Aprender a captar os
sinais do prprio inconsciente, como um artista faz quando se
inspira ao compor uma obra,  exercitar a arte de comunicar-se
com seu prprio Self.
Qualquer interpretao dos sonhos no pode prescindir da
sensibilidade emocional nem se precaver contra as armadilhas
lgicas do intelecto.  exceo dos casos cuja ansiedade seja
visvel ou quando ele no anotou o sonho, costumo acolher os
sonhos de meus pacientes e buscar trabalhar com eles na sesso
seguinte  apresentao, tendo em vista a necessidade de evitar a
primeira interpretao que me vier  mente. Levo-os comigo, leio-
os, e depois busco estud-los para iniciar, posteriormente, a
anlise. Ainda no sei avaliar se  melhor analisar o sonho quando
est "fresco" na memria do sonhador ou, mais tarde, l-lo e
interpret-lo numa sesso na qual ele no esperava que o fizesse.
Aconselho sempre as pessoas que desejam estudar a arte
de interpretar os sonhos a reler as estrias e contos infantis que
fazem parte do repertrio cultural do universo terico no s de
sua poca como mais antigos. Penetrar no mundo simblico da
mitologia e das tradies populares se constitui num incio de
preparo para aquele mister especial. Os contos de fadas, os
mitos, as tradies folclricas contm ricos materiais para a
118

compreenso dos smbolos onricos coletivos. As interpretaes
devem examinar as similaridades estruturais, temticas e
emocionais presentes nos sonhos e nos temas mitolgicos.
Alm do conhecimento tcnico a respeito dos sonhos e da
habilidade prtica em lidar com anlise,  necessrio que todo
analista, que no fundo  um facilitador, um parteiro, possua
sobretudo humildade para interpretar as imagens onricas de seu
paciente a fim de estabelecer as conexes favorveis ao equilbrio
psquico. A interpretao dos sonhos  uma arte que merece
equilbrio, discernimento e harmonizao, pois ela ocorre no lugar
sagrado (temenos) de uma terapia.  tambm uma atividade que
requer grande esforo mental e que exige tambm considervel
desprendimento de energia fsica e psquica.
Nesse trabalho, qualquer interpretao preconcebida ou
padronizada poder vir em prejuzo da compreenso do
significado dos sonhos. Da mesma forma, qualquer preconceito
religioso, cultural ou algum tipo de rejeio contra-transferencial
ser um impedimento real para a percepo do significado do
sonho. Jung dizia que mtodos e regras so bons quando
podemos prescindir deles para trabalhar.
Devemos sempre nos precaver quanto  anlise imediata e
precipitada do contedo manifesto nos sonhos ou de seus
fragmentos. Sua aparente inteligibilidade pode levar a uma
percepo equivocada de seu significado.  certo que alguns
sonhos apresentam uma histria verossmil, mas deve-se buscar
seu significado subjetivo, que nem sempre  percebido  primeira
ais
vista. A anlise deve sempre procurar um ou m significados
existentes e que no se mostram imediatamente  conscincia.
Esse contedo no manifesto, a que Freud chamou de latente,
pode ser entendido  semelhana da moral existente por detrs de
119

uma fbula, que facilmente uma criana capta ao ouvir, conforme
assinalou Jung.43
Os sonhos no ocorrem para serem interpretados. So
produtos espontneos da atividade psquica cuja interpretao
visa auxiliar o sonhador no seu processo de individuao. Eles
fazem parte da tarefa de auxiliar o sonhador nessa empreitada
solitria, e solidria ao mesmo tempo, de descobrir sua prpria
singularidade. Eles so como sentinelas que alertam quanto s
correes de rumo do navegador solitrio em noite escura na
tentativa de chegar ao seu porto.
H sonhos, ou parte deles, que no devem ser
interpretados. O analista no dever interpretar quando verifica,
no s pelo contedo do sonho como tambm a partir de outras
observaes, que o seu paciente, naquele momento, no est em
condies de lidar com aquele aspecto de seu enredo.
Tomar-se apenas a tarefa de interpretar puramente os
smbolos contidos nos sonhos, desprezando os sentimentos e os
aspectos que dizem respeito  formao do simbolismo na vida do
sonhador, pode conduzir ao equvoco de apenas trazer um estudo
lgico e coerente  conscincia sem penetrar no processo de cura
do indivduo. A anlise e interpretao dos sonhos, num momento
de terapia, no devem se transformar num campo de testes do
intelecto ou na tentativa de se confirmar teorias preconcebidas. 
sobretudo um exerccio de empatia para com o sonhador. No
exerccio da interpretao,  preciso encontrar algo no sonho que
implique num certo consenso ou concordncia interna do
paciente, o que, s vezes, ocorre de forma inconsciente.
Interpretar os sonhos no  um exerccio de
correspondncia entre elementos, como numa prova escolar de
mltipla escolha. No existem interpretaes padronizadas e

43
Obras Completas, Vol. VIII, par. 449.
120

estabelecidas por um compndio pertencente a um saber
estabelecido e universalmente aceito.  atividade onde vrios
fatores interferem, inclusive o momento, o local, o sentimento e,
principalmente, o estado de esprito do sonhador, real intrprete
de seu prprio sonho. Numa mesma pessoa, em sonhos
diferentes, ou no mesmo sonho, idnticas imagens podem ter
significados distintos, a depender do momento de vida do
sonhador e da seqncia delas.
O cuidado na interpretao dos sonhos de um paciente vai
desde a construo terica que o analista faz daquilo que ele
presume seja o inconsciente e o consciente do outro, at a forma
como ele apresenta sua vida consciente. Ambos os aspectos so
reelaborados pelo analista, principalmente a construo do
inconsciente de seu paciente. A lembrana de uma particularidade
da vida, principalmente da infncia ou do principal conflito dele,
pode ser tomada como relativo quele smbolo ou imagem do
sonho. Esse procedimento pode ser um equvoco que,
provavelmente, ser corrigido por outro sonho.
Na interpretao pode-se comear do geral para o
particular ou do particular para o geral, aps questionar-se ao
paciente como ele prefere. Sua preferncia pode ser um
importante balizador para o significado do sonho pela escolha
analtica ou sinttica. Geralmente as pessoas costumam preferir a
escolha analtica pelas interrogaes que os diversos smbolos
trazem. Nesse caso deve-se cuidar para no se perder o objetivo
geral do sonho. O mtodo de interpretao analtico, do particular
para o geral, que busca significados para cada seo do sonho,
no despreza a interpretao sinttica, do geral para o particular,
na qual um objetivo maior est por trs do contedo lembrado
pelo sonhador.
s vezes, quando o sonho  muito longo, peo ao meu
paciente que escolha uma parte do sonho para anlise,
121

preferencialmente aquela que mais o impressionou. Desse modo
focamos o complexo que se manifesta no sonho, pois, s vezes,
essa mesma estrutura se encarrega de "florear" o enredo,
dificultando sua percepo. Mesmo fracionando o sonho, no se
deve perder de vista sua mensagem global.
Muito embora se empregue na interpretao dos sonhos a
livre associao, temos que entender melhor esse conceito que,
de forma alguma, significa colocar o pensamento a servio de
idias que nada tenham que dizer em r      elao ao contedo do
sonho. Por livre associao devemos entender a busca por
conceitos que possam estar conectados s imagens do sonho e
que tenham significado prprio para o sonhador. No momento em
que ele busca estabelecer associaes das imagens com seus
prprios conceitos e sentimentos, o analista deve auxili-lo sem no
entanto interferir com os dele.
Para a anlise e interpretao dos sonhos alcanar uma
identidade com as idias geradas no inconsciente, coletivo ou
pessoal, o analista dever munir-se de conhecimentos de
mitologia, histria das religies, filosofia, antropologia cultural,
folclore, alm da vida pregressa do sonhador, a fim de poder
estabelecer os paralelos necessrios com as imagens formadas.
Naqueles campos do saber se situam imagens significativas da
experincia humana, com as quais se podem estabelecer paralelos
arquetpicos interessantes. Mesmo assim, ainda no ser possvel
uma interpretao completa, definitiva e real das imagens onricas.
Esses paralelos arquetpicos podero levar o sonhador a sentir um
certo deslocamento da anlise pessoal para um campo
emocionalmente distanciado de seu conflito.
A necessidade de expressar os contedos inconscientes,
onricos ou no, atravs de palavras, isto , em expresses
verbais, no pode ser considerada como a nica forma de
diminuir as presses internas. Mtodos como a dramatizao, a
122

visualizao, a sonorizao, a dana, a pintura, o desenho, o
bordado, a modelagem, a meditao e outros, tambm se revelam
vlidos e de resultados idnticos, alm de, muitas vezes, serem
complementares ao relato verbal.
H sonhos que no precisam ser interpretados, isto , que
so apenas retratos, semelhantes s radiografias, dos processos
da psiqu no que diz respeito  atuao do Self no trabalho de
redirecionar os complexos a servio do processo de
individuao.
Algumas pessoas tm mais facilidade em entender seus
prprios sonhos que outras. Isso se d em funo de sua
capacidade de suspender ou relativizar as exigncias do ego
desperto no sentido de no lhe permitir estabelecer (pre)conceitos
ao lembrar dos sonhos.
Os sonhos que nos colocam em situao de visvel
inferioridade tendem a dificultar uma interpretao isenta por parte
do ego desperto, que nem sempre deseja situar-se em posio de
inferioridade, de necessidade de mudana.
 conveniente no interpretar o sonho imediatamente na
hora que se recordou dele ou que o anotou, muito embora o
sonhador deva registrar suas impresses iniciais. Procure, caso
esteja em terapia, levar seus sonhos  anlise com seu terapeuta.
Caso no esteja, busque interpret-lo ao final do dia, quando
estiver mais relaxado. Nesse momento relate-o a algum e
pergunte-lhe o que acha; mesmo que a opinio da pessoa seja
pueril, pois ela poder lhe despertar uma outra naquele momento.
Para iniciar a interpretao de um sonho deve-se classific-
lo de acordo com sua natureza, isto , se  simblico, se  sonho
criativo, se  premonitrio, se  espiritual, se  regressivo ou se 
sonamblico. Feita essa classificao, pode-se escolher a forma
mais adequada a trabalhar com o material onrico ou parte dele,
face  possibilidade de um mesmo sonho apresentar mais de uma
123

natureza, o que exigir uma certa habilidade do analista em saber
distingui-las. O conhecimento relativo que tenha de cada uma das
reas correspondentes  natureza do sonho ser fundamental ao
seu trabalho.
O ponto de partida para a interpretao dos sonhos  fazer
perguntas. Saber elaborar e levantar questes fundamentais  de
suma importncia na anlise e interpretao dos sonhos.
Perguntas do tipo: o que lhe pareceu esse sonho? O que lhe
sugere tal imagem? Voc v alguma correlao entre essa
situao do sonho e seu momento atual? O que tal personagem
sentiu durante aquele momento? Que sentido tal sonho tem para
voc? Voc se lembra de algum fato ao qual este sonho possa
estar se referindo? O que lhe chamou a ateno neste sonho? Etc.
A anlise e interpretao de um sonho requerem muito
cuidado e flexibilidade, pois sua mensagem diz respeito ao
sonhador. Interpretar-lhes  perscrutar segredos, o que requer
envolver-se com a vida do sonhador, conhecendo-lhe seus
pensamentos e atitudes mais particulares, bem como penetrar em
conhecimentos pertencentes s culturas da prpria humanidade.
Isso requer certa perspiccia e discernimento pelo analista, que
deve acautelar-se contra as interpretaes apressadas a fim de
satisfazer seu prprio ego, que, s vezes, deseja surpreender seu
paciente com revelaes novas.
 bastante conhecida a anlise que Jung faz de um sonho
seu, no qual ele se v na sala do primeiro andar de uma casa que
44


era a sua, com moblia estilo sculo XVIII. O sonho prossegue
com a descida aos andares inferiores, passando pelo subsolo,
pores e, por fim, chegando a uma gruta, onde encontra duas
caveiras. Jung apresentou uma forma peculiar de entender os
smbolos nele contidos. Ele vai desde a filosofia, passando pela

44
O Homem e seus Smbolos, p. 56.
124

religio, chegando at a paleontologia, na anlise de seu prprio
sonho, no se detendo nos aspectos conscientes e extrapolando
os fatos pertencentes ao seu dia-a-dia.
Embora Jung chame ateno s generalizaes que se pode
fazer a respeito de teorias em Psicologia, ele alerta quanto ao
confronto de dois indivduos, o analista e seu paciente, na hora de
se interpretar os sonhos. Esse confronto poder ser facilitado se
ambos forem do mesmo tipo psicolgico. Mas, se forem de tipos
diferentes, podero entrar em choque. O introvertido se inclinar
para uma anlise segundo seus sentimentos e pensamentos
ntimos, o extrovertido para suas atitudes e sensaes externas. O
analista dever estar atento ao seu tipo psicolgico e  sua funo
psquica predominante, alm de se precaver quanto s projees
que venha a fazer.
Na interpretao dos sonhos  interessante conhecer o tipo
e a funo predominante do sonhador. O tipo introvertido, por
exemplo, poder apresentar um padro de atitude na anlise
exatamente oposto  sua atitude consciente. A depender das
imagens onricas apresentadas, as interpretaes sero
estabelecidas de acordo com a funo superior, pois os sonhos
tendero a mostrar a funo inferior. A tendncia do ego  usar a
funo superior no momento da interpretao.
A anlise de um sonho pode ser subjetiva ou objetiva. A
anlise ao nvel do objeto, portanto objetiva, refere-se aos
elementos onricos como eles se apresentam nos sonhos. A
anlise ao nvel do sujeito, portanto subjetiva, psicolgica, refere-
se  vida psquica do sonhador. Em ambas deve-se permitir, de
incio, a livre associao por parte do sonhador.
As interpretaes objetivas nos levam a acreditar que o
contedo dos sonhos  expresso como sinais que se referem ao
mundo externo, numa correspondncia linear. A traduo da
mensagem expressa nos sonhos no deve perder de vista o
125

carter simblico das imagens gravadas. Alm de sinais, h
smbolos que expressam sensaes ou experincias que
transcendem a vida cotidiana, como tambm aspectos
inconscientes do sonhador. Tais smbolos so mais prospectivos
do que superficiais. A tendncia da anlise junguiana  considerar
esses smbolos como referentes  atividade intrapsquica do
sonhador, portanto, subjetivamente.
Nas interpretaes dos sonhos deve-se atentar para os
elementos contraditrios que apresentam, sobretudo aqueles que
surgem apresentando imagens com elementos em transformao
pelo embate e oposio. So pontos focais importantes na vida
do sonhador que, na anlise, deve ser questionado sobre o que
acha daqueles pontos, o que sente e pensa a respeito, como
tambm sobre o ritmo do sonho, sobre as cores, sobre a
proporo das figuras, etc. Aqueles pontos de contradio no
devem ser tomados como algo apenas pertencente  sua esfera
consciente, mas, principalmente, ao que lhe  desconhecido da
conscincia.
As tentativas de se interpretar os sonhos nem sempre
redundam em xito, considerando-se que se est sempre diante
da necessidade de uma traduo para a linguagem do consciente.
Quem traduz, trai, (traduttore tradittore). O sonho deve ento
ser aceito como ele , como uma ocorrncia natural e no
enganosa. No se trata de uma falsa imagem a ser passada ao
consciente ou um mecanismo de defesa contra o ego e seus
equvocos. Embora sua linguagem seja metafrica, no 
enganosa ou dissimulada.
Quando, num sonho, houver um relato em que um rudo
externo interferiu na elaborao ou penetrou seu enredo, o
analista deve ficar atento s interpretaes apressadas ou mesmo
a querer, simploriamente, desprezar aquela parte. As
interferncias externas podem, por sincronicidade, ser elementos
126

importantes na formao dos sonhos. So smbolos que teimam
em fazer parte do sonho. Bem como devem ser observadas as
posturas corporais do paciente enquanto ele relata seu sonho ao
analista. Muitas vezes ele busca uma posio ou executa
inconscientemente um movimento que pode fornecer uma pista 
compreenso de seu sonho.45
O analista, antes de tentar fazer associaes nos sonhos de
seus pacientes, deve, ao ouvi-los, preocupar-se em descobrir qual
a pergunta que deve ser feita e em que momento faz-la.
Acreditar que j se sabe o que um sonho est dizendo, geralmente
significa perder a oportunidade de descobrir seu significado. Ouvir
mais do que falar  fundamental para uma melhor "escuta" do
sonho. A pretenso do saber impede o verdadeiro saber. Na
realidade o pior cego no  aquele que no quer ver, mas, o que
pensa que est vendo e acredita que sua viso  a verdadeira e
que contm todos os instrumentos necessrios para enxergar. A
cegueira  o preconceito ou a certeza de que se sabe.
Interpretar um sonho  como deslindar um enigma, cujo
significado transcende, s vezes, a prpria vida do sonhador,
atravessando fronteiras inimaginveis ao senso comum bem como
s nossas concepes de verdade, de tempo e de espao.
Oriento meus pacientes a analisar os vrios personagens de
seus sonhos no s como aspectos de sua prpria personalidade,
mas tambm como entidades introjetadas, com as quais mantm
permanente dilogo inconsciente.
Uma interpretao, por mais correta que seja, no  capaz
de esgotar as possibilidades de entendimento de um sonho. Ela
deve situar-se nos limites do quanto possa interessar ou baste 
conscincia. Pode-se lev-la aos primrdios da vida do sonhador;


45
Whitmont e Perera, Sonhos, um porta l para a fonte, p. 55.
127

 indicado explorar apenas os elementos to somente
indispensveis  compreenso do sonho 46 .
Para se interpretar os prprios sonhos, em conjunto com
algum, deve-se seguir alguns passos fundamentais para se
alcanar relativo sucesso. A seqncia  a seguinte: a) lembrar do
sonho; b) registrar o sonho; c) amplificar o sonho com as
associaes possveis; d) perceber sua estrutura; e, finalmente, e)
verificar sua finalidade e propsito para o ego desperto. Pode-se,
para alcanar isso, explorar o seguinte:

1. Verificar sentimentos, questionando-se
 o que sentiu durante o sono?
 o que sentiu ao acordar?

2. Fazer associaes lgicas
 globais: Qual o significado que voc deu a esse
sonho na sua totalidade?
 parciais: O que lhe sugere tal situao (especfica,
do sonho)? O que lhe sugere tal imagem do sonho
(coisa ou pessoa)?
 o que tal pessoa  para voc?
 qual a correlao que voc faz entre essa situao
especfica (ou todo o sonho) e outro sonho
anterior?
 voc v algum sentido nesse sonho, ou em parte
dele, em relao a determinada situao-conflito
do estado de viglia?
 esse sonho faz lembrar de algum episdio
passado?


46
C. G. Jung, Obras Completas, Vol. VIII, par. 454.
128

   esse sonho faz lembrar de alguma situao
consciente que voc enfrentar adiante?

3. Verificao de modificaes e transformaes
 aps esse sonho o que mudou em voc, isto ,
como voc se sente?
 que voc pensa, ou sente, agora, aps esse sonho,
em relao a determinada situao-conflito do
estado de viglia?

4. Verificao de identificaes
 verificar se  enfocada a sombra
 se h foco em alguma persona
 se se refere  dinmica transferncia/contra-
transferncia.
 qual ou quais os complexos presentes.

Toda interpretao de um sonho significa sua degradao.
A conscincia tentar apreender seu significado a partir de seus
prprios referenciais (da conscincia).  como traduzir
literalmente um texto escrito em outro idioma. Sonhar, lembrar,
anotar, interpretar, so instncias diferentes que significam
alcanar um nvel ltimo e de interferncia mnima na mensagem
enviada.
Sempre achei que o ego vgil no  o melhor intrprete dos
sonhos do sonhador. Quem sonha no  esse ego, pois algo (o
sonho)  produzido para ele, mesmo que ele tenha tido a inteno
de sonhar. Se sua leitura devesse ser feita de maneira direta, ele
no viria na forma de imagens simblicas. O analista pode solicitar
a algum que nada entenda de sonhos para ajud-lo a interpretar
seus prprios sonhos quando no o faa com um colega seu, e,
mesmo que a interpretao seja esdrxula, ela pode levar o
129

analista a ter um insight naquele momento e assim entender
melhor seu prprio sonho. Os sonhos costumam tocar o ponto
cego da conscincia, tornando difcil a interpretao deles
somente pelo prprio sonhador.47
O ego quando quer interpretar um sonho, geralmente
procura relacionar seu contedo ou as emoes por ele
despertadas, aos aspectos disponveis na conscincia. Pode-se
ver esse exemplo nas interpretaes dadas por Sigmund Freud
em seu livro A Interpretao dos Sonhos. A interpretao de
seus prprios sonhos se baseou em aspectos exclusivamente
conscientes, do domnio do ego. Isso no quer dizer que a
interpretao tem equvocos, mas que atende a uma disposio
do ego desperto.
 sempre conveniente fazer interpretaes dos prprios
sonhos com a ajuda de algum que servir como uma espcie de
alterego a estabelecer associaes sem a censura e os limites do
ego do sonhador. Os objetivos da mensagem do sonho podem
no ser integralmente atingidos se o sonhador no buscar o auxlio
adequado para sua interpretao.
Quando um sonho de um paciente me parece confuso,
penso que tambm o pode estar sendo para ele, ento lhe peo
que repita a leitura do sonho. A repetio ajudar-me- a melhor
entend-lo e o conduzir a uma escuta de si mesmo, o que poder
estabelecer conexes antes no havidas.
Se o exerccio de interpretao dos prprios sonhos
tornar-se uma tarefa que redunde em perturbao interior, deve-
se interromp-la e procurar uma ajuda profissional. Essa
perturbao pode se dar pela conexo com complexos que
podem, aps as interpretaes, se constelar na conscincia sem a
devida percepo pelo sujeito.

47
Marie-Louise von Franz, O Caminho dos Sonhos, p. 27.
130

A experincia do analista, na anlise e interpretao dos
sonhos de seus pacientes, poder lev-lo a identificar, atravs
deles, quando um tratamento pode ser modificado, quando as
sesses podero ser mais espaadas ou quando ele deve alterar o
curso da terapia.
O analista deve se precaver contra as interpretaes
redutivas e reducionistas, quer no que diz respeito a "levar"
excessivamente para a "traduo" das figuras onricas como
personagens do mundo desperto do sonhador, como referentes 
sua infncia, quer a acreditar que tratam das complexas relaes
da transferncia e contratransferncia ou, ainda, que esto
trazendo ncleos arquetpicos, por isso mesmo suscetveis s
fantsticas amplificaes. Jung coloca48 que  insuficiente a
reduo dos componentes do sonho s conexes que o sonhador
possa fazer com os fatos que se lembre da vida desperta. Importa
saber, mais do que os significados particulares dos smbolos
onricos, por que aquelas imagens foram as escolhidas e com que
finalidade elas esto agora associadas psiquicamente.
Jung no desprezou a anlise redutiva, porm no se deteve
nela como nica forma de se buscar as causas dos conflitos. A
anlise prospectiva, que aponta para onde est indo o
desenvolvimento psquico do sonhador, tambm foi por ele
explorada. Nos sonhos onde a infncia do sonhador, bem como
locais que pertenceram ao seu passado, surgiam como imagens
onricas, necessariamente no seriam objeto apenas de uma
anlise redutiva, mas, tambm, prospectiva sobre seus significados
para o processo de desenvolvimento do sonhador.




48
Obras Completas, Vol. VIII, par. 453.
131




Amplificaes dos sonhos


Jung colocava que a amplificao enriquece o sonho,
tornando-o compreensvel. Em Psicologia e Alquimia ele
afirmou: "O sonho  uma insinuao demasiado vaga para o
entendimento, devendo portanto ser enriquecido com o
material associativo e analgico e reforado at tornar-se
inteligvel."49 Trata-se da necessidade de estabelecer-se
conexes e ligaes com aspectos que no estejam, no momento,
conscientizados, mas que, com o auxlio de algum, podem
alcanar sentido.
Amplificar  desenvolver as particularidades de um assunto.
A amplificao de um sonho  a tentativa de interpretao de suas
particularidades com o sonhador. Tende a buscar nas imagens
onricas os contedos arquetpicos em apoio  sua melhor
compreenso. Essa tcnica  uma faca de dois gumes, pois pode
levar a uma generalizao que atende ao intelecto do analista, mas
que geralmente se afasta do ncleo emocional do complexo do
sonhador. Torna-se positiva quando o sonhador sente que seu
sonho lhe trouxe algo de solidrio ou quando percebe que seu
tema  conhecido. Ele se sente da mesma forma que um doente

49
Obras Completas, Vol. XII, par. 403.
132

quando o mdico diagnostica sua doena benigna. As
interpretaes arquetpicas devem ser feitas com bastante cautela
tendo em vista a produo pouco comum de sonhos com temas
mitolgicos clssicos.
Para Jung, essa  uma das tcnicas fundamentais na anlise
dos sonhos. Amplificar  falar a respeito e explorar o sonho. Essa
tcnica no deve levar o sonhador a estabelecer uma crtica ao
sonho, considerando-o tolo, inconseqente ou questionvel. Todo
sonho traz em si uma mensagem importante que escapa 
conscincia do sonhador.
Deve-se procurar substituir os smbolos apresentados por
palavras genricas como: algo, algum, alguma coisa, etc. O
sonho consegue com facilidade condensar, ou pelo menos,
estabelecer uma analogia entre dois objetos externamente
semelhantes. Um dos trabalhos do analista  separar esses
objetos, identificando-os e depois buscar o contexto em que eles
foram condensados.
O sonho com algum que possua um cargo de direo deve
levar a questionar-se o que representa a autoridade para o
sonhador; montanhas e muros devem levar a questionar-se sobre
e
obstculos; figuras do mesmo sexo devem l var a questionar-se
sobre as relaes do sonhador consigo mesmo; figuras do sexo
oposto devem levar a questionar-se sobre as relaes do
sonhador com o outro sexo; os sonhos em que o sonhador tenha
que fazer uma escolha sugerem a reflexo sobre decises e
posies a respeito de algo.
Observe as contradies apresentadas nos sonhos. Elas
estaro sinalizando para aspectos relevantes na vida do sonhador,
via de regra, referindo-se  necessidade de mudanas.
Deve-se evitar buscar uma interpretao imediata para um
sonho. H uma tendncia em se interpretar os sonhos buscando
restringi-los aos episdios mais recentes da vida do sonhador. Os
133

sonhos podem apresentar aspectos que vo se desenrolar muito
depois do momento da lembrana ou aspectos de algo j
ocorrido.
 pela percepo da dimenso universal dos smbolos,
presentes nas mais diversas culturas, que se consegue amplificar
adequadamente um sonho.
As amplificaes dos sonhos so assinaladas por Hall50
como semelhantes ao processo de "descascar" as camadas de
um complexo e so factveis em trs nveis: as associaes
pessoais, as culturais e, por ltimo, as arquetpicas. Embora
reconhea a significao e a importncia das interpretaes
arquetpicas, ele no as considera indispensveis num contexto
clnico, provavelmente pelo seu carter impessoal e distanciador.
Segundo Hall, no trabalho psicoteraputico:
"Na amplificao de motivos onricos, as associaes
pessoais devem usualmente ser mais importantes do que as
aplicaes culturais ou arquetpicas, embora alguns sonhos s
possam ser entendidos  luz de material transpessoal. O
sonho ampliado deve ser firmemente colocado no contexto da
vida do indivduo que o teve."
No s os temas mitolgicos se prestam s amplificaes,
mas os filmes, talvez porque eles os retratem subliminarmente. Os
filmes que porventura o terapeuta conhea, podem servir com o
mesmo propsito dos mitos. Algumas vezes sugiro aos meus
pacientes que assistam esse ou aquele filme a fim de entenderem
melhor a si mesmos, e que leiam antigos contos de fadas ou
simplesmente livros que possam trazer alguma lucidez sobre
determinado tema. Os temas mitolgicos, por pertencerem ao
inconsciente coletivo, esto tambm presentes nas produes
culturais contemporneas.

50
Jung e a Interpretao dos Sonhos, p. 44.
134




Uma anlise psicanaltica


Sem sombra de dvida o livro de Sigmund Freud A
Interpretao dos Sonhos (Die Traumdeutung), escrito em
1899 e editado em 1900, pode ser tido como um marco no
estudo dos sonhos, tendo em vista a profundidade e coerncia
com que ele trata do tema. Em princpio, ele faz uma retrospectiva
histrica sobre o assunto, citando quase uma centena de autores e
discorrendo a respeito das opinies de cada um, aps o que
desenha toda uma teoria sobre os sonhos calcada em cima de
seus estudos sobre o psiquismo humano.
Ele considerava os estmulos somticos como fontes que
atuavam adicionalmente aos estmulos psquicos, mas no como
fontes exclusivas para a produo dos sonhos.
Sua definio clssica sobre sonhos est na frase por ele
escrita em 1900:
"A interpretao dos sonhos  a via real que leva ao
conhecimento das atividades inconscientes da mente."
Mais tarde, em 1932, ele conclui dizendo:
"O sonho que se origina dessa maneira j  uma estrutura
fundada na conciliao. Tem dupla funo: por um lado, 
egossintnico, pois, eliminando os estmulos que esto
interferindo com o sono, serve ao desejo de dormir; por outro
135

lado, permite que um impulso instintual reprimido obtenha a
satisfao que nessas circunstncias  possvel, na forma da
realizao alucinada de um desejo."51
Posteriormente ele vai afirmar que "um sonho  a
realizao (disfarada) de um desejo (reprimido)". Para ele a
maioria desses desejos tem origem sexual.
Os desejos so recalcados para o inconsciente por serem
incompatveis  conscincia, proibidos pela moral e cultura
vigente, dada sua natureza preponderantemente sexual.
Foi somente em 1933 que ele completou sua definio
sobre o que  o sonho, afirmando que se trata de "tentativas" de
realizao de desejos. Tal desejo, que ele chamava de "desejo
onrico" era proveniente do inconsciente. Para ele, esses desejos
tinham quatro origens possveis:

a) desejos prprios do inconsciente, que no alcanam a
conscincia;
b) desejos no satisfeitos, gerados durante o dia, que
ficaram por satisfazer;
c) desejos no satisfeitos, gerados durante o dia, mas
reprimidos ou recalcados ao inconsciente;
d) desejos que surgem durante a noite, estimulados por
necessidades corporais.

Mas ele acrescenta o seguinte:
"As necessidades corporais que ocorrem durante a noite
podem dar azo a desejos suscetveis de serem apresentados
como satisfeitos no sonho, ou inseridos de algum modo no seu
contedo manifesto. Tais desejos no so suficientes, por si
mesmos, para formar um sonho."

51
Sigmund Freud, Novas Conferncias Introdutrias Sobre Psicanlise, Vol. 22.
136

Ele, porm, adianta que nenhum deles pode ser formado
sem o primeiro, ao afirmar:
"Minha suposio  que um desejo consciente s pode tornar-
se um induzidor de sonho se obtiver sucesso em despertar um
desejo inconsciente do mesmo teor e conseguir reforo dele."
Ele afirmava que existiam trs grupos de teorias a respeito
dos sonhos. A primeira considerava os sonhos como mera
repetio das atividades psquicas estruturadas durante o estado
de viglia. O segundo grupo de teorias considerava que o sono era
um acordar parcial, isto , o abaixamento das atividades
psquicas, que redundariam em presses orgnicas expressas no
sonho. O terceiro grupo considerava que os sonhos envolveriam
experincias que no se revelam na viglia ou que se mostram
parcialmente nela.
Diferente dos autores anteriores, ele considerou uma
varivel presente nos sonhos, antes no percebida: a afetividade.
Um tema afetivo est sempre presente nos sonhos.
Respaldando seu mtodo em alguns dos autores por ele
citados, introduz na cincia dos sonhos um aperfeioamento do
mtodo de Griesinges (1861) e do de Radestock (1879). Freud
dizia que compartilhava das mesmas idias deles. Para o primeiro
"...as idias nos sonhos e nas psicoses apresentam em comum
a caracterstica de serem realizaes de desejos." Para o
segundo, que fazia analogia entre os sonhos e a loucura, seguindo
uma tendncia comum na medicina de sua poca, os sonhos so
compensatrios.
Freud, seguindo a linha de Breuer, que considerava o sonho
sintoma da atividade psquica, especialmente ligada  patologia
mental, chega ao seu mtodo de interpretao considerando os
desejos reprimidos como fundamentais para sua anlise.
Ele dizia que havia dois mtodos de interpretao: a
simblica (sinttica), que substitui o contedo do sonho por algo
137

inteligvel e a interpretao por decifrao (analtica), onde cada
sinal  traduzido por outro conhecido. Seu mtodo se aproxima
da decifrao, embora considerasse que os mesmos sonhos
podem ter significados diferentes a depender do sonhador.
Para Freud a forma dos sonhos recebe influncia de duas
foras psquicas: a primeira constri o desejo que  expresso pelo
sonho; a segunda exerce uma censura sobre esse desejo onrico.
 o emprego dessa censura que acarreta uma distoro na
expresso do desejo. Esta segunda instncia  defensiva e no
criativa.  tambm por esse motivo que os sonhos tm um
significado secreto, face aos mecanismos de defesa da segunda
instncia.
Sobre a natureza da censura ele dizia: - "os propsitos
que exercem a censura so aqueles reconhecidos pelo
julgamento vgil da pessoa que sonhou, aqueles com os quais
ela est de acordo..."
Para ele os sonhos tm um contedo manifesto e um
latente. O contedo manifesto  resultado da deformao em
funo de uma represso defensiva e  visto na forma do prprio
sonho, como ele  relatado. O contedo latente  o que est
oculto e que necessita de interpretao.
Ele dizia sobre seu sonho:
"O sonho representava um estado de coisas especfico, como
eu devo ter desejado que fosse. Assim, seu contedo foi a
realizao de um desejo."
"Quando o trabalho de interpretao fica concludo
percebemos que um sonho  a realizao de um desejo."
Sobre os resduos do dia ele dizia:
"Estes resduos diurnos so descobertos por remontarem o
sonho manifesto aos pensamentos onricos latentes;
constituem pores do ltimo e acham-se assim entre as
atividades do estado de viglia - conscientes ou
138

[discriminadamente] inconscientes - que conseguiram
persistir no perodo de sono... Esses resduos do dia, contudo,
no so o prprio sonho: falta-lhes o elemento essencial de
um sonho. De si prprios, no so capazes de construir um
sonho. Estritamente falando, so apenas o material psquico
para a elaborao onrica, exatamente como os estmulos
sensrios e somticos, quer acidentais, quer produzidos sob
condies experimentais, constituem o material somtico para
a elaborao do sonho... O estado atual do nosso
conhecimento leva-nos a concluir que o fator essencial na
construo de sonhos  um desejo inconsciente [no sentido
dinmico] - por via de regra, um desejo infantil, agora
reprimido - que pode vir a expressar-se nesse material
somtico ou psquico... O sonho , em todos os casos, a
realizao desse desejo inconsciente, seja o que for que possa
conter mais... Um psicanalista pode caracterizar como sonhos
apenas os produtos de elaborao onrica; apesar do fato de
s se chegar aos pensamentos onricos latentes a partir da
interpretao do sonho, ele no pode consider-los como
parte deste, mas apenas como parte da reflexo pr-
consciente."52
Para Freud, o contedo latente dos sonhos consiste em:

1. Desejos dinamicamente inconscientes (impulsos do id)
impedidos pela censura (as defesas do ego) de atingirem
a conscincia;
2. Pensamentos onricos latentes, que incluem os resduos
do dia bem como os pensamentos ligados s
experincias infantis;


52
S. Freud, Obras Completas, Um sonho probatrio , Vol. 12, 1913.
139

3. Excitaes sensoriais, que incluem a fome, a sede, o
sexo, etc.

Sobre as emoes no sonho ele dizia: "A inibio do
sentimento ou emoo deve ser considerada, portanto, a
segunda conseqncia da censura dos sonhos, tal como a
deformao onrica  a primeira conseqncia."
Para Freud, os sonhos tm algumas propriedades: so
facilmente esquecidos to logo ocorra o retorno  viglia, graas
ao mecanismo de recalque; as imagens visuais predominam sobre
os aspectos conceituais; seu carter metafrico exige
interpretao; e, mobiliza experincias inacessveis  conscincia
no estado de viglia.
Segundo ele, a represso psquica atua principalmente
sobre os impulsos sexuais, devido  intensa discriminao cultural
de que so alvo; isso resulta na aceitao do desejo que, s vezes,
s  realizvel atravs do sonhos
Para ele o pesadelo se justifica como sendo os desejos no
aceitos pelo ego, isto , a expresso de um conflito entre o desejo
e a censura.
A construo de um sonho envolve a mobilizao de alguns
mecanismos:

a) Condensao. Por um impulso irresistvel de combinar
dados, o contedo latente se expressa no contedo
manifesto dos sonhos;
b) Dramatizao. H uma representao do que
realmente est acontecendo. No sonho os contedos
conceituais so substitudos por imagens plsticas;
c) Simbolismo. Algumas imagens so substitudas por
outras que a censura permite. Imagens universais tomam
o lugar de imagens particulares;
140

d) Deslocamento. A carga afetiva se desloca e se destaca
de seu objeto original para fixar-se num objeto
substituto; esse deslocamento vai estabelecer diferena
entre o contedo latente e o manifesto;
e) Elaborao secundria. Processo pelo qual,  medida
que se aproxima a viglia, introduz-se nas produes
onricas uma lgica artificial, a fim de preparar o
sonhador s condies da realidade.

A grande chave que auxiliava Freud na interpretao dos
sonhos era consider-los sempre como a realizao de um
desejo. Ele escreveu  pgina 96 de seu livro: "...as idias nos
sonhos e nas psicoses apresentam em comum a caracterstica
de serem realizaes de desejos. Minhas prprias pesquisas
ensinaram-me que neste fato est a chave de uma teoria
psicolgica, tanto dos sonhos como das psicoses."
A interpretao isolada dos smbolos foi utilizada por Freud
em seu mtodo.
Para ele, os sonhos podem ser divididos, de acordo com a
causalidade e a significao inconsciente em:

   sonhos decifrveis sem anlise;
   sonhos que s a anlise permite compreender;
   sonhos que a anlise s pode interpretar se
relacionar com processos inconscientes.

Os sonhos segundo Lacan

Segundo os estudiosos da obra de Jacques Lacan, ele
atribua mais importncia  forma como o sonho  relatado do que
ao sonho em si, tendo em vista sua preocupao com a linguagem
e suas "derrapadas". O analista fica observando o relato do
141

sonho e quando o paciente duvida e diz: "no sei... no me
lembro mais... talvez... provavelmente".  a onde ele vai buscar o
que falta, o que foi "deslocado" ou "condensado". Para Lacan
importa o material verbal do paciente no relato de seus sonhos
mais do que o contedo deles. A anlise lingstica  o mtodo
apropriado para o estudo do inconsciente, que se estrutura como
uma linguagem. Cabe ao analista perceber no discurso de seu
paciente o significado correspondente  falta ou ao lapso havido.

Os sonhos para Otto Rank

Segundo Grof em seu fenomenal livro Alm do Crebro,
Otto Rank, dizia que "O sonho  uma condio que lembra a
vida intra-uterina e pode ser tomado como uma tentativa de
recordar o trauma do nascimento e retornar ao estgio pr-
natal. Muito mais do que o prprio ato de dormir, ele
representa um retorno psicolgico ao tero. A anlise dos
sonhos confere o mais forte apoio  significao psicolgica
do trauma do nascimento."

Comentrios

Realmente  possvel entender todos os sonhos como
realizaes de desejos, desde que se entenda o significado da
palavra desejo. Desejo como algo inerente ao Self em processo
de desenvolvimento psquico, inconsciente ao ego e, s vezes,
contrrio a ele ou a qualquer idia sua.
Embora Freud criticasse pessoas que se apoiavam em sua
f religiosa para afirmar a existncia e atividade de foras
espirituais sobre-humanas nos fenmenos dos sonhos, ele, de
forma anloga, embora inversa, em nota de rodap introduzida na
edio de 1914, se apoia no texto bblico de Isaas, Captulo 29,
142

versculo 8, (`Ser tambm como o faminto que sonha que
est a comer, mas, acordando, sente-se vazio; ou como o
sequioso que sonha, que est a beber, mas, acordando, sente-
se desfalecido e sedento; assim ser toda a nao que pelejar
contra o monte Sio.') para confrontar, confirmando, sua
opinio a respeito do sonho como realizao de um desejo.
Na anlise de um sonho seu, ele o relaciona com
ocorrncias cotidianas, com eventos que aconteceram e com
outros que estavam previstos acontecerem. Seu dia-a-dia
profissional era constantemente utilizado como referencial para
sua anlise que se baseava exclusivamente naquilo que lhe era do
domnio da conscincia.53 No se pode desprezar, na anlise dos
sonhos, todos os paradigmas do sonhador. Suas crenas, suas
relaes, seu desenvolvimento intelectual, suas preocupaes
gerais, seu dia-a-dia, etc.
Freud considerava que na origem do sonho h algo cuja
conotao  sexual. O que vale dizer que a sexualidade est
presente nas razes do inconsciente, pois, como sabemos, ele
considerava que os sonhos eram a via real para alcan-lo. Talvez
essa afirmao freudiana tenha ocorrido em funo de sua poca,
quando a expresso sexual era extremamente restringida. Vivia-
se, em fins do Sculo XIX, quando Freud escreveu seu primeiro
trabalho sobre sonhos, sob uma represso e ignorncia sexuais
muito grandes. Hoje, passados quase cem anos, aps os
movimentos da dcada de 60 e 70, de liberao sexual e de
modificao de costumes em relao  conduta sexual das
sociedades, certamente se tm outras explicaes mais plausveis.


53
Jung considerava que "a concepo freudiana dos sonhos est quase
exclusivamente no plano do objeto, uma vez que os desejos nos sonhos se referem
a objetos reais ou a processos sexuais que incidem na esfera fisiolgica, portanto
extrapsicolgica." Obras Completas, Vol. VI, par. 878.
143

Considerar certos sonhos como realizao de desejos pode
nos levar a justificar uma coisa pelo seu oposto, o que nem
sempre se pode aceitar coerente.
Sem querer diminuir o trabalho de Freud (creio que no o
conseguiria se o quisesse) nem tampouco colocar-me em
condies de criticar sua obra, acredito que ele hoje reveria muito
do que escreveu sobre sonhos bem como algumas interpretaes,
um pouco foradas, pelo seu desejo de adaptar o significado
deles s suas teorias, na poca despontando.
A censura na vida de viglia  perfeitamente compreensvel
face  necessidade da convivncia social. A censura nos sonhos
torna-se algo pouco compreensvel tendo em vista a
inexplicabilidade da existncia de um mecanismo psicodinmico
censor, oculto ou inconsciente, como tambm pela grande
quantidade de sonhos que temos exatamente sem qualquer
censura.
A negao da existncia de sonhos premonitrios , sem
dvida, querer "tapar o sol com a peneira". No s eles ocorrem,
como se confirmam, sem que se lhes possa caracterizar como a
realizao de desejos. A no ser que se prove, por exemplo, que
o sonho com um acidente de avio possa ser causado pelo
sonhador, a partir de um "desejo oculto reprimido e censurado".
A viso freudiana sobre os sonhos parece que teve de
submeter-se a uma concepo terica geral. Tudo leva a crer que
Freud no descobriu uma teoria sobre os sonhos, mas limitou-os 
teoria da libido reprimida. No foi a partir de observaes
numerosas e de constataes experimentais que chegou  sua
teoria, mas  e isto pode ser deduzido pelas alteraes que seus
seguidores tiveram que realizar  como produto de suas
concepes sobre sexo. Caso ele, por ter observado em seus
pacientes alguma correlao entre seus desejos e as imagens
144

onricas, demonstrasse um nexo de causa, poderamos afirmar o
contrrio do que dissemos antes.
Isto no invalida a afirmao de Freud, pois tudo leva a
crer nessa possibilidade; h uma gama de sonhos que se referem a
desejos no realizados, por um mecanismo psicodinmico de
compensao. Alm do que se pode dizer que os sonhos tambm
se situam na ordem dos fenmenos fisiolgicos.
A tentativa de alguns psicanalistas em encontrar nos sonhos
elementos oriundos exclusivamente da infncia, em suas
represses, produz uma limitao considervel, tendo em vista os
componentes riqussimos das outras etapas da vida do indivduo,
principalmente nos momentos de transformao da adolescncia e
da vida adulta para a velhice, sem falar nas experincias
arquetpicas inerentes.
145




Utilidade dos sonhos


Os sonhos trazem  conscincia aspectos profundos e
fundamentais da vida psquica do sonhador. Circunstncias que
dificilmente seriam retratadas de outra forma que no atravs de
imagens simblicas. So situaes e atitudes inerentes ao prprio
sonhador que ele no teria coragem de abordar de outra maneira.
Sua relevncia est, principalmente, nesta particularidade.
O trabalho de interpretao de um sonho, mesmo que no
alcanada a real expresso do smbolo nele retratado, constitui-se
num exerccio, por si s, til ao sonhador, pelas conexes que ele
faz, penetrando nos meandros do inconsciente, permitindo novas
possibilidades intuitivas e questionadoras de si mesmo.
Talvez a utilidade dos sonhos esteja em sua possibilidade
de transformao das imagens onricas em aes realizadoras, e
sobretudo naqueles em que o sonhador perceba com clareza sua
estrutura psquica inconsciente e de que forma ela atua na vida
consciente.  essa influncia, nem sempre percebida pelo sujeito,
que interfere em seus atos da vida desperta.
O trabalho com os sonhos visa uma conciliao entre o
inconsciente e o consciente a bem do desenvolvimento psquico
do sonhador. Na produo dos sonhos ocorre a conexo de
opostos autnomos presentes no inconsciente.
146

A prtica de se utilizar os contedos dos sonhos como
proposies em resposta a questes do ego vgil, pode nos levar
a crer que seria essa sua utilidade bsica, alm de,
equivocadamente, considerar-se que suas imagens se dirigem
exclusivamente a ele. As imagens onricas no apenas se referem
quelas questes, como tambm trazem outras mais amplas do
que pode conter a vida consciente. Muitas delas se referem 
totalidade da vida do sonhador e  prpria humanidade nele
contida.
Como aplicao teraputica, os sonhos podem ser
empregados para acesso s reas inconscientes, para a soluo de
problemas diversos, como inspirao artstica, para o
desenvolvimento psicolgico e para aprofundar experincias
espirituais. Pode-se coloc-los como teis para o sonhador na
busca de:

a)   Autoconhecimento
b)   Autodescoberta
c)   Desenvolvimento da criatividade
d)   Autotransformao

Montague Ullman (1965), citado por Stanley Krippner,
descreveu os aspectos criativos do sonhar a partir da
originalidade, da fuso de elementos desconexos em novos
padres, da procura de expresso atravs de smbolos
importantes e, finalmente, da prpria reao frente ao sonho. Para
ele o sonho, em primeiro lugar,  um ato de criao. Algo como
uma obra de arte.
Ullman coloca como exemplo de sonhos criativos o do
inventor da mquina de costura que sonhou com lanas furadas na
ponta, num ritual de sacrifcio, e construiu a agulha que lhe faltava
para completar o invento. Ele tambm afirma que o famoso
147

escritor escocs Robert Louis Stevenson, autor de estrias como
A Ilha do Tesouro, criou o fantstico conto "O Estranho Caso
do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" a partir de um sonho que teve.
A hiptese de que os sonhos sejam tambm prenncios, em
alguns casos, de problemas de sade, no  de todo descartada.
Essa possibilidade j foi colocada por diversos e     studiosos, em
vrias pocas da histria da humanidade, o que pode ser um
indcio de sua probabilidade ser verdadeira. Se os sonhos podem
trazer aspectos desconexos do psiquismo do indivduo, por que
no apontariam tambm comprometimentos orgnicos? Se
considerarmos os problemas orgnicos como reflexos de
problemas emocionais, psicolgicos portanto, no seriam os
sonhos, por conseqncia, reveladores daqueles?
Os sonhos tm a utilidade de permitir uma descoberta do
mito pessoal do sonhador, alm de contribuir para sua reviso e
seu desenvolvimento. A descoberta do mito predominante pode
se dar pelo exerccio da interpretao dos sonhos como tambm
pelas lembranas de fatos marcantes na vida do sonhador. As
imagens onricas surgem apresentando formas mitolgicas ou no;
assemelham-se a figuras arquetpicas significativas, que remetem o
sonhador  percepo de si mesmo.
Esse mito pessoal exerce influncia significativa na vida do
sonhador de forma to determinante que se parece com uma
persona inconsciente.
Os mitos pessoais aparecem como temas comuns dos
nossos sonhos, pela preponderncia constante de sua influncia
subliminar na vida desperta. Eles sugerem sonhos ntidos e
consistentes. So sonhos que se mostram de tal forma reais que
temos a impresso de que se tratam de criao consciente.
Alm das aplicaes teraputicas os sonhos podem
proporcionar, para leigos, um encontro dirigido, visando sua
148

discusso sem objetivos clnicos. Deborah J. Hillman54 explica os
objetivos desses grupos espontneos, que esto em fase de
expanso nos Estados Unidos, como sendo, principalmente, o
compartilhamento de seus sonhos visando uma aplicao prtica
para o estado de viglia. Nesse trabalho dela, h grupos que
buscam a anlise coletiva do sonho, como se ele fosse do grupo.
Os sonhos se prestam a reconstruir fatos passados que se
estruturaram no inconsciente sob a forma de complexos
autnomos; servem tambm para dar novo significado a eventos
recentes que se encontram desconectados no inconsciente e
influenciando a conscincia; e, por fim, apresentar possveis
cenrios para o desenvolvimento de prognsticos.
Ao analisar a funo compensatria dos sonhos, Jung alerta
para no se desprezar os avisos provenientes deles, pois, se
."rejeitados, podem ocorrer acidentes reais. A pessoa pode
cair da escada ou sofrer um desastre de carro."55 Como se v,
para ele, os sonhos representavam algo de premonitrio e de
preventivo quanto ao destino do sonhador. Ele considerava que
no se trata de uma forma de previso, mas que, s vezes, pode
haver um desejo secreto do sonhador para que tal acontea.56
Indiscutivelmente o sonho pode ser um instrumento til no
desenvolvimento das relaes interpessoais, a partir do momento
em que o sonhador estabelea comparaes entre os smbolos
onricos e as situaes e emoes por ele geradas, e sua vida
consciente, principalmente no que diz respeito s suas relaes
afetivas, do ponto de vista do ego e do Self.




54
Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 24.
55
O Homem e seus Smbolos, p. 49.
56
Idem, p. 50.
149




Sonhos em terapia                              57




 na Psicologia Analtica que os sonhos encontram sua
maior aplicao, no campo da psicoterapia, dentre as abordagens
atuais. A grande maioria dos analistas junguianos utiliza os sonhos
como material imprescindvel ao processo de cura em seus
mtodos. As psicoterapias mais voltadas para o ego e suas
relaes com o mundo, e que do pouco ou nenhum valor aos
aspectos inconscientes da personalidade, tm negligenciado a
importncia dos sonhos como m      ecanismo de auto-regulao e
autofocalizao da psiqu.
Sem dvida nenhuma os trabalhos com sonhos
desenvolvidos em terapias de grupo so mais enriquecedores para
a compreenso do sonhador do que os obtidos nas terapias
individuais. O grupo teraputico tem maiores possibilidades de
obter insights do que o prprio sonhador sozinho ou com seu
analista. O grupo, por estar envolvido, de certa forma, na vida do
sonhador, e conhecendo-lhe a natureza, pode opinar sem o vis
cientfico do analista, contribuindo assim para uma melhor
compreenso e amplificao do sonho.


57
Adaptado de um trabalho apresentado em 1996, no curso de graduao em
Psicologia pela Universidade Federal da Bahia.
150

 comum a algumas pessoas atriburem um papel mediador
aos sonhos dando-lhes importncia de juiz entre uma e outra
deciso. s vezes, antes de dormir, se fazem algum
questionamento solicitando ao Self que sonhem com algo que lhes
d a resposta devida. Mesmo dessa forma, est a uma funo
teraputica dada ao sonho pela possibilidade de que ele integre
aspectos conflitantes do inconsciente do sonhador. Esse papel
atribudo ao sonho no lhe acrescenta qualquer poder superior,
mas permite que sua fonte geradora passe a utilizar-se dele com
mais freqncia.
Numa psicoterapia deve-se dar muita importncia aos
sonhos que antecedem e sucedem a primeira sesso. Muitas vezes
dizem respeito  relao transferencial e contratransferencial, bem
como podem trazer uma panormica total ou parcial do processo
teraputico do sonhador. Eles serviro de guia ao analista. Os
elementos apresentados no sonho devero ser criteriosamente
revistos pelo analista junto a seu paciente, por vezes em futuras
sesses.
Costumo questionar aos meus pacientes sobre a atitude do
ego onrico quando ela  inusitada para o ego vgil. Pergunto-lhes
por que tal atitude  inusitada e por que ele no a aceita. Esse
questionamento tem a faculdade de provocar um movimento na
direo oposta quela comumente aceita pelo ego, o que pode
proporcionar mecanismos de aceitao e compreenso de si
mesmo.
Os sonhos podem ocorrer por condescendncia, isto ,
para atender um desejo (in)consciente de agradar ao analista, e, s
vezes, dificultar o processo teraputico.
Pode tambm no ocorrer, por sonegao ou resistncia,
quando h uma tentativa (in)consciente de boicotar a terapia.
No trabalho teraputico deve-se lembrar que a anlise  do
paciente e no apenas de seus sonhos. Isto , as sesses
151

teraputicas no devem se transformar em momentos prazerosos
de interpretao de sonhos. A interpretao dos s    onhos  um
recurso e no a finalidade da terapia.
Os sonhos tambm podem ser utilizados para se
estabelecer um dilogo entre o analista e o inconsciente de seu
paciente. Nos casos em que se pretende tomar uma deciso
quanto ao trmino da terapia, pode-se consultar os sonhos. Hall
cita58 essa possibilidade como uma forma de se obter uma
resposta do inconsciente sobre se devemos ou no faz-lo
naquele momento.
Os sonhos considerados difceis pelo sonhador devem ser
m
examinados criteriosamente pelo analista dada sua i portncia
ser, s vezes, maior do que os sonhos muito claros. Aqueles
considerados muito claros trazem, geralmente, aspectos
superficiais da vida psquica do sonhador. Os considerados
difceis ou complexos, provavelmente esto penetrando em
regies mais obscuras de sua vida inconsciente.
A interpretao dos sonhos requer cuidados tendo em vista
ua
sua expresso peculiar a cada indivduo. Na s compreenso
no se pode tom-los de forma coletiva como se seu significado
fosse o mesmo para todas as pessoas. Os significados simblicos
dos sonhos, embora possam expressar aspectos coletivos,
dependero da vivncia e da cultura (habitat) do sonhador.
Digamos que duas pessoas sonhem com um animal, como por
exemplo, um cavalo numa relva, e ambas estejam em terapia com
um mesmo analista. As interpretaes que se possa dar sobre tal
sonho, iro variar de acordo com a histria de vida de cada um
dos indivduos. Dever o analista buscar os significados dos
significantes simblicos trazidos pelo inconsciente a partir das
associaes que o consciente do sonhador possa estabelecer. 

58
A Experincia Junguiana, p.115.
152

como uma tcnica cirrgica que se vai realizando, dissecando
tecido a tecido at se chegar ao mago do corpo.
Eles representam a linguagem do inconsciente e procuram
restabelecer uma ligao com a conscincia, de alguma forma
prejudicada pelos mecanismos de defesa do ego e dos processos
incognoscveis inconscientes. H um significado oculto ao ego,
expresso subliminarmente nas imagens onricas e que merece a
devida busca, num trabalho prospectivo. O papel do analista,
dentre outros, no manejo dos sonhos de seus pacientes,  auxili-
los na explorao do que est naturalmente oculto por falta de
outra forma de expresso. Os sonhos se assemelham a um
estrangeiro falando ao nativo numa lngua estranha a ele.
Longe de se pensar que um sonho pode ser imediatamente
interpretado completamente numa s sesso, muito menos na
primeira, ou apenas contando com o material trazido pelo
consciente. No se pode tambm deixar de considerar os
elementos introduzidos na primeira sesso pela transferncia, cuja
natureza nem sempre se conhece imediatamente. Mas se o
paciente resolve contar, j na primeira sesso, um sonho, pode-se
encontrar alguns elementos significativos de sua vida.
Os sonhos geralmente trazem uma mensagem subliminar
atravs das imagens arquetpicas. A procura desse elemento
oculto poder ser o Fio de Ariadne que restabelecer o eixo
Self-ego, quebrado pela exigncia da vida consciente ou por
algum complexo que comeou a constelar-se. A terapia se
iniciar com essa vertente ou buscando entender se  este o
processo simblico a que o sonhador est submetido.
A procura de um significado sinttico para o sonho, em
realidade torna-se a tentativa de identificar um aspecto
arquetpico nele. No se trata de reduzir o sonho a tal aspecto,
mas de ampliar a possibilidade de entend-lo sob determinada
vertente. O significado particular do sonho  logo entrevisto pelo
153

paciente que, via de regra, j o identificou antes de chegar 
sesso. A compreenso dos significados arquetpicos 
encontrada com a ajuda do terapeuta.
Para Jung, a autonomia do inconsciente  um fator
importante na anlise dos sonhos tendo em vista, s vezes, a
presena de elementos com forte oposio  conscincia. Ele diz:
- "Como o sentido da maior parte dos sonhos no est de
acordo com as tendncias da conscincia, mas revela
divergncias singulares, devemos admitir que o inconsciente,
a matriz dos sonhos, tem um funcionamento independente. 
o que eu designo por autonomia do inconsciente. No
somente o sonho no obedece  nossa vontade, mas muitas
vezes se ope, at mesmo muito fortemente, s intenes da
conscincia."59
A interpretao dos sonhos em terapia exige cuidados
especiais tendo em vista as possibilidades de contaminao, tanto
pelo paciente quanto pelo terapeuta. O consciente do paciente,
captador do sonho, tender a interpret-lo, talvez, com o mesmo
vis que motivou sua eliminao pelo inconsciente. Por sua vez, o
consciente do analista, tanto quanto seu inconsciente, no estaro
livres de uma anlise tendenciosa. Dessa forma, a procura do
significado do sonho dever ser levada a efeito em conjunto,
analista e paciente, principalmente, quando se tratar da procura
pelos contedos arquetpicos.
Quando os sonhos mostram aspectos compensatrios da
vida consciente, geralmente estaremos diante da situao oposta a
ela.
Sobre a confrontao dos sonhos com a conscincia, Jung
escreveu: "Nesta perspectiva existem trs possibilidades. Se a
atitude consciente a respeito de uma situao dada da vida 

59
C. G. Jung, Sobre a Natureza dos Sonhos, Obras Completas Vol. VIII, par. 545.
154

fortemente unilateral, o sonho adota um partido oposto. Se a
conscincia guarda uma posio que se aproxima mais ou
menos do centro, o sonho se contenta em exprimir variantes.
Se a atitude da conscincia  "correta" (adequada), o sonho
coincide com essa atitude e lhe sublinha assim as tendncias,
sem, contudo, perder a autonomia que lhe  prpria."60
Podemos entender que o inconsciente, elaborador da
situao onrica, poder criar uma situao oposta  atitude
consciente do sonhador, complementar ou confirmatria. Mesmo
tendo este entendimento, devemos considerar que a elaborao
onrica tem um propsito oriundo do Self, portanto tem sua
autonomia. O "jogo" com o consciente no se estabelece como
uma competio, mas como uma comunicao, um recado, uma
"correo de rumos". Seu propsito  estabelecer uma relao
no satisfeita entre o Self e o ego, onde este buscar a
compreenso dos objetivos daquele. O inconsciente buscar
utilizar-se dos smbolos disponveis para que o consciente melhor
entenda sua mensagem. Tais cones podero fazer parte do
passado ou do presente do sonhador. s vezes, o inconsciente
utiliza um smbolo que pertenceu  histria passada da civilizao
(cultura, raa, etc.)  qual o sonhador pertence, como tambm
poder busc-lo nos fatos do cotidiano. O sonho representa de
alguma forma uma realidade do sonhador; seus enigmas, suas
imagens, lhe pertencem e  atravs dele prprio que se poder
entend-las.
Confirmando a idia de que o sonho retrata aspectos da
personalidade do sonhador e buscando o que ele designava como
uma interpretao ao nvel do sujeito (interpretao subjetiva),
Jung afirmou: - "Toda a elaborao onrica  essencialmente


60
Idem, par. 546.
155

subjetiva e o sonhador funciona, ao mesmo tempo, como
cena, ator, ponto, contra-regra, autor, pblico e crtico."61
Entendemos que nos sonhos esto representaes do
prprio sonhador. Tomar uma figura onrica como um ente real,
concreto, externo ao sonhador, pode nos levar ao terreno
perigoso das interpretaes intelectuais do consciente. , por esse
motivo, que a abordagem intelectual, interpretativa de um sonho, 
insuficiente.
Nem sempre numa nica sesso  possvel trabalhar com
um sonho pelo pouco tempo de que se dispe. O analista pode
escolher trabalhar o mesmo sonho em vrias sesses,
principalmente quando haja demanda do paciente, ou escolher,
junto com ele, um extrato do sonho que possa ser utilizado no
tempo previsto. Essa ltima opo  reforada pelo fato de que
se pode dar apenas indicaes sobre o significado do sonho, pois
o prprio sonhador far o restante.




61
Idem, par. 509.
156




Sonhos antes e depois da
primeira sesso da terapia


Via de regra, os sonhos antes e depois de uma primeira
sesso de terapia esto se referindo  relao transferencial e/ou
ao processo de individuao do paciente. So sonhos que devem
ser, de tempos em tempos, relidos pelo terapeuta; falam no s
das atitudes para com a terapia, do modo como o paciente a
entende, mas tambm dizem respeito a um diagnstico e, s vezes,
a um prognstico.
Eles podem trazer aspectos da maneira como o paciente v
o terapeuta, seus sentimentos em relao a ele e o que dele
espera. Quando esses sonhos so trazidos a uma sesso de
anlise, devem ser trabalhados cuidadosamente pelo analista, pois
proporcionam um momento fundamental de sua relao com seu
paciente. Eles sinalizam aspectos que provavelmente sero
relevantes no decorrer da relao teraputica.
Marie-Louise von Franz considera "o primeiro sonho
trazido para a anlise como de especial importncia, pois
comumente antecipa o que ocorrer no processo."62 Se o


62
Os Sonhos e a Morte, p. 65.
157

sonho ocorre algum tempo depois de iniciada a anlise, mas  o
primeiro que ele traz, mesmo assim se reveste de importncia,
pois pode ajudar a estabelecer um parmetro de verificao do
progresso analtico.
Os sonhos iniciais, aps a primeira sesso, podem
apresentar imagens que anunciam uma certa melhora em relao
ao problema que ele apresenta. s vezes, eles sugerem uma ou
mais alternativas ao terapeuta. So balizadores de um processo a
longo prazo, mas, certamente, seus elementos simblicos surgiro
em outros sonhos posteriores.
O desconforto inicial de uma terapia, por ela tocar em
algum complexo inconsciente, pode ser revelado nos primeiros
sonhos, cuja sensao  desagradvel ao paciente. s vezes, so
sonhos que deixam o sonhador extremamente agoniado e
desconfortvel devido ao carter de exposio de sua vida, fato
que deve ser tratado pelo analista de forma a deixar seu paciente 
vontade quanto a trabalh-los em sesses posteriores.
158




A depresso e a ansiedade
nos sonhos


A depresso  o retorno da raiva inconsciente do ego
sobre si mesmo ou sobre sua imagem projetada. A raiva
projetada, no conscientizada, quando no  expressa, volta-se
sobre a prpria pessoa. A caracterstica bsica da depresso  a
perda de interesse pelo mundo externo e a falta de objetividade
na vida. Isto porque o depressivo promove um acrscimo de
energia psquica a seus processos internos em detrimento da vida
relacional, isto , a energia psquica, que deveria estar a servio
da conscincia, fica aprisionada no inconsciente. Essa regresso
da energia acentua os sentimentos perturbadores associados ao
complexo em questo, dominando a vontade consciente e
impedindo qualquer ao contrria s suas tendncias. Isto
promove, muitas vezes, atitudes que fazem o depressivo voltar-se
contra pessoas com as quais possui intensa relao afetiva. Nos
sonhos, geralmente, a raiva de si mesmo  representada por uma
ameaa ou uma agresso contra o ego onrico. Sua conteno ou
represso pela no canalizao da energia nela contida produzir
imagens onricas correspondentes.
159

O depressivo geralmente sofre uma regresso na libido em
decorrncia do medo que se apodera do ego quando exposto aos
desafios inerentes a seu processo de desenvolvimento. O
depressivo busca regredir a uma atitude de satisfao semelhante
 que tinha junto  me. Volta-se a um estado anterior cujo
acolhimento lhe foi satisfeito e onde obteve a necessria
compreenso.
As mudanas que se efetuam na vida desperta, quanto 
sada de uma depresso, so sinalizadas nas imagens onricas
atravs de smbolos menos aversivos, indiferenciados, que
substituem outros mais especficos.
As situaes que causam ansiedade so, muitas vezes,
imponderveis e provocam os mais diversos tipos de sonhos. So
tpicas as situaes em que o ego desperto almeja determinado
objetivo, deslocando a energia da conscincia para essa
finalidade, em detrimento de seu papel central. Essa situao de
tenso produzir o necessrio escape atravs dos sonhos, numa
tentativa de aliviar o deslocamento. As imagens produzidas
geralmente apresentaro situaes em que o ego onrico estar
em falta ou deslocado no tempo, isto , adiantado ou atrasado em
relao a algo.
As atitudes exigidas pela persona costumam provocar
ansiedade pela necessidade de desempenhar um papel social
acima das condies do ego desperto. A ansiedade em realizar tal
proeza poder surgir numa imagem de supervalorizao do ego
onrico.
Os sonhos onde o ego onrico se apresenta em atitudes
ativas devem ser considerados como mensagens para que o ego
desperto reaja  regresso, buscando sua progresso.
160




O medo nos sonhos


Talvez seja esse um dos temas mais comuns nos sonhos,
mesmo que aparea de forma implcita. No raro, os sonhos que
trazem situaes de tenso, de angstia, ou mesmo de terror,
causam medo ao sonhador. s vezes, o medo no se manifesta
no sonho, mas surge aps o acordar.
s vezes, o medo pode tornar o sonho um "pesadelo".
Mas nem sempre o sonho ter o carter de "pesadelo" somente
pelo contexto em que o medo se apresente como um sentimento
latente.
H estados tpicos que forjam o aparecimento de um sonho
cujo fundo principal seja o medo:

   ansiedade.
   insegurana.
   ambivalncia de atitudes.
   indeciso.

Se o sonhador tiver um pouco de perspiccia, poder
encontrar a soluo para sair do estado em que se encontra no
prprio sonho, pois o Self age a favor do processo de
desenvolvimento da personalidade. A perspiccia consiste em
161

enfrentar as situaes que causem o medo, inclusive nos sonhos.
Num sonho em que o sonhador seja colocado numa situao que
lhe cause medo, deve, na noite seguinte, antes de dormir, solicitar
ao Self que o coloque em situao idntica ou semelhante, pois,
dessa vez, saber como agir. Para isso, antes de dormir, o
sonhador ainda desperto procurar alternativas para enfrentar a
situao apresentada no sonho anterior; alternativas de confronto
com a situao apresentada e que possam resultar em vencer o
medo e dominar a situao aversiva.
Se o sonho apresenta uma situao de medo  conscincia,
talvez esteja indicando ao sonhador o que lhe falta para,
decididamente, enfrentar situaes tpicas no estado desperto.
Porm, contrariamente ao que dissemos, o medo nos sonhos
pode surgir como a mostrar ao ego desperto a importncia de
senti-lo, face  sua condio inflacionada.
162




A culpa nos sonhos


Outro tema de relevncia que aparece nos sonhos  a
culpa, que, pela inexistncia de uma censura no ego onrico, como
a imposta ao ego vgil, pela persona, surge com relativa
freqncia.
Esses sonhos freqentemente nos trazem nossas atitudes
em relao aos outros, cuja finalidade foi a agresso fsica, verbal
ou emocional, das quais nos arrependemos consciente ou
inconscientemente.
s vezes o sonhador se v cometendo um crime durante o
sonho, o que lhe provoca um sentimento de culpa, cuja raiz est
vinculada a atitudes inadequadas, tomadas pelo sonhador no
estado de viglia, das quais se arrepende inconscientemente.
Nesses casos  conveniente que o sonhador busque identificar
seus sentimentos durante o sonho, bem como quem era o
prejudicado, a fim de perceber em que aspectos a personalidade
dele se assemelha  sua.
As atitudes em que a moral social vigente, bem como uma
certa moral interna, provoquem culpa, podero ser responsveis
por sonhos cujo contedo apresentar o sonhador sendo
perseguido ou em situao de julgamento que o incrimine. Esses
sonhos visam compensar a situao de tenso em que se encontra
163

a conscincia, pela existncia de um complexo conscientizado ou
no. Os sonhos estaro sempre mostrando esse complexo, at
que o sonhador alivie sua culpa, transferindo-a a algum ou
dividindo-a com seu analista.
A confisso a que se refere Jung63 tem esse papel de
diminuir a carga emocional contida no segredo pessoal,
principalmente quando no se tem conscincia do que se oculta.




63
Obras Completas, Vol. XVI, par. 125.
164




A sombra nos sonhos


Freqentemente estamos a sonhar com aspectos
desconhecidos ou negados de nossa personalidade. Nos sonhos,
geralmente, surge tudo aquilo que normalmente criticamos nos
outros, como parte de nossa personalidade. Aqueles defeitos dos
quais nos envergonhamos de ter, tais como: inveja, cime, cobia,
ambio, irritabilidade, etc., aparecem nos sonhos de forma
freqente tendo em vista sua importncia no processo de
individuao.
Atuando como elemento catalizador de transformaes, os
sonhos iro revelar, com muita freqncia, os aspectos a
desenvolver na vida do sonhador. Muito freqentemente nossa
sombra estar presente em aspectos que normalmente atribumos
aos amigos, parentes, colegas de trabalho, que nos surgem como
figuras onricas.
Nos sonhos onde ela aparece com mais nitidez, sem deixar
dvidas quanto  sua presena marcante no processo de
desenvolvimento psquico, alm da interpretao necessria, o
sonhador dever fazer um trabalho de educao com sua
sombra. Este termo foi empregado por Jung, dentre outras
conceituaes, como uma das fases do processo de
desenvolvimento psicoterpico, necessria para que se estabelea
165

uma adaptao social do indivduo, aps a percepo dos seus
contedos sombrios. Os sonhos tambm convidam o sonhador 
percepo da sombra e, principalmente,  necessidade de buscar
uma nova forma de educao para a vida social.
A sombra, por ser o arqutipo cujas representaes esto
mais acessveis  conscincia, estar mais presente nos sonhos e
utilizar os smbolos mais diversos para provocar a necessria
transformao do sonhador. s vezes, a sombra surge em
atitudes contrrias  tendncia do ego desperto, quando este j se
afastou daquele comportamento, o que nega o antigo conceito
reducionista de que os sonhos sejam apenas a realizao de
desejos. Tais sonhos trazem resqucios da culpa pelo passado j
redimido, embora no esquecido.
Ao contrrio do que se possa pensar, nossa sombra no
est somente presente nos chamados "maus sonhos" ou
"pesadelos". A sombra pode surgir nos sonhos, cuja serenidade
se transfere para o estado de viglia, durante horas ou dias. Ela
nem sempre deixa marcas desagradveis no sonho, pois suas
caractersticas podem se revestir de aspectos negados ou
desconhecidos, portanto tambm positivos.
 necessrio, em toda anlise, que a identificao da
sombra seja levada parcialmente  conscincia, sobretudo aquela
constituda e alicerada na infncia, a fim de que ocorra o
funcionamento adequado do ego. Os sonhos podem trazer a
parte da sombra que deve ser conscientizada. A incluso da parte
revelada  uma necessidade que implicar na avaliao das
verdades morais adotadas pelo indivduo at ento.  um
processo que exigir coragem e prudncia, por se tratar de uma
deciso adulta, da qual o terapeuta  um aliado importante.
Pode-se dizer, sem receio de erro, que seramos
extremamente pobres, quais metades inteis de um instrumento,
se fssemos apenas o que pensamos que somos. A sombra 
166

parte indissocivel da personalidade. Quem pensa que sempre
tem razo, luta muito com sua prpria sombra, que
inevitavelmente, estar mostrando o contrrio.
Em que pese os "pesadelos" serem tomados geralmente ao
nvel do sujeito, isto , de forma subjetiva, e considerados como
referentes aos aspectos da sombra do sonhador, prefiro,
preliminarmente, procurar uma correlao com aspectos
envolvendo sua vida espiritual. Quando possvel, estabeleo
inicialmente uma interpretao ao nvel do objeto, porm numa
tica interexistencial. Pergunto-me se aquele sonho ou "pesadelo"
no estaria trazendo algo que objetivamente est acontecendo
durante o sono. Caso no encontre tal correlao ou, mesmo
encontrando, ela me parea inverossmil, tento tambm perceb-
la numa srie de sonhos. Se ainda assim no houver campo para
aquela interpretao, passo ento a analis-lo do ponto de vista
subjetivo. A interpretao do ponto de vista espiritual no 
induzida ao paciente, mas conservada por mim, como referencial
para uma melhor conduo de seu caso.
167


Uma anlise esprita

A viso esprita a respeito dos sonhos, como uma atividade extrafsica,
j era defendida pelos pitagricos, bem como por Plato, alm de estar
presente no conhecimento esotrico egpcio, no se constituindo uma
idia nova nem sobrenatural. Durante muito tempo evitou-se abordar temas
sob a tica esprita, sobretudo na Psicologia clssica, porm os fatos,
senhores da razo, introduziram-se irreverentemente nas cincias
obrigando-as a considerar, pelo menos como hiptese, sua possibilidade
de ocorrncia. Tem sido comum a terapeutas, das mais variadas linhas,
penetrarem no conhecimento dos aspectos psquicos do ser humano e nos
elementos que envolvem fenmenos antes atribudos s concepes
religiosas distanciadas dos meios cientficos. Essa proximidade de
objetos de estudo reflete uma provvel mudana de paradigmas dos
conhecimentos envolvidos. Nenhum conhecimento em si  absoluto e nem
contm todas as possibilidades de compreenso. Por isso a anlise aqui
apresentada  apenas uma plida viso de um tema cuja complexidade
envolve aspectos culturais e at arquetpicos, com a dificuldade em
descrever, numa linguagem psicolgica, fenmenos que fogem a antigos
cnones cientficos.

Uma anlise esprita, aqui exposta, no se prope a querer provar as
relaes entre espritos e os sonhos. Seria como tentar doutrinar o
leitor a uma viso estritamente ortodoxa. Aqui no h uma preocupao em
provar que os sonhos so de origem espiritual ou que alguns deles
apresentam aspectos inerentes quela concepo. Limito-me a expor, sob
vrios ngulos, o pensamento esprita a respeito, sem a pretenso
inclusive de conhec-lo em profundidade. Preocupar-me-ei em apresentar
como o Espiritismo conceitua os sonhos, sem entrar no mrito da crena
esprita. A pesquisa no se ateve ao Espiritismo iniciado por Allan
Kardec, a partir de alguns relatos colhidos nos livros que lhes deram a
base, mas tambm de expoentes atuais que do continuidade  fixao de
suas teses. A maioria dos relatos e idias sobre sonhos foram colhidas
nas obras de Allan Kardec, editadas entre 1857 e 1868. Algumas idias,
em que pese serem divulgadas numa linguagem pouco comum, pelo ngulo em
que so apresentadas, isto , de quem no se encontra "vivo", se
assemelham a muitas apresentadas por estudiosos, alguns anos depois, ou
no sculo seguinte. Esse ngulo de viso parece se assemelhar, se fosse
possvel, a algum que estivesse falando, estando no inconsciente, para
outro que estivesse no consciente. Seria como se o inconsciente falasse
do consciente, diferente da descrio sobre o inconsciente, feita pelo
ego consciente. Para uma melhor compreenso dessa abordagem  necessrio
entender que, para o Espiritismo, o ser humano, independente dos
aspectos psquicos,  constitudo de trs partes distintas: Esprito,
perisprito e corpo fsico. O Esprito  o princpio inteligente, sede
do saber e dos processos psicolgicos, consciente e inconsciente. O
perisprito  um corpo energtico de que o Esprito se utiliza para
atuar com o corpo fsico como tambm para operar quando este dorme. O
corpo fsico  o veculo de manifestao na realidade material em que o
Esprito atua quando no estado de viglia (encarnado). No corpo, as
impresses do Esprito so gravadas no crtex cerebral e passam pelo
perisprito. Na viso esprita, o sonho no pode ser compreendido como
algo estritamente resultante das atividades realizadas pelo sonhador
durante o dia, j que prope um certo estado de conscincia (porm
inconsciente) durante o sono. O ego onrico por vezes  o prprio
esprito, consciente de sua individualidade, fora dos limites do corpo
fsico. Muito embora prevalea a afirmao de que o sonho seja uma
realidade do sonhador, neste captulo veremos que, para o Espiritismo,
h sonhos que se referem a terceiros, ou a eles se destinam como
mensagens de sua vida passada ou para sua vida futura. Sonhos que trazem
recados de pessoas "mortas" para parentes, no dizem respeito
objetivamente ao sonhador, mas queles para os quais se destina a
mensagem. Diretamente no dizem respeito ao sonhador, mas indiretamente,
pela forma como surgem e pelas imagens apresentadas, trazem o trao
caracterstico dele. Esses sonhos podem ser interpretados ao nvel do
objeto e ao nvel do sujeito sem prejuzo da viso esprita e
vice-versa.

Os sonhos se originam no esprito que, durante o sono, estando ligado ao
perisprito, atua no mundo espiritual e, ao acordar, imprime suas
impresses, imagens e sensaes, no crtex cerebral, dando margem 
lembrana em forma de sonho. O sonhador poder estar destitudo do corpo
material (desencarnado) ou no (encarnado), pois o sonhar  um ato
psquico, cuja abrangncia transcende os neurnios cerebrais. Mesmo
desencarnado, o ser espiritual tem um ego, e esse ego sonha. As
impresses sero gravadas em sua estrutura perispiritual, aps o
acordar. Corresponde a afirmar que a vida do esprito fora do corpo
permite-lhe tambm sonhar. O senhor do sonho no  a alma, enquanto
entidade humana, restrita aos limites do corpo enquanto este vive, mas a
individualidade, o Esprito, cuja destinao exclusiva  o ascender
espiritual. Esse ascender difere do processo de individuao junguiano,
pois este ocorre no intervalo entre o nascer e o morrer fsico, e aquele
atravessa as vidas sucessivas num crescimento evolutivo contnuo.

De acordo com o pensamento esprita, h uma faculdade psquica
denominada mediunidade, que permite ao ser humano perceber a
interexistencialidade da vida. Nessa condio  possvel ao indivduo, o
mdium, perceber ocorrncias de nveis energticos distintos. Essa
aptido permite que se observe a existncia e a atividade, por exemplo,
de espritos que esto num nvel energtico mais sutil que o
fsico-material. Certas pessoas parecem ter uma aptido especial para
ter um tipo especfico de sonhos. Essa aptido especial (mediunidade)
ocorre quando sonham freqentemente com pessoas falecidas e delas
recebem orientaes variadas em relao  sua vida ou  de terceiros, ou
que sonham com acontecimentos que sero confirmados posteriormente,
quando no havia possibilidade alguma de serem previstos por leis
probabilsticas. Para os estudiosos do Espiritismo no h uma distncia
muito grande entre o Saber Esprita e a Psicologia. O estabelecimento de
uma linha divisria muito rgida pode revelar o desconhecimento de
ambos. A Psicologia, enquanto conhecimento acadmico, preocupa-se em
estabelecer uma linha divisria bem ntida com o conhecimento esprita,
porm seus objetos de estudos, em muitos aspectos, se assemelham. A
psicologia do ser humano no entra em choque com a idia do esprito. O
Espiritismo no contradiz a Psicologia. H variadas escolas da
Psicologia, que tm sido revisadas dia-a-dia, merecendo uma nova
compreenso pelos estudiosos do Espiritismo. A Psicologia ortodoxa est
dando lugar s Psicologias Alternativas, arremedos de uma nova
Psicologia da alma. Muito embora o Espiritismo seja uno e apresente
teses coerentes, bem como aplicveis para explicar o mundo do ponto de
vista cosmolgico, antropolgico e existencial, ele ainda no mostra,
por uma questo de tempo de maturao de sua exegese doutrinria, uma
Psicologia do Esprito. Os estudiosos do Espiritismo esto mais voltados
para sua demonstrao filosfica e sua prtica religiosa, importantes
para os fins a que se destinam. Resta uma lacuna no campo da cincia e
no campo da pesquisa psquica. Explico-me.
cereja
Ainda h uma preocupao muito grande em provar as
teses espritas em prejuzo de um detalhamento de seu contedo,
aplicvel  vida como um todo. No que no se deva continuar
perseguindo uma aceitao, principalmente na rea acadmica,
dos princpios bsicos espritas. Mas no se deve pensar que a
tarefa seja concluda apenas por essa prtica importante.
O esprito, enquanto ser existencial, apresenta aspectos
desconhecidos que carecem de uma anlise psicolgica e de uma
abordagem contextualizada, sempre exigidas em toda cincia.
Muito embora haja uma tendncia do saber esprita em
afirmar que todo sonho se trata de uma ocorrncia no momento
do sono, a grande maioria dos sonhos traz contedos simblicos
que merecem anlise adequada do ponto de vista psicolgico
subjetivo. Alguns sonhos efetivamente tratam de fenmenos
espirituais. Estes devero, independente da escola psicolgica que
se adote para interpret-los, merecer cuidados especiais,
principalmente questionando-se sobre por que ocorrem naquele
momento da vida do sonhador.

A literatura esprita a respeito desses sonhos  vasta. Cito,
entre outros, o trabalho do Dr. Carlos Bernardo Loureiro, A
Viso Esprita do Sono e dos Sonhos, para o leitor que queira
aprofundar-se no assunto, bem como a bibliografia por ele
indicada em seu livro.
H sonhos que trazem contedos decorrentes de
orientaes e encontros espirituais cuja anlise, pela sua
amplitude, pode ser feita de forma psicolgica sem prejuzo de
sua interpretao esprita. No h delimitao de fronteiras nem
se pode saber onde termina o espiritual e onde comea o
psicolgico.
Quando um ser desencarnado, "morto", persegue algum
encarnado, "vivo", chama-se esse fenmeno de obsesso
espiritual. H sonhos que retratam essa possibilidade de
ocorrncia durante o sono, quando o sonhador est liberado do
corpo que dorme. Os sonhos carregados de emoes fortes,
geralmente apresentam aspectos que se assemelham s obsesses
e perseguies caractersticas do mundo espiritual. So os
chamados pesadelos.
Alguns sonhos, onde aparecem personagens j falecidos,
conhecidos ou no do sonhador, podem se tratar de encontros
espirituais. Eles se assemelham, numa linguagem junguiana, a um
encontro com a imagem do arqutipo do velho sbio, que nada
mais  do que um esprito conselheiro a conversar com o
sonhador. Semelhante fenmeno  descrito em textos bblicos
como um anjo anunciando, em sonhos, sobre o destino de
algum.
Os chamados sonhos lcidos, em que o sonhador tem
conscincia de que est dormindo e de que sua conscincia
naquele momento lhe afirma estar sonhando, so sonhos de
emancipao do esprito, que, naquele momento, no s detm a
volio, como tambm tem acesso  memria que guarda de
outras vidas. Liberto do corpo, o qual retm as lembranas de
vidas passadas, o esprito entra em contato, em si mesmo, com
esse conhecimento que lhe  inerente.
H sonhos, que se assemelham aos lcidos, que se
apresentam muito ntidos e se referem a aspectos da vida
consciente fora do corpo fsico, pela sua clareza e ausncia de
contedos simblicos expressivos. So mais que sonhos. So
elo
situaes revividas p ego onrico para serem refletidas pelo
ego vgil, de forma objetiva e direta.
Alguns sonhos profticos se devem ao contato com
espritos mais esclarecidos que antevem as ocorrncias futuras e
as transmitem ao esprito liberto do corpo pelo sono.
Assemelham-se aos sonhos prospectivos a que se referia Jung.
Uma das primeiras afirmaes da viso esprita sobre os
sonhos pode ser encontrada na obra de Allan Kardec, cujo
contedo resume o pensamento esprita a respeito de vrios
temas, inclusive dos sonhos, onde se encontram inmeras pginas
escritas. Usamos a traduo indita de Djalma Motta Argollo, de
O Livro dos Espritos, feita a partir da segunda edio francesa,
de Allan Kardec, nas transcries seguintes.
A primeira questo sobre o tema, apontada no pensamento
esprita, coloca os sonhos como uma possibilidade de retratar os
encontros espirituais. Na questo 343 do livro citado, consta:
"Os Espritos amigos que nos seguem na vida so os
que vemos por vezes nos sonhos, que nos testemunham afeto,
e que a ns se apresentam sob traos desconhecidos?"
Resposta: "Freqentemente so eles; vm visitar-vos, como ides
visitar um prisioneiro nas grades."
Esta colocao viria a explicar alguns dos personagens
estranhos ao ego vgil e presentes nos sonhos.
As afirmaes espritas sobre os sonhos esto
fundamentadas numa outra questo que vem estabelecer uma linha
de base sobre todos os fenmenos envolvendo o sono. Eis a
pergunta e respectiva resposta:
Questo 401. "Durante o sono a alma repousa como o
corpo?"
Resposta: "No, o Esprito nunca fica inativo. Durante o sono,
os elos que o unem ao corpo relaxam, e o corpo no precisa do Esprito;
ele percorre o espao, e entra em relao mais direta com os outros
Espritos."
Os sonhos so ento explicados pelas atitudes do esprito
quando fora do corpo. Nesse sentido a existncia da
individualidade independente do corpo  condio fundamental
para a compreenso dos sonhos.
A questo seguinte entra no mrito dos sonhos
premonitrios, dos sonhos desconexos, dos sonhos subindo e
descendo, das influncias das preocupaes do estado de viglia e
dos "pesadelos". A concepo esprita se amplia, admitindo
tambm que as preocupaes do ego vgil interferem nos sonhos,
o que lhes d um carter psicolgico, sem penetrar na esfera da
crena no esprito.
Eis a pergunta e respectiva resposta:
Questo 402. "Como podemos avaliar a liberdade do
Esprito durante o sono?"
Resposta: "Pelos sonhos. Acredita que quando o corpo repousa,
o Esprito tem mais faculdades que no estado de viglia; lembra do
passado e por vezes tem previses do futuro; adquire mais poder e pode
entrar em comunicao com os outros Espritos, seja nesse mundo, seja
num outro. Freqentemente, dizes: tive um sonho estranho, um sonho
horrvel, mas completamente inverossmil; enganas-te;  freqentemente
uma recordao dos lugares e coisas que vistes ou que vers numa outra
existncia ou em outro momento. O corpo estando adormecido, o Esprito
trata de quebrar as amarras procurando no passado ou no futuro. (...)
O sonho  a lembrana do que o vosso Esprito viu durante o
sono; mas nem sempre sonhais, porque nem sempre vos lembrais do que
vistes ou de tudo o que vistes. No  a vossa alma plenamente
desenvolvida; no  por vezes seno a lembrana da perturbao que
acompanha a vossa sada ou chegada, ao qual se junta a do que fizestes
ou do que vos preocupa no estado de viglia; se no, como explicar esses
sonhos absurdos que tm os mais sbios como os mais simples? Os maus
Espritos servem-se tambm dos sonhos para atormentar as almas fracas
e pusilnimes. (...)
Noutra pergunta, referindo-se ao no recordar os sonhos,
vem a resposta apontando as impossibilidades do corpo fsico e
suas propriedades energticas. H uma certa "densidade" do
corpo fsico que impede a gravao das impresses havidas
durante a vida fora da matria.
Pergunta e respectiva resposta:
Questo 403. "Por que nem sempre nos lembramos dos
sonhos?"
Resposta: "O que chamas sono, no  seno o repouso do corpo,
pois o Esprito est sempre em movimento; nele o Esprito reencontra um
pouco da sua liberdade, e se corresponde com os que lhe so queridos,
seja neste mundo, seja noutros; mas como o corpo  uma matria pesada e
grosseira, conserva dificilmente as impresses que o Esprito recebeu,
porque este no as percebeu com os rgos do corpo."
Em questes seguintes a essa, o conceito de sonhos volta a
frisar seu significado espiritual em detrimento do psicolgico,
muito embora no o despreze de todo. As preocupaes da vida
consciente so novamente colocadas como motivo para os
sonhos de pressentimentos que no se realizam, bem como as
lembranas de vidas passadas misturadas s intuies do futuro,
fazendo parte deles. Na questo 405, o desejo  citado como
fonte da realizao dos sonhos, o que antecipa em pouco mais de
40 anos, as concepes freudianas, j que o livro citado teve sua
primeira edio em 1857. A partir da questo 425 at a 455 h
questionamentos e uma anlise sobre os fenmenos envolvendo o
sono, os sonhos, o xtase e o sonambulismo, que vale a pena
serem lidos pela sua atualidade e pelo seu significado para a
compreenso das diferenas entre os sonhos e outros estados
conscienciais. Tais fenmenos so colocados como meios de
acesso  vida inconsciente, e o texto chama a ateno para o fato
de que eles no devem ser menosprezados pela Psicologia para
essa finalidade. Pela sua extenso e complexidade no poderemos
neste estudo coment-lo.
Ao que tudo indica, a anlise sobre os sonhos contida nas
questes trazidas em 1857, por Allan Kardec, procura no entrar
diretamente na questo psicolgica, mas, principalmente chamar a
ateno para uma outra ordem de sonhos, cuja diferenciao dos
sonhos simblicos constitui-se num desafio para a Psicologia
como cincia.
O assunto  retomado no ano seguinte, na Revista
Esprita, de dezembro de 1858, por Allan Kardec, onde os
sonhos so definidos como: lembranas daquilo que o esprito v
durante o sono, lembranas da partida e chegada ao corpo e
lembranas daquilo que se faz e que o preocupa no estado de
viglia. Os pesadelos so perseguies dos maus espritos.
Em Julho de 1865, no mesmo peridico, o autor transcreve
um sonho tido e relatado por N. G. Bach, um bisneto de J. S.
Bach, o famoso msico, em que, aps ganhar uma espineta64 de
presente de seu filho,  noite sonha com o seu antigo proprietrio,
a quem desconhecia, a lhe contar a histria do instrumento e lhe
toca uma msica com tal emoo que o acorda, de madrugada.
Dias depois, aps tentar sem sucesso escrever a msica
completa, para sua surpresa, ao acordar pela manh, encontrou a
composio escrita pelo esprito que lhe tinha aparecido no
sonho. O sonhador, embora fosse msico, nunca havia escrito

qualquer msica. Sobre esse episdio Allan Kardec comenta,
dentre outros aspectos doutrinrios espritas, que no vem ao
caso assinalar no momento, que era natural que ele sonhasse com
a espineta, tendo em vista sua constatao e satisfao quanto 
data antiga do instrumento (abril de 1564). Isto coloca os sonhos,
numa viso esprita, como resultante das preocupaes do estado
de viglia, conforme o nmero da mesma Revista Esprita de
Junho de 1858.
Para o Espiritismo este  um sonho que se pode chamar de
esprita pela sua nitidez e veracidade, pois a histria contada no
sonho foi investigada e comprovada. Esse sonho no se prestaria
a uma interpretao psicolgica. Faz-lo seria alongar-se demais
em algo que  apenas um fato. A interpretao ao nvel do objeto
 mais adequada.
 tambm neste nmero que Allan Kardec coloca os
sonhos, dentre outros fenmenos, como uma emancipao da
alma. Ele divide os sonhos em trs categorias, pelo grau de
lembrana:

1 . Sonhos que so provocados pelo organismo e que se demoram em ser
esquecidos;
2 . Sonhos mistos provocados pelo organismo e pela ao espiritual e
que so logo esquecidos;
3 . Sonhos etreos ou puramente espirituais e que no so lembrados.

Parece-nos que a primeira categoria reflete uma idia
comum  poca, em que se pensava que os sonhos eram oriundos
da dinmica orgnica noturna.
No nmero de Junho de 1866, Allan Kardec cita um sonho
instrutivo seu, em que, inicialmente, atribuiu a alguma doena
orgnica, pois que estivera doente naquela poca. Eis o sonho:
"Num lugar que nada lembrava  nossa memria e que se
parecia com uma rua, havia uma reunio de indivduos que
conversavam em grupo; nesse nmero s alguns nos eram
conhecidos em sonho, mas sem que os pudssemos designar pelo
nome. Considervamos a multido e procurvamos captar o assunto
da conversa quando, de repente, apareceu no canto de um muro
uma inscrio em letras pequenas, brilhantes como fogo, e que nos
esforamos por decifrar. Estava assim concebida: Descobrimos que
a borracha rolada sob a roda faz uma lgua em dez minutos, desde
que a estrada.... Enquanto procurvamos o fim da frase, a inscrio
apagou-se pouco a pouco e acordamos. Com o receio de esquecer
estas palavras singulares, apressamo-nos em as transcrever.
Ele consulta o, ento seu amigo, Dr. Demeure, que era
mdico, e este lhe explica, afirmando que os sonhos esto
relacionados com o carter das doenas, e que muito a medicina
ainda iria estudar isso, mas que, aquele sonho, era de outra
categoria. Era um sonho instrutivo, isto , os espritos estavam lhe
mostrando que as invenes so precedidas de estudos
anteriores, durante o sono.
Assim como Hipcrates, Allan Kardec, e seu amigo
mdico, acreditavam que os sonhos prenunciavam como tambm
denunciavam doenas. Jung, em vrios tpicos, tambm tinha
conscincia dessa possibilidade.
Pode-se afirmar que, na viso esprita, trazida por Allan
Kardec, nos primrdios do Espiritismo, os sonhos so
conseqncias:

1. das interferncias das preocupaes do estado de viglia;
2. dos desejos do estado de viglia;
3. das disposies orgnicas;
4. das lembranas de vidas passadas;
5. das atividades do esprito durante o sono;
6. das intuies quanto ao futuro.

Atenho-me agora a comentar apenas textos extrados de
mais duas fontes, pela abrangncia de suas obras, muito embora
tenha consultado vrios autores espritas citados na bibliografia,
ao final. Comento trechos de um dos livros de Francisco Cndido
Xavier e tambm trechos de livros de Divaldo Pereira Franco.
Dois espritas que, como mdiuns, trouxeram valiosa contribuio
ao desenvolvimento do Espiritismo como doutrina.
Nos livros consultados, os sonhos so explorados, mais
especificamente, como resultantes de encontros espirituais,
encontros do sonhador durante o sono, com outros que esto
tambm em sono, liberados do corpo como tambm com
entidades espirituais. As recordaes se do de forma superficial,
mas guardando-se as emoes caractersticas dos encontros
havidos.
Quando no so encontros, so registros gravados na
memria, referentes s vidas passadas do sonhador, que, por
estar liberto do corpo no sono, tem acesso a eles. O acesso 
lembrado no dia seguinte como um sonho.
Geralmente quando o sonhador se encontra com algum de
quem no goste ou lhe  inimigo, o sonho  lembrado como um
encontro com uma figura demonaca ou agressiva. Os smbolos
vo surgir tomando o lugar do personagem "real". A figura
aversiva do sonho, que ter ou no o mesmo sexo do sonhador,
poderia ser interpretada como sendo sua sombra, se do mesmo
sexo, ou a projeo de sua nima/nimus, se do sexo oposto.
Essa generalizao pode no corresponder  realidade na vida do
sonhador. Nesses casos, quando se pretende trabalhar com esses
sonhos, seria mais adequado levar-se  dramatizao deles, 
semelhana do mtodo utilizado na Gestalt-Terapia.

Nos trechos colhidos, v-se que, embora o sonho seja uma
realidade do sonhador,  possvel que, nos encontros espirituais
durante o sono, duas pessoas se lembrem aps o acordar, haver
sonhado uma com a outra, mesmo que com pequenas diferenas
de relato.
Os textos colocam tambm o fato de que, quando no
ocorre a lembrana desses encontros,  porque no h a
convenincia do registro para a conscincia desperta.65 Os
pesadelos so tidos como conseqncia da conscincia culpada
ou de remorso pelos equvocos cometidos no estado de viglia.66
Alguns sonhos repetidos so tomados por repetidas situaes
vividas nos estados onricos.67
No livro rdua Ascenso, do mdium Divaldo P. Franco, 
pgina 26, h o seguinte trecho, interessante para nossa anlise:
"Ao buscar o repouso fsico, Augusta era assaltada,
invariavelmente, por estranho e peculiar sonho, revivendo,
ora as cenas de encantamento, quando, doutras vezes, as de
aflio. O inconsciente profundo liberava as impresses mais
fortes que irrigavam o consciente atual, facilitado pelo
parcial desprendimento do esprito pelo sono."
 nessa ltima frase que percebemos a identidade entre as
teses espritas e a Psicologia junguiana, em que o inconsciente 
dividido em duas partes: o coletivo, mais profundo, e o individual.
No se observa nenhum conflito, visto que, ao que se depreende
do texto, na condio de esprito fora do corpo durante o sono,
ainda h uma vida inconsciente que, tanto desperto quanto
dormindo, influencia no estado consciente.
No livro O Consolador, do mdium Francisco C. Xavier,
encontramos,  pgina 43, o que se segue.

"49 - Como devemos conceituar o sonho?"
- "Na maioria das vezes, o sonho constitui atividade reflexa das
situaes psicolgicas do homem no mecanismo das lutas de cada
dia, quando as foras orgnicas dormitam em repouso
indispensvel.
Em determinadas circunstncias, contudo, como nos fenmenos
premonitrios, ou nos de sonambulismo, em que a alma encarnada
alcana elevada porcentagem de desprendimento parcial, o sonho
representa a liberdade relativa do esprito prisioneiro da Terra,
quando, ento, se poder verificar a comunicao inter vivos, e,
quando possvel, as vises profticas, fatos esses sempre
organizados pelos mentores espirituais de elevada hierarquia,
obedecendo a fins superiores, e quando o encarnado em temporria
liberdade pode receber a palavra e a influncia diretas de seus
amigos e orientadores do plano invisvel."
O autor vai considerar o sonho como "atividade reflexa de
situaes psicolgicas", premonio, alm de comunicao entre
duas pessoas desprendidas do corpo fsico durante o sono. A
primeira afirmao vai exatamente ao encontro das teorias
psicolgicas vigentes  poca, sendo complementadas pelas duas
ltimas afirmaes.
Ainda do mesmo mdium extramos do livro Entre a Terra
e o Cu, editado pela FEB, lanado em 1954,  pgina 94, a
narrao do seguinte sonho, de um sonhador de 35 anos,
enfermeiro, solteiro, que morava com a me:
"Sonhei que algum me chamava,  distncia, em voz alta, e,
acreditando tratar-se de algum doente em estado grave, no vacilei.
Corri ao apelo, mas, ao invs de topar um quarto de enfermagem, vi-me,
de imediato, numa cela mal iluminada e mida...
E, com os recursos de imaginao de que dispunha para
corresponder s requisies da mente, o rapaz continuou:
Era um perfeito cubculo e priso, onde me surpreendi encarcerado,
de repente, junto de um criminoso de mau aspecto e de infortunada
mulher em pranto... Senti tanta simpatia pela moa desventurada, quanto
averso pelo ru de medonha catadura. Tive, porm, a impresso ntida
de que nos conhecamos. Um misto de dio e sofrimento me tomou de
assalto, junto deles, principalmente ao lado do infeliz, cujo olhar se me
afigurava cruel... Perguntava, a mim mesmo, por que no me retirava de
to desagradvel presena, mas, enquanto o homem me repelia, a mulher
me provocava o maior enternecimento... Por mais estranho que parea,
experimentava o desejo de agredi-lo e de acarici-la ao mesmo tempo.
Achava-me em expectativa, quando o criminoso avanou para mim, com
o propsito evidente de liquidar-me, ao passo que a pobrezinha
procurava defender-me. Estava atnito, ignorando se o condenado
pretendia assassinar-me, ali mesmo, quando tentei uma reao  altura!
Cego de incompreensvel rancor, ia precipitar-me sobre ele, quando,
rpido, apareceu um delegado policial, seguido de dois guardas, que
entraram na contenda, impedindo-nos o mau impulso. O chefe, segundo
percebi, de um s golpe conteve o meu agressor, obrigando-o a sentar-se,
vencido, conquistando-me um respeito to grande que, realmente, apesar
do desejo de ouvir a mulher ajoelhada, em soluos, no arredei p do
lugar em que me apoiava. Depois de palavras enrgicas e rpidas, o
delegado trouxe, ento,  cela outros ajudantes que arrastaram meu
adversrio para fora... Logo aps, acomodando-me numa velha cadeira,
reconduziu a jovem para o interior do crcere...
Estampou na fisionomia a expresso de quem se propunha
inutilmente lembrar-se e, decorridos longos instantes de reticncia,
rematou:
Depois... depois, no consigo precisar as recordaes... Sei apenas
que me pus a correr, em fuga para nossa casa, de vez que os policiais se
mostravam igualmente dispostos a recolher-me. Temendo o xadrez,
acordei estremunhado e abatido..."
O sonhador teve um reencontro espiritual junto a antigo
desafeto desencarnado, de quem tinha "roubado" sua mulher.
Naquela noite os trs se encontraram em casa da mulher, tambm
encarnada e, se no fosse o auxlio espiritual, os dois homens
entrariam em luta corporal.
Realmente o desafeto chamou pelo sonhador.
No havia cela mal iluminada e mida, mas a sala da casa
da mulher. Provavelmente esta caracterizao simblica pode ter-
se originado a partir do estado emocional do sonhador.

Os sentimentos dele para com o desafeto e para com a
mulher, no sonho, eram verdadeiros durante o sono.
Realmente o desafeto tentou avanar sobre ele para agredi-
lo.
O delegado era o esprito encarregado da reunio. Os dois
ajudantes eram auxiliares do encarregado.
Realmente ele se evadiu do local e foi para casa pela
manh, quando acordou com a sensao de um mau sonho.
Igualmente extramos do livro Tramas do Destino, do
mdium Divaldo Pereira Franco,  pgina 53, o seguinte trecho,
que por si mesmo se explica, durante e aps o sono de um
paciente hospitalizado com hansenase:
"
No transe experimentado, sentiu-se recuar s contingncias da vida
atual, como se estivesse diante de uma tela de cinemascpio e se revisse
em carter retrospectivo, desde o internamento hospitalar ao bero e
da, aps uma larga faixa de sombras em que se debatiam vultos informes
e se sucediam acontecimentos sem nitidez, recomeassem as paisagens,
nas quais se sentia viver.
Destacavam-se, na viso colorida, cenas que retratavam poder e
distino social em torno de um homem abastado e nobre, bajulado, no
qual, acurando observaes, se descobriu a si mesmo, embora alguns
diferentes traos fisionmicos...
Ao deparar-se com a personagem, com ela se identificando, percebeu-
se com tal afinidade que experimentou transladar-se da posio de
observador para a vivncia emocional do indivduo examinado.
Sentiu a arrogncia e a prepotncia que lhe intumesciam o peito, o
orgulho exacerbado e a alta carga de paixes, que a custo dissimulava;
a mente varrida por dramas sucessivos parecia deleitar-se em poder
execut-los sinistramente. Sabia-se temido e odiado, no que se
comprazia.
Como continuasse a viagem em retrospecto, encontrou-se numa
ampla alcova, diante de bela mulher imvel, que fitava aterrada a
construo de uma parede...
O silncio, quebrado somente pelas ferramentas manipuladas, a
respirao abafada e uma soma de dio que no extravasava, em
exploso, porque parecia vingar-se fria, calculadamente, assinalavam o
ambiente.

De sbito enevoaram-se os cenrios, perderam-se os contornos, e ele,
volvendo  posio anterior, passou a fugir em delrio, desequilibrado,
aodado por implacvel vingador que cavalgava emps, alcanando-o e
liberando-o, para novamente venc-lo...
Na luta desigual, ao verificar-se dominado pelo outro, em
estarrecimento ps-se a gritar.
A debater-se no leito humilde, despertou, banhado de suor, com
expresso bestial.
A balbrdia produziu reclamao dos acamados em volta e atraiu o
enfermeiro, que, gentil, procurou acalm-lo.
- Um pesadelo, pois no? - inquiriu prestimoso. -  a primeira fase.
Todos so vtimas desses sonhos tenebrosos, quando do ingresso aqui.
"Acostumam-se depois. Os primeiros so os piores dias. O
inconsciente se liberta, as imagens inspiradas pela doena desbordam-se
e agridem suas vtimas. No desespere. O tempo lhe enxugar as
lgrimas, e voc aprender a lutar pela sobrevivncia, eu bem o sei..."
Tinha razes o cooperador da enfermagem, no, porm, totais. 
natural que o choque produza, inevitavelmente, a liberao das
lembranas arquivadas no inconsciente, mas no apenas as que dizem
respeito  vida atual. Os depsitos da "memria no cerebral" guardam
os arquivos dos sucessos atuais e pregressos, das vidas anteriores, de que
do conta ao impositivo das emoes mais fortes, dos gravames morais,
das contingncias espirituais imperiosas.
(...)
Da os pesadelos semelhantes, conforme anotara o enfermeiro, que os
acometiam, porque a conscincia individual, expressando a Conscincia
Soberana, ...""
Outro aspecto que vale a pena comentar no que diz
respeito  interpretao dos sonhos  a anlise dos que so
produzidos pelos mdiuns. Eles costumam ter sonhos mais
prximos de encontros espirituais do que sonhos simblicos. Seus
sonhos so, muitas vezes, repletos de temas e emoes que no
lhes pertencem, mas sim a espritos com quem travam contato nos
trabalhos espritas que visam eliminar as obsesses. Histrias
carregadas de emoes e de envolvimentos crmicos, que
exigem um trabalho laborioso e persistente de soluo, vo se
fixar na mente dos que delas participam, provocando sonhos que
no dizem, diretamente, respeito ao sonhador e que, embora
tragam smbolos onricos, nem sempre se prestam  anlise
subjetiva.
O analista deve, conhecendo as atividades espirituais
(medinicas) do sonhador, ficar atento s interpretaes
apressadas. Muito embora o sonho seja uma realidade do
sonhador, a sua poder estar interligada  de algum por fora de
sua participao indireta na soluo dos problemas quando ele se
presta ao trabalho como mdium, onde a mente exerce influncia
decisiva.  tambm nesse sentido que se pode aplicar a
recomendao de Jung68 em se considerar as convices
religiosas, filosficas e morais do sonhador.
De acordo com as pesquisas de Aserinsky e Kleitman,
ficou constatado que todos sonham sempre que dormem, mas
nem sempre se recordam que sonharam, bem como de seu
contedo. s vezes sabe-se que se sonhou, mas no se sabe com
qu. Esse material onrico resultante, no lembrado, permanecer
subconscientemente guardado, sem energia suficiente para assumir
a conscincia, salvo se algum fato ou objeto se conecte ao sonho
e o traga  tona. Esse material subconsciente permanecer por
algum tempo e poder ser responsvel por alguns fenmenos de
"dj vu", isto , da sensao de que j se esteve em algum lugar
ou j se passou por aquilo antes. Essa no  uma explicao para
todos os casos de "dj vu". Eles tambm ocorrem sempre que
as pessoas se deparam com situaes que j viveram antes em
outras vidas e que as marcaram emocionalmente.
No livro Autodescobrimento, tambm de Divaldo Franco,
 pgina 102, h um captulo sobre subconsciente e sonhos, cuja
anlise fazemos a seguir.

O texto inicia colocando que os sonhos se originam no
subconsciente, numa zona onde se encontram os registros d   os
acontecimentos vividos pelo indivduo, destacando sua
importncia na apreciao do ser humano. Considera-se ali, que
os sonhos so representaes das liberaes de:

    anseios e medos no digeridos;
    ocorrncias no compreendidas;
    educao castradora;
    interrogaes sem resposta;
    conflitos de personalidade;

Da mesma forma que so colocados esses aspectos,
outros, negligenciados pelos estudiosos do tema, muito embora
Jung se tenha referido a eles69 , so tambm citados como
relevantes para produzir representaes onricas:

    impresses agradveis e salutares;
    sucessos e alegrias;
    aspiraes realizadas;
    desejos satisfeitos.

No texto, o Eu Superior  o mesmo esprito, que mantm
contatos fora do corpo, trazendo as impresses que surgem como
sonhos.
O texto tambm coloca como responsvel pela produo
do sonho a libido, mal direcionada ou excessivamente liberada,
que ocorre em funo do estresse, da depresso, das fobias, dos
desejos, etc.


Nota-se tambm uma confirmao da tese freudiana, na
seguinte afirmao: "Todo desejo fortemente acionado libera
do subconsciente as cargas arquivadas, que retornam ao
campo da conscincia como sonhos, recordaes,
memrias...". Os sonhos so, portanto, tambm a realizao de
desejos conscientes e inconscientes.
O texto coloca que os sonhos podem ser programados
tanto quanto extintos quando no formato de pesadelos, bastando
que, conscientemente se deseje sonhar com algo de agradvel e
positivo.
Sonhos cujas imagens de certos locais se repetem e no
so conhecidas do sonhador quando desperto, podem ser
referentes s vidas passadas. Quando a elas se referem,
provavelmente, aquele lugar foi palco de situaes vividas pelo
sonhador, em outras vidas, e ainda se encontra influenciando a
atual.
Pode-se afirmar que a tese defendida no Espiritismo, por
Allan Kardec e aps ele, compreende a viso psicolgica a
respeito dos sonhos. Os textos citados nos levam  percepo de
que a viso esprita atual compreende a viso psicolgica,
adicionando a tica do esprito. Essa viso permite a anlise
objetiva, subjetiva e espiritual. No observamos conflito de
opinio, mas acrscimo de viso. Tanto de um lado como de
outro, se  que existe antagonismo, as posies so corretas e
podem ser utilizadas na prtica clnica sem prejuzo ao paciente e
sem a necessidade de convert-lo a uma crena.
Na minha prtica clnica, observo sonhos que trazem as
duas possibilidades separadas e, s vezes, noto sonhos que se
dividem numa parte completamente simblica, arquetpica ou no,
e uma outra de cunho espiritual. Pode-se dar tratamentos distintos
a esses sonhos.
A interpretao esprita no deve ser imposta ao paciente,
pois, qualquer que seja ela, deve implicar num consenso.
Eis um campo amplo e vasto que merece estudos mais
apurados e compreensivos a respeito dos sonhos como
mensagens da alma.


Sonhos com mortos e com a
morte


Os sonhos com parentes j falecidos ou com amigos que j
morreram podero merecer interpretaes variadas a depender
do contedo do sonho. Podem ser recados dos "mortos" como
podem trazer um simbolismo ligado  necessidade de se lidar com
perdas e desapegos. Sua anlise poder tomar caminhos diversos
e, certamente, penetrar no mundo das crenas do paciente.
Elizabeth Kbler-Ross, em seu livro Sobre a Morte e o
Morrer, faz uma anlise c   riteriosa dos estados psicolgicos de
pacientes terminais diante da morte iminente. Seu trabalho deteve-
se nos aspectos conscientes sem entrar na esfera de como seriam
seus sonhos. Marie-Louise von Franz coloca que, diante da
morte, h uma certa abundncia de smbolos onricos, cuja funo
 preparar o ego desperto para a morte prxima. Muitos sonhos
trazem como smbolo onrico prefigurando a morte, um intruso ou
assaltante, em atitude de confronto, levando vantagem em suas
intenes, e, na maioria das vezes, alcanando relativo sucesso.
Nesses casos no se sonha morrendo, mas sendo vtima de uma
invaso de assalto em sua vida.
190

Jung costumava interpretar os sonhos no nvel subjetivo,
muito embora, s vezes, e em certos casos, ele usasse o mtodo
objetivo. Marie-Louise von Franz assinala70 que ele fez uma
anlise de seis sonhos de uma paciente de uma colega sua, que,
decepcionada com a interpretao objetiva que ela havia dado,
foi procur-lo. A anlise que ele fez foi a mesma dela, isto , o
falecido seu noivo que lhe falava nos sonhos era ele mesmo, a
despeito de no saber qual a interpretao de Marie-Louise von
Franz. Isso coloca, pelo menos para Jung e Marie-Louise von
Franz, a possibilidade de alguns sonhos ditos espritas serem
verdadeiros, muito embora se observe certa cautela em assegurar
essa hiptese, principalmente por parte dela. No seu livro Os
Sonhos e a Morte, p. 16, ela coloca sua dvida em relao ao
Espiritismo por considerar difcil estabelecer o que  fantasia e o
que  realidade.
Para Marie-Louise von Franz, a psiqu parece ter cincia
de que a vida  eterna, procurando, atravs dos sonhos,
tranqilizar o ego quanto  aproximao daquele momento
importante de transformao para uma outra realidade.
Os sacerdotes babilnicos acreditavam que os sonhos com
mortos eram prenncios de doenas ou morte do sonhador. Os
chineses tambm desenvolveram um sistema interpretativo para os
sonhos, correlacionando-os com doenas fsicas.
Robert C. Smith71 cita pesquisa feita num hospital em que
os pacientes que sonharam com morte e separao tiveram seus
quadros clnicos agravados. No parece haver diferenas
significativas entre os sonhos de pacientes terminais e outras
pessoas. H, de fato, sonhos que ocorrem antes da morte que



70
Os Sonhos e a Morte, p. 17.
71
Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 209.
191

parecem preparar a pessoa para o fenmeno. Esses so
excees.
Sonhar constantemente com pessoas j falecidas ,
segundo alguns espritas, um certo tipo de mediunidade. A
"presena" dos mortos nos sonhos, com a finalidade de tratar de
assuntos de seu interesse, com o fim de resgatar algo que ficou
obscuro, reflete tambm, do ponto de vista subjetivo, uma
necessidade do sonhador de libertar-se de alguma culpa em
relao quele indivduo do sonho. Quando os d      ados trazidos
pelo sonho podem ser confirmados e representam algo
desconhecido do sonhador, e que, s vezes, se referem a
terceiros, merecem uma interpretao objetiva. Nestes casos, os
sonhos so ditos espirituais. Mesmo que se interprete
objetivamente, ainda assim, eles comportam uma anlise subjetiva.
Do ponto de vista psicolgico, os sonhos com a morte so
indicadores de transformao da imagem do ego e de suas
personas.
A morte de algum, principalmente dos familiares do
sonhador, ou dele mesmo, nos sonhos, no esto necessariamente
se referindo  vida "real". Da mesma maneira o assassinato de
figuras conhecidas, at mesmo quando o sonhador  o autor do
crime, no devem ser levados de forma objetiva e direta como
sendo factveis de ocorrer. Geralmente esses sonhos sinalizam
para a necessidade do sonhador no mais considerar as figuras
arquetpicas como ameaadoras  integridade do ego. Os sonhos
que antecedem a morte, que pode vir a acontecer muito tempo
depois do sonho, s vezes anos, trazem sempre uma proposta ao
sonhador para integr-la  realidade de sua vida.
Os sonhos onde pessoas falecidas solicitam que o sonhador
ou terceiros realizem algum ritual ou dem algum recado a algum,
devem ser cuidadosamente analisados, tanto do ponto de vista
objetivo quanto subjetivo. Muito embora os rituais tenham, de
192

alguma forma, funo teraputica e sejam excelentes instrumentos
de cura, tais pedidos, quando verdadeiros, no devem se
constituir numa obrigao por parte do sonhador em satisfaz-los.
Muitas vezes o medo de uma certa "punio" ou "perseguio"
do falecido, obriga o sonhador a fazer coisas que podem coloc-
lo no ridculo. Do ponto de vista da anlise subjetiva, deve-se
verificar o vnculo entre o falecido e o sonhador, bem como o tipo
de pedido que foi feito.
Das duas anlises,  prefervel a subjetiva tendo em vista a
interferncia do sonhador, com seu sistema de crenas, na forma
como o sonho  relatado, o que pode induzir o analista a duvidar
de sua veracidade devido s interferncias do ego.
Richard Noll, em seu controvertido trabalho O Culto de
Jung, faz uma crtica a James Hall, analista junguiano, por
considerar que ele estabelece uma certa correlao entre os
sonhos e as provas de vida aps a morte. Noll afirma que a
interpretao dos sonhos seria, em Hall, uma preparao inicitica
para o "alm-tmulo", o que fortalece sua disposio em afirmar
o carter mstico da Psicologia Junguiana.
Jung dizia72 que, em certos sonhos, o sonhador se livra dos
inimigos, matando-os.




72
Obras Completas, Vol. III, par. 275.
193




Os "pesadelos"


Algumas ocorrncias do incio do sono so tidas como
pesadelos, mas, muitas vezes, no passam de fenmenos
fisiolgicos ligados aos processos gstricos, que interferem no
sono, provocando mal estar fsico com conseqncias
psicolgicas. Nunca houve nenhuma evidncia de que processos
gstricos fossem justificar o contedo e a causa dos pesadelos,
tanto quanto fossem causados por personagens demonacos.
Freqentemente a doena mental  associada aos
pesadelos, sobretudo quando se trata de esquizofrenia e psicoses
em geral. Os pesadelos no so causados pelas doenas mentais,
mas eles surgem tanto em indivduos sadios quanto nos que so
portadores de doenas mentais. Os pesadelos dos doentes
mentais so muito teis no estabelecimento de um diagnstico.
Muitos fisiologistas acreditavam, sem evidncia
comprobatria, que a m oxigenao cerebral fosse causa dos
pesadelos, at que se depararam com pacientes que tinham
apnia durante o sono e raramente relatavam pesadelos.
Porm, h uma ocorrncia que nada tem de fisiolgica nem
se trata de pesadelo, ou mau sonho, e que leva muitas pessoas ao
desespero sem saber o que est acontecendo e que lhes incute
muito medo e pavor. Trata-se da inrcia logo aps o adormecer
194

quando, em algumas pessoas, o corpo permanece rgido, sem
qualquer possibilidade de movimento e a conscincia percebe-se
desperta. Quando esse fenmeno se inicia h uma tendncia da
pessoa querer se mexer sem conseguir, levando-a ao desespero.
Quer gritar, mas a voz no sai. Quer se mexer, mas os msculos
no obedecem. A pessoa  tomada por um estado de pavor e
pnico, cujo desejo nico  levantar-se. Durante esses momentos,
s vezes, ocorrem algumas alucinaes e vises tpicas dos
estados onricos.
Esse fenmeno  o incio da separao da mente em
relao ao corpo73 .  apenas seu incio. Ir adiante sem medo  o
melhor que se tem a fazer, pois conduzir o indivduo ao estado
onrico conhecido pelo nome de sonho lcido.
Muito embora Freud tenha considerado o pesadelo como
sendo resultante de uma falha parcial no trabalho de elaborao
onrica, ou conseqncia de desejos no aceitos pelo ego,
expressando o conflito entre o desejo e a censura, sabemos que
nele residem processos de aprimoramento para o sonhador,
atravs do contato com sua sombra.
Costuma-se afirmar, pelos psiclogos da linha junguiana,
que os sonhos onde aparecem figuras do mesmo sexo do
sonhador, em atitudes aversivas, so indcios de sua sombra.
Os sonhos conflitivos, tambm chamados de pesadelos, so
ressonncia clara dos processos psquicos de seu agente.
Muitos sonhos, tidos como pesadelos, em que o sonhador
se v em situao onde geralmente est sendo perseguido,
agredido, entre a vida e a morte, ou que "monstros" querem
atingi-lo, podem ter explicaes diversas e, s vezes, se
apresentam de formas distintas. O conhecimento do analista a

73
Na linguagem esprita, o fenmeno  o chamado desdobramento ou viagem
astral, em que o perisprito, ou Modelo Organizador Biolgico, se separa do corpo
fsico.
195

respeito da psicologia dos sonhos e do Espiritismo o far
estabelecer a diferena.
Do ponto de vista psicolgico pode-se entender como uma
manifestao de um complexo ou da sombra do sonhador. Os
elementos simblicos que impem situaes aversivas ao
sonhador representam aspectos negados ou desconhecidos em
sua personalidade.
Do ponto de vista esprita, trata-se da conhecida obsesso
espiritual, em que o sonhador, em esprito, entrou em contato com
circunstncias aversivas a ele durante o sono. O resultado  a
lembrana do episdio atravs dos smbolos constantes no
inconsciente. A literatura esprita  vasta neste campo, atravs de
vrios livros psicografados ou no, onde as obsesses so
exaustivamente estudadas.
H sonhos perfeitamente distinguveis quanto a natureza

psicolgica ou espiritual, mas h outros de difcil verificao. A
forma como se apresentam geralmente  a mesma. Quando se
trata de problema de ordem espiritual, que no exclui a existncia
de problemas psicolgicos, o sonhador nem sempre se sente
fisicamente bem.  comum sentir-se cansado e descompensado.
Aos espritas, num e noutro caso, seria importante buscar a
terapia do passe, da orao e do esclarecimento. Aos que no
so espritas e nem se interessam pelos mtodos utilizados pelo
Espiritismo, o tratamento psicoterpico ser de grande valia.
H pesadelos, conhecidos pelo nome de terror noturno,
que provocam tamanha perturbao ao sonhador, que ele acorda
abruptamente, com sensaes desagradveis e, s vezes, gritando
de medo ou pavor. O acordar abrupto  seguido, no raro, de
suores e tremores que se prolongam por alguns minutos. Esse
fenmeno  muito comum em crianas e adolescentes, sendo
curvel com um bom tratamento psicoterpico. O uso de
196

medicao nem sempre  aconselhvel, pois costuma mascarar o
sintoma impedindo o conhecimento da verdadeira causa.
Do ponto de vista psicolgico, os pesadelos funcionam
como uma espcie de tratamento de choque, tentando sensibilizar,
de forma violenta, o sonhador, a fim de que ele perceba a
natureza real de seu conflito. A sombra nele expressa deixa de
ser velada e irrompe abruptamente.  uma espcie de
`eletrochoque' onrico.

Como se livrar dos "pesadelos"

Naqueles estados de incapacidade de mover o corpo,
erroneamente chamados de pesadelo, o tratamento  muito
simples. Deve-se no tentar mover o corpo, nem tampouco
chamar algum. Deve-se buscar pensar em outro local, em estar
num outro lugar da casa ou da cidade. Imediatamente a "pessoa"
se deslocar para l. O indivduo no deve temer coisa alguma.
Nada vai lhe acontecer naquele momento. A maioria das pessoas,
por desconhecimento do processo, teme que advenha a prpria
morte. No h perigo. Experimente. Ser uma sensao
indescritvel, extremamente agradvel e prazerosa, alm de dar a
voc a certeza de que no se reduz a seu prprio corpo.
Naqueles estados em que realmente est ocorrendo um
"pesadelo", isto , uma perseguio ou uma situao aversiva que
o "sonhador" porventura esteja enfrentando no sonho, as
recomendaes so as seguintes:

1. Relate seu sonho a algum, preferencialmente a seu
analista, se estiver em anlise;
2. Aps lembrar-se do pesadelo, caso no seja a hora de
levantar-se, faa-o, tome um pouco de gua e volte a
dormir;
197

3. Procure identificar no pesadelo qual o motivo de seu
pavor e tente livrar-se dele na conscincia;
4. Caso o pesadelo se repita procure a ajuda profissional
de um psiclogo;
5. Utilize-se da tcnica da dessensibilizao sistemtica74
no caso de passar a ter medo de objetos ou pessoas
retratadas nos sonhos aversivos;
6. Relembe o pesadelo e enfrente, numa sesso
teraputica, os desafios apresentados nele;
7. Durante a lembrana do pesadelo procure "pedir
ajuda" a um personagem antecipadamente criado por
voc, como um velho sbio ou guia onrico.

H dois tipos de sonhos que costumam provocar uma certa
sensao de desconforto, tpica de um pesadelo. Eles do ao
sonhador a sensao de que est caindo ou de que est voando.
A seguir descrevo os dois tipos.

Sonhar caindo

So freqentes os sonhos onde o sonhador se v caindo de
algum lugar bem alto ou para o fundo de um poo ou buraco. A
queda geralmente produz medo ou sensao de pavor.
Esses sonhos podem ter significados amplos. Primeiro,
quando se trata de uma sensao fsica, refere-se a um processo
comum e dirio em que o sonhador, ao retornar ao seu corpo
inerte pelo sono, sente o processo de entrada nele. Essa sensao
aparecer como um sonho em que se cai de algum lugar.
Segundo, pode-se pensar de forma simblica que a sensao de
queda significa a entrada no inconsciente ou o contato com algum

74
Exposio gradual aos elementos aversivos num cenrio teraputico agradvel.
198

complexo. Ainda do ponto de vista psicolgico, pode significar
um recado ao sonhador de que ele deve estar "elevado" demais,
isto , provavelmente est com um conceito muito alto sobre si
mesmo ou com idias muito acima de sua capacidade de realiz-
las. Necessita descer  conscincia, ou seja, pr os ps no cho.

Sonhar voando

So comuns os sonhos em que o sonhador se encontra
voando, subindo ou descendo, mas em plena liberdade, ou ainda
flutuando. Esse movimento ainda pode ser interpretado como um
estado de passagem, de mudana ou transformao. Numa
anlise subjetiva serve como reflexo para que o sonhador venha
manter mais contato com a realidade.
Sonhos, como pesadelos, de estar sendo sufocado, preso
num espao reduzido, ou deteriorando-se lentamente, podem ser
uma lembrana de uma situao de morte, isto , lembrana de
um perodo em que se esteve ligado ao corpo no estado de
decomposio.
Dentro do simbolismo dos sonhos, Jung coloca tambm
que os movimentos que neles ocorrem podem ter um significado
particular, de acordo com o contexto em que ocorrem. "Para a
esquerda equivale, portanto, a um movimento em direo ao
inconsciente, enquanto que o movimento para a direita 
`correto', tendo por meta a conscincia."75 Ele dizia tambm
que as funes psquicas podem ser representadas nos sonhos
por pai e filho ou me e filha. Na primeira dupla estariam as
conscientes, masculinas, e, na segunda dupla, as funes
inconscientes, femininas.


75
C. G. Jung, Obras Completas, Vol. XII, par. 166.
199

Preocupar-se com os pesadelos  mais importante do que
com os sonhos em geral. Os pesadelos sempre indicam alguma
anormalidade no sono e, por extenso, na vida do sonhador. A
grande maioria dos pesadelos diz respeito aos conflitos do
sonhador e lhe indica como resolv-los. Desprez-los  como no
valorizar um exame para a obteno de diagnstico mdico.
200




Desdobramentos e sonhos


A diferena entre estes dois fenmenos nem sempre 
perceptvel ao sonhador, tendo em vista, principalmente, sua
pouca familiaridade com o primeiro.
A diferena bsica  o uso da vontade durante o sono,
inadmissvel no sonho, m  uito embora se acredite ser possvel a
continuidade do sonho aps se ter acordado. Ouspensky dizia
que o estar desperto no  um estado isolado. Para ele o estado 
de sonho mais estar desperto, isto , o estado real  o do sonho
com a vida desperta. Gordon G. Globus76 , psiclogo americano
citado por Stanley Krippner, v o sonho e a viglia como maneiras
igualmente viveis de ser. Para ele, no fundo, a existncia  um
movimento criativo que, praticamente, se repete nas fases de
sonho e de viglia.
s vezes um desdobramento termina num sonho.
Raramente o contrrio. Muito embora h pessoas que tm
conscincia de que, no momento do sonho, esto dormindo.77


76
G. G. Globus, Dream Life, Wake Life, 1987, State University of New York Press,
Albany, Nova York-USA.
77
Blackmore (1982) cita um relato de Oliver Fox (1902) em que ele, durante o
sono, ao tomar conscincia de que sonhava, o cenrio do sonho se modificou. Ele
denominava essa ocorrncia de "sonho de conhecimento" ou "sonho translcido".
201

Os desdobramentos so mais comuns no incio do sono,
onde o indivduo no alcanou o sono profundo. s vezes, os
desdobramentos ocorrem em momentos de viglia do indivduo,
antes da entrada no sono.
As imagens e temas dos desdobramentos so mais
coerentes e ntidas que nos sonhos, onde os contedos simblicos
costumam alterar a ordem e disposio das idias. Os
desdobramentos no so um tipo de sonho vez que podem
ocorrer em estado de absoluta conscincia. Eles possuem a
capacidade de acessar informaes normalmente inacessveis 
conscincia.
H casos em que o sonhador, no meio de um sonho, toma
conscincia de que est sonhando e de que est em outro lugar,
alm de saber que est na cama. Ele no sonha que est em outro
lugar, mas ele toma conscincia de que est em outro lugar. A
dualidade da mente pode levar o sonhador a querer estar junto a
seu prprio corpo ou a ficar indeciso se continua onde se sente ou
se retorna  sua cama onde sabe que est. Essa indeciso pode
provocar um certo desconforto. No caso do sonhador resolver
retornar ao seu corpo poder ter, (e geralmente tem), dificuldade
em mov-lo. O fenmeno  conhecido por muitas pessoas, que
passam a temer o sono por tal ocorrncia inusitada, muito
semelhante  catalepsia.
Alguns desdobramentos se parecem de tal forma com um
sonho que o sonhador "acorda", v as coisas em seu quarto
diferentes, procura entender a situao, busca uma forma de
estabelecer diferenas entre o que v e o que sabe que existe,
mas, ao se deparar com algo improvvel, (como seu prprio
corpo dormindo), realmente acorda, e diz que foi um sonho.
H relatos de desdobrados que visitam ou recebem visitas
de pessoas amigas, mas elas no se lembram do contato feito
202

durante o sono, mesmo que o "sonhador" relate detalhes do
encontro.
Enquanto seja possvel verificar-se em laboratrio o
momento em que se sonha,  talvez pouco provvel que se
consiga determinar quando se est desdobrado. Seria como
querer detectar se a pessoa est consciente ou no durante o
sono, com o agravante de que a conscincia no estaria no corpo
que dorme. H, porm, estudos citados por Blackmore, em que
os sujeitos submetidos a testes, quando em desdobramento no
apresentavam os mesmos resultados das atividades do sistema
vegetativo quando durante um sonho.
Quando ocorre um sonho lcido, onde o sonhador detm a
conscincia do sono e de que est sonhando, as imagens
lembradas nem sempre permitiro uma interpretao adequada.
As imagens onricas geralmente se apresentam misturadas a
contedos remanescentes de vidas passadas ou de ocorrncias
naquele momento de sono, dificultando sua compreenso.
s vezes a volio ocorre durante parte do sonho
desaparecendo sem a percepo do sonhador. Isso se d quando
o contedo do sonho possui forte ligao com um complexo,
superando o ego onrico. Nesses casos  conveniente verificar-se
a natureza do complexo. No se deve confundir estes sonhos
com desdobramentos parciais.
Ocorreu-me, uma certa ocasio, contava cerca de 23 anos,
acordar durante o sono, porm vendo-me em outro local que no
a cama onde dormia. Vi-me na sala de minha casa, diante da
janela sem saber o que fazer. De repente uma voz, saindo da
janela, no canto da sala, falou-me convidando a dar um passeio a
fim de conhecer um local. Pensei em no ir, pois o fenmeno era
inusitado para mim. Sabia que estava dormindo. Tinha domnio do
tempo e do espao. Talvez percebendo minha indeciso disse-
me, a voz, que seria um passeio de aprendizado. Aquiesci
203

dirigindo-me  janela que ficava no quarto andar de um prdio,
que pela existncia de garagens nos andares inferiores, tinha a
altura de sete pavimentos. Confiante no dono daquela voz que me
apareceu como um homem alto, moreno e seguro, dei-lhe minha
mo. Ele ento me conduziu  rua, por cima dos prdios, at o
final dela, numa praa famosa da cidade. Mostrou-me o horizonte
escuro da noite apontando numa dada direo e disse:  hoje
vamos conhecer uma cidade espiritual onde vivem pessoas que
sofrem.  Fiquei receoso, mas me deixei conduzir. Chegamos ao
local,  frente de uma porta grande que se abriu  nossa chegada.
Entramos. Ao ver as figuras ali residentes, fui tomado de um
pavor que me fez retornar ao leito onde dormia, como se fosse
arremessado por um canho. Acordei no meio da noite, com uma
forte dor de cabea e com todas as impresses ruins que o
fenmeno proporcionou.
Noutra ocasio, estava em casa de parentes, e, antes do
almoo, por volta das treze horas de um domingo ensolarado,
resolvi deitar-me. Logo aps ter dormido, vi-me em p, ao lado
da cama. Como sabia estar fora do corpo, decidi-me por verificar
como estavam as pessoas nos outros cmodos da casa. Fui a um
dos quartos e vi algumas crianas a   ssistindo  televiso. Fui 
cozinha e vi minha cunhada dizendo aos presentes que estava com
dor de cabea. Ato contnuo, aconselhei-a a no tomar remdio.
Vi que ela, alm de no me enxergar, no me ouvia. Mas, ao seu
lado, junto ao seu ouvido, repeti para no tomar remdio. Vi
quando ela saiu da cozinha e foi a um dos quartos pegar um
remdio em um pequeno armrio.
Senti, naquele momento, necessidade de voltar ao corpo.
Fui ao quarto em que adormecera e deitei-me na cama em que
lembrava ter adormecido. No vi meu corpo. Este fato sempre
me chamou a ateno quando os casos de desdobramentos
comearam a ocorrer comigo. Aps deitar-me, no consegui
204

levantar, mesmo querendo faz-lo e sabendo que estava
desdobrado. Pensei que havia "morrido". Tentei repetidas vezes
sem sucesso. Apelei para um processo que sempre uso em
situaes difceis: comecei a orar solicitando ajuda para resolver
aquela situao inusitada. Imediatamente, aps o incio de minha
orao, percebi com mais clareza o ambiente, pois a viso nesses
momentos  geralmente embaada ou turva. Vi que meu corpo
estava deitado numa posio diferente daquela que tentava
encaixar o outro corpo, o espiritual (perisprito). Virei-me,
encaixei um corpo no outro, e consegui acordar. Aps levantar,
pude constatar os fatos vistos fora do corpo e certifiquei-me de
que estavam corretos. Inclusive a dor de cabea da cunhada e sua
busca por um comprimido, depois de ficar indecisa entre atender
a uma "voz" interior que dizia para que no tomasse remdio e
sua vontade de faz-lo, como o fez.
Comigo ocorreram dezenas de casos de desdobramentos
espontneos em que a dissociao dos corpos foi o ponto alto,
onde minha conscincia desperta se viu distante do local em que o
corpo dormia. Outras vezes sentia o momento exato em que a
separao ocorria. Essa sensao  indescritvel. Estar saindo do
corpo fsico e poder dirigir-se a outro local tem sido uma das
experincias mais gratificantes de minha vida.
A literatura cientfica sobre desdobramentos ou projees
astrais como tambm  conhecido o fenmeno  muito vasta.
Aconselho a leitura do excelente livro da Dra. Ph. D. Susan
Blackmore, Experincias Fora do Corpo e os livros do Dr.
Waldo Vieira, Projeciologia e Projees da Conscincia.
Neste ltimo livro citado, ele coloca as seguintes
caractersticas diferenciais entre sonho e desprendimento
consciente, que ele chama de projeo:
205

1. No sonho ocorre uma atividade mental habitual; na
projeo, a atividade mental transcende em riqueza a
prpria viglia.
2. No sonho, o raciocnio integral no atua com
facilidade; na projeo, mantm-se igual e, no raro,
expande-se alm das possibilidades ordinrias da
viglia.
3. No sonho, a pessoa no determina as imagens
onricas  vontade, mas atua ao modo de espectador
ou semi-espectador de um espetculo que se
desenrola  revelia, sem nenhum controle da sua
mente; o projetor dirige os atos do desprendimento e
dispe de capacidade decisria como na existncia
humana.
4. No sonho, a faculdade crtica fica ausente e se aceita
os acontecimentos e situaes mais absurdas com
naturalidade, porque a conscincia no est
suficientemente alerta para despertar o sentido da
ateno; na projeo, o juzo crtico se faz sentir
sempre.
5. No sonho, no se conserva a lembrana seqencial
das imagens; o projetor pode recordar as
ocorrncias integrais da projeo em todos os
pormenores.
6. No sonho, a auto-sugesto no funciona na
coordenao das imagens; na projeo pode
determinar atos e acontecimentos extrafsicos.
7. No sonho, a pessoa jamais comea a sonhar desde a
viglia; na projeo h ocorrncias com a
manuteno da conscincia absoluta da viglia,
antes, durante e depois do processo, sem soluo de
continuidade.
8. No sonho, no h impresses de uma sada para fora
do fsico; na projeo, a experincia da decolagem 
fascinante e nica.
206

9.  muito difcil prolongar o sonho; na projeo,
torna-se possvel prolongar a estada fora do fsico.
10. No sonho, as excitaes sensoriais agem na
produo de fantasias; na projeo, pequenos
toques no fsico imobilizado provocam o ato de
interiorizao do psicossoma com a sensao
inconfundvel de trao do cordo de prata.
11. O sonho no apresenta o conjunto de fatores
psicolgicos e extrafsicos comuns  projeo
consciente como: grau de conscincia, sentido de
liberdade, bem-estar, clareza mental, expanso de
poder, deslizamento, levitao e, s vezes, at
euforia.
12. No sonho, as imagens se apresentam deformadas e
irreais; nas projees, as imagens no se deformam.
13. No sonho, as imagens so de intensidade inferior s
da viglia; na projeo, alcanam a maior
intensidade de todos os estados de conscincia.
14. O sonho, embora com imagens mais fracas, tem
lembranas mais fortes e fceis, por ocorrerem quase
sempre no estado consciencial perto da
coincidncia 78 ou no, pelo menos prximo ao fsico;
a projeo, conquanto de imagens mais fortes, tem
lembranas ou rememoraes mais fracas e
evanescentes, por se darem  distncia e sem a
influncia direta do crebro fsico. Essa regra  um
dos notveis paradoxos da projeo consciente:
quanto mais prolongada seja a experincia e mais
`distante' a excurso do psicossoma ou do corpo
mental, mais difcil ser a rememorao.

Outra diferena comumente notada entre os que
experimentam desdobramentos ou experincias fora do corpo  o

78
Encontro dos dois corpos (fsico e perispiritual).
207

u
que concerne  l minosidade dos objetos. Nos sonhos quando
no h nenhum destaque num objeto especfico, as coisas tm
uma luminosidade normal ou baixa. Nos desdobramentos os
objetos "parecem" possuir luz prpria. As coisas so mais
iluminadas. O ambiente tem luz prpria, diferente da luz nos
sonhos e da luz do dia ou mesmo da luz artificial.
Segundo Blackmore, as sensaes de queda ou de descida
bruscas que, s vezes, ocorrem em sonhos, podem ser atribudas
aos retornos precipitados da alma ao corpo, motivados por
"perseguies" astrais.
Pode-se afirmar que, em cerca de um tero daquilo que
chamamos de sonho, ocorrem experincias de desdobramento.
As lembranas de experincias fora do corpo so muito
semelhantes s imagens onricas simblicas. Em sesses de terapia
costumamos separar aqueles sonhos que no so simblicos dos
outros.
H pessoas que se vem em situaes que podem optar
entre acordar ou continuar sonhando. Algumas at conseguem
concluir que esto sonhando, portanto prosseguem no sono. Seria
bom que o indivduo buscasse prosseguir no "sonho", mas de
forma voluntria, isto , podendo escolher o que vai acontecer a
partir daquele momento que tomou conscincia. At nos casos de
incapacidade de mover o corpo, seria conveniente que o
indivduo tentasse ir a algum lugar conhecido. Quando eu posso
optar pelo que fazer durante o sono, imagino estar em
determinado lugar. Imediatamente me vejo naquele local.
Os chamados sonhos mtuos, em que dois ou mais
sonhadores sonham ao mesmo tempo, com o mesmo lugar,
fazendo a mesma coisa, podem ser tomados como encontros
astrais que se assemelham a desdobramentos. As pessoas sonham
a mesma coisa porque estavam fazendo a mesma coisa enquanto
208

dormiam. Existem tcnicas de grupo que favorecem o sonho
compartilhado, como tambm  chamado o sonho mtuo.
209




Sonhos na Bblia


Os hebreus, povo que deu origem  saga constante na
Bblia, tinham nos sonhos uma forma de comunicao entre Deus
e o ser humano. O Antigo Testamento, primeira parte da Bblia,
est repleto de sonhos e vises onde se acreditava que Deus
estabelecia comunicao com os condutores, profetas e adivinhos
daquela poca.
 em Gnesis captulo 20, versculo 3, que o tema surge
pela primeira vez: "Deus, porm, veio a Abimeleque, em
sonhos, de noite, e disse-lhe:  Vais ser punido de morte por
causa da mulher que tomaste; porque ela tem marido."
Verificamos, no s por esse versculo, mas em toda a Bblia, que
os sonhos eram tidos como sinais de comunicao entre o ser
humano e Deus, servindo como forma de aviso, advertncia ou
concordncia, ou ainda como recompensa quele que muito
trabalhava e, como paga, sonhava com seu Deus instruindo-o.
 famoso o sonho de Jac constante em Gnesis, captulo
28, versculo 12: "E sonhou: eis posta na terra uma escada,
cujo topo atingia o cu; e os anjos de Deus subiam e desciam
por ela."  nesse sonho que ele recebe instrues sobre seu
destino e sua proteo divina. Novamente o sonho  tido como
premonitrio e denota proteo.
210

 na histria de Jos, filho de Jac, que os sonhos tm
importncia decisiva em sua vida e na de todo um povo.  atravs
dos sonhos e de suas interpretaes precisas que ele consegue
guiar-se e definir os rumos dos egpcios. Do captulo 37 ao 50,
em Gnesis, pode-se conhecer toda a histria de Jos e de como
ele interpretava profeticamente os sonhos. Sua forma de
interpret-los no diferia do conceito divinatrio que se tinha dos
sonhos, porm, ele tinha uma certa percepo precisa de seus
significados.
, porm, o profeta Jeremias, no captulo 23, versculo 32,
de seu livro, quem inicia advertncias contra os sonhos e suas
interpretaes. Ele vai de encontro s falsas interpretaes, bem
como aos sonhos, colocando-os na mesma linha dos falsos
agouros.
No  diferente, como consta no Antigo Testamento, a
forma como os hebreus lidavam com os sonhos, no Novo
Testamento. Em ambas as pocas, isto , antes e depois de
Cristo, os sonhos tinham o papel de receber comunicados divinos,
informaes e advertncias quanto ao futuro. Os intrpretes
continuavam a existir dentro da linha proftica pessoal e, s vezes,
coletiva.
A trajetria da vida de Jesus Cristo  toda permeada por
sonhos confirmatrios, profticos, de avisos e, cuja interpretao
se tornou decisiva para o desfecho que sua vida teve.
No se pode dizer que essa percepo religiosa, bblica,
dos sonhos, est de todo afastada na anlise contempornea. A
tradio cultural  muito forte e exerce influncia arquetpica sobre
todos que se encontrem trabalhando com os sonhos. H uma
tendncia, por esse motivo, de se buscar uma teleologia proftica
na anlise dos sonhos, estabelecendo, sem prejuzo real, um vis
interpretativo. De qualquer forma, como nas outras culturas,
211

prevalece a anlise dos sonhos como um fenmeno de
interveno externa  conscincia.
212




Sonhos prospectivos


Os sonhos apontam caminhos e nos conduzem a uma
percepo de fatos que esto por acontecer se continuarmos a
proceder da mesma forma que estamos fazendo. Indicam um
desenvolvimento futuro da vida do sonhador, em aspectos
particulares e de forma geral, caso as coisas continuem como
esto. Quando o sonhador estabelece alguma atitude de mudana
em sua vida, provavelmente haver novo sonho, mantendo o
mesmo dilogo, agora incentivado pela resposta do ego desperto.
Jung coloca79 que a funo prospectiva  uma antecipao,
surgida no inconsciente, de futuras atividades conscientes, uma
espcie de exerccio preparatrio ou um esboo preliminar, um
plano traado antecipadamente. Jung preferia cham-los de
prognsticos do que de profticos, pois comparava essa funo
como um prognstico mdico ou meteorolgico.
Essa condio dos sonhos geralmente leva alguns
pesquisadores a releg-la a um plano desprezvel por confundi-la
com a antiga prtica mstica e imediatista de lidar com os sonhos,
ditos profticos. A possibilidade dos sonhos alcanarem o futuro
insere-se na categoria dos atributos do inconsciente. Pela sua

79
Obras Completas, Vol. VIII, par. 493.
213

condio de conter elementos da prpria histria da humanidade,
com muito mais propriedade, consegue penetrar em
probabilidades maiores que o senso comum, pertencente 
conscincia.
O estudo da prospeco nos sonhos corresponde  imerso
do saber humano em conhecimentos avanados e, de certa forma,
impertinentes e incmodos, pela exclusividade com que a
conscincia trata de seus assuntos.
214




Sonhos erticos


A linguagem dos sonhos no deve ser interpretada de forma
concreta, sobretudo aqueles que trazem imagens onricas sexuais.
A linguagem sexual  de natureza arcaica, cheia de analogias, sem
necessariamente coincidir, todas as vezes, com um contedo
sexual verdadeiro.80
A maioria dos sonhos erticos apresenta aspectos da
sexualidade do sonhador que necessitam de uma melhor
percepo e orientao do ego vgil. Eles so comuns e, s vezes,
deixam o sonhador com uma sensao de culpa, principalmente
quando causam bem estar. H, porm, situaes onricas to reais
que provocam no sonhador sensaes semelhantes a uma relao
sexual, o que tende a aumentar sua libido nesse campo.
H estudos sobre a vinculao da atividade sexual do
sonhador imediatamente anterior ao sono, com seus sonhos. Foi
verificada correlao entre a atividade sexual anterior ao sono e o
tipo de sonho, porm sem qualquer preponderncia a outras
atividades normais. Os desejos sexuais desempenham um papel
relevante na atividade onrica tanto quanto os outros desejos do
sonhador. A fome, a ansiedade, a sede, a necessidade de

80
C. G. Jung, Obras Completas, Vol. VIII, par. 506.
215

descanso, o desejo de poder, etc., desempenham idntica
influncia nos processos onricos, salvo quando o sonhador lhes
atribui uma particular importncia especfica em sua vida.
O sonhador deve sempre contar seu sonho ertico a
algum de confiana a fim de diminuir a tenso por ele provocada.
Deve no ter vergonha de falar o que houve no sonho, pois se
tratam de smbolos e como tais devem ser vistos. Sonhar fazendo
sexo com algum no se refere  pessoa real, mas  imagem que
se tem dela.
Do ponto de vista psicolgico, os sonhos erticos
geralmente representam tentativas de diminuir a distncia
emocional entre os que dessa forma se relacionam nas imagens
onricas. Denotam unio e transformao em curso. s v       ezes,
referem-se a uma mudana na relao transferencial.
s vezes podem se dar pela falta de atividade sexual do
sonhador ou pela mesma atividade noturna.
Nem todo sonho ertico diz respeito  vida sexual do
sonhador. Jung opinava81 que a fantasia ertica poderia ocorrer na
relao transferencial para preencher o vazio entre o analista e o
paciente quando no existissem pontos comuns entre eles. Da
mesma forma, o sonho ertico poder estar preenchendo um
vazio na relao inconsciente entre analista e paciente.
Na adolescncia ocorrem situaes em que o sonhador 
levado ao orgasmo durante o sono. Isso no deve preocup-lo. O
organismo est em fase de intensa atividade hormonal, o que pode
provocar aquela reao fisiolgica durante um sonho, cujas
imagens apresentem contedo ertico.
No seria apenas a represso da libido o que provocaria
um sonho ertico.  certo que toda represso provoca a
necessidade de uma conseqente liberao de energia, porm a

81
Quinta Conferncia de Tavistock, Vol. XVIII/1, par. 331.
216

libido represada poder acarretar um sonho ertico tanto quanto
uma necessidade de estabelecer um vnculo mais ntimo com algo
ou algum.
Sonhos onde partes erticas do corpo se apresentem nuas
podem significar uma certa represso do sonhador em relao 
sua sexualidade.
 muito comum o surgimento de smbolos ou temas
religiosos ao lado de imagens erticas nos sonhos. Isso pode se
dever ao mecanismo da represso face ao papel castrador da
religio como tambm  ligao existente, nos primrdios da
humanidade, entre as duas temticas pela conotao sagrada que
se atribua ao sexo.
s vezes o erotismo excessivo nos sonhos pode significar
uma obsesso espiritual na rea do chakra gensico. O sonhador
pode estar sendo vtima de espritos perturbados e perturbadores,
que tentam submet-lo ao vcio do sexo durante o sono.

Sonhos incestuosos

A temtica do incesto  antiqussima na Humanidade. Nas
sociedades tribais primitivas era prtica comum e no se constitua
um problema de ordem moral como hoje. Sua passagem para
essa conotao se deu lentamente em todas as culturas. As
imagens incestuosas do ego onrico no devem ser tidas
necessariamente com o mesmo carter moral do ego desperto.
Geralmente demonstram uma necessidade de assimilao por
parte do ego desperto de atributos especficos do parceiro do
contato sexual, no seu sentido arquetpico. Esses sonhos podem
estar retratando, para a esfera da conscincia pessoal, uma certa
influncia do complexo correspondente (materno ou paterno).
217

Sonhos homo-erticos

 muito comum, mais do que se imagina, os sonhos
apresentarem situaes claras de homo-erotismo sem que o
sonhador, conscientemente declare ou tenha tido qualquer
comportamento que as justifique. Muitas vezes as cenas se
processam com personagens familiares, parentes consangneos,
do sonhador e, s vezes, com o prprio terapeuta do mesmo
sexo, sem que a transferncia tenha essa conotao consciente.
Os sonhos que apresentam imagens homo-erticas, em que
o sonhador se encontra em atitude mais ntima com uma pessoa
do mesmo sexo ou na prtica de um ato sexual ou algo que se lhe
assemelhe, poder estar significando:

    uma necessidade de uma identidade maior com aquele
personagem;
    uma excessiva identidade com aquele personagem;
    a percepo de uma tendncia homossexual;
    um deslocamento do arqutipo nima/nimus.

Os sonhos homo-erticos trazem aspectos  vida
consciente referentes  percepo da relao entre o ego onrico
e o Self. O mito de Narciso,82 revela-nos a paixo dele pela
prpria imago, sombra, sob a influncia de sua nima. Nesses
sonhos, o ego vgil parece estar  procura do si-mesmo, com
quem intensamente busca uma integrao, impossvel no campo
desperto.
Tenho verificado que, em muitos sonhos homo-erticos de
pacientes homossexuais, surgem personagens ou locais ligados 
religio,  semelhana dos sonhos erticos em geral. No casos de

82
Junito Brando, Mitologia Grega, Vol. II, p. 173, Vozes, 1995.
218

homossexuais, creio haver uma forte semelhana das figuras
onricas e dos enredos dos sonhos, com a ligao consistente que
tm com a me.  comum o homossexual ter uma ligao muito
forte com sua me, cuja representao ocorre nos sonhos homo-
erticos.
H estudos83 em que se detectou diferenas significativas
entre sonhos de homossexuais, transexuais e heterossexuais, onde
seus relatos apresentavam aspectos referentes ao dia-a-dia,
porm sem qualquer modificao inerente  preferncia sexual.
Os sonhos onde o sonhador esteja mantendo relaes
sexuais podem significar uma tentativa de mostrar ao ego
desperto o que o atrai e que se encontra representado na figura
do parceiro. No caso das relaes homo-erticas, da mesma
forma, podem estar mostrando aquilo que complementaria o ego
desperto.




83
Stanley Krippner, Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 128.
219




A srie de sonhos


Muitos sonhos podem ser considerados correlacionados
entre si ou uma repetio de anteriores. Os sonhos em srie
assemelham-se a uma histria em captulos que se alteram em
funo da audincia do ego desperto.
s vezes eles se transformam numa cadeia evolutiva dos
aspectos que envolvem as transformaes do sonhador. A
evoluo de seu quadro poder estar representada numa srie de
sonhos. Ou ainda, o aprofundamento das investigaes do
inconsciente poder estar representado numa srie de sonhos,
cujos smbolos vo se tornando menos indistintos e mais claros 
conscincia.
Os sonhos podem ser parte de uma srie que pode ter seu
prprio contexto. Um nico sonho pode mostrar aspectos
importantes, porm, uma srie dir sempre algo mais. Nessa srie
os dados pessoais sero irrelevantes. Em srie, os sonhos podem
mostrar mais claramente um complexo e sua rede de ramificaes
no inconsciente. O ego onrico poder, na srie, apresentar-se em
atitudes que sugerem uma seqncia ativa ou passiva em relao
ao confronto com o inconsciente. A srie poder, tambm, indicar
a despotencializao de um complexo, dependendo das imagens
onricas apresentadas.
220

Pode-se, e os resultados certamente traro bons insights,
reunir sonhos diferentes e extrair os elementos comuns de
situaes semelhantes, cujo contedo emocional parea ao
sonhador correlacionado com uma mesma causalidade.
221




Uma anlise segundo a
Gestalt-Terapia


Assim como Freud considerava o sonho como a via real
para o inconsciente, Fritz Perls, um dos pais da Gestalt-Terapia, o
considerava como `uma via real para a integrao'. Para ele, o
sonho ocorre com a inteno, o trabalho ou a deliberao do
sonhador.
No seu trabalho com os sonhos, que considerava algo
muito srio e aconselhava que se fizesse em conjunto com outra
pessoa, ele sugeria que se faa sem interpretaes ou
interferncias dos rgos de pensar.
Ele pedia que o paciente contasse seu sonho como uma
estria  algo que lhe aconteceu  e, em seguida, que escolhesse
um fragmento do sonho e o repetisse no presente do indicativo,
como se estivesse sonhando naquele momento.
Ele questionava se o paciente estava vendo o sonho. Caso
negativo, ele pedia que o paciente repetisse o fragmento do sonho
at que pudesse v-lo, isto , no apenas o recordasse. Caso
positivo, ele pedia que seu paciente psicodramatize seu sonho,
como se fosse seu encenador, que ele representasse o sonho
(acting out). Dessa forma o sonhador conversaria com cada
222

personagem do sonho, ou do fragmento de sonho, representando
cada um deles, inclusive aqueles que surgissem no momento da
sesso, at que houvesse uma ausncia de disputa entre o
sonhador e os personagens do sonho ou da representao. Ele
pretendia com isso uma integrao entre o sonhador e as partes
fragmentrias de seu eu, expressas no sonho. Com isso ele
demonstrava que todas as partes diferentes, ou qualquer parte de
um sonho, so aspectos da prpria pessoa, como projees do
seu eu. Os aspectos incompatveis e contraditrios, porventura
existentes num sonho, devem confrontar-se at chegar "a um
entendimento e a (...) uma apreciao das diferenas."
Sobre a anlise freudiana dos sonhos, ele diz: "a
abordagem psicanaltica de um sonho  convert-lo num jogo
intelectual por interpretaes e enunciados fixos, pseudo-
simblicos: isso  sexual, o chifre  um smbolo flico, a vaca
 o smbolo materno, etc. Mas no vamos muito longe atravs
da interpretao."
Para a maioria dos psiclogos dessa psicoterapia, os
sonhos so vistos como elementos de auxlio  organizao e
estruturao das informaes. Os elementos do sonho
necessariamente se relacionaro com algo "ainda em aberto" na
mente.
Fritz Perls presentifica o sonho buscando fazer com que
seu paciente faa associaes visualizando, no momento da
terapia, as partes mais significativas dele. Ele costumava dizer s
pessoas que tm dificuldade em lembrar-se deles: "pergunte a
seus sonhos por que no consegue se lembrar deles". Ele criou
uma tcnica para a interpretao dos s      onhos que consistia no
seguinte:
"Pegue duas cadeiras e coloque-as uma em frente da
outra. Sente-se em uma delas e imagine que seu sonho esteja
sentado na outra. Pergunte ao sonho por que no consegue
223

compreend-lo e depois v para a outra cadeira e agora,
como se fosse o sonho, responda a voc mesmo. Mude de
cadeira  medida que for perguntando e respondendo s
questes.
O processo pode demorar algum tempo, mas, ao final,
voc (como o sonho) emitir uma frase que o lembrar de
alguma coisa. Quando isso acontecer, a inteno do sonho
ser claramente revelada."
Pode-se notar que a Gestalt-Terapia aproveita-se do
material dos sonhos como um fenmeno real da vida do paciente,
utilizando-se de seus elementos constituintes para a busca da
totalidade do indivduo. As interpretaes tanto quanto as
associaes ocorrem por conta do sonhador, sem a orientao do
analista. A tcnica se baseia na representao dos complexos, o
que contribui para o aumento da percepo consciente deles em
benefcio do sonhador. H crticas de junguianos sobre o risco
dessa tcnica, considerando essa forma de estruturao do
inconsciente indesejvel.84
No mtodo gestltico, o sonhador d um sumrio do sonho
e  convidado a estabelecer um dilogo com cada um dos seus
elementos - animados ou inanimados -, os quais so tidos como
representaes dos vrios aspectos do Self. Perls considerou que
cada um desses elementos significa uma tarefa emocional
inacabada que restou do passado.
O trabalho com os sonhos, na Gestalt-Terapia, parte da
convico freudiana de que os sonhos expressam um significado
psicolgico. Porm, tambm est prximo do Budismo em alguns
aspectos. Por exemplo, Perls insiste que, o contedo revelado
pelos sonhos no pode ser fragmentado dentro de um modelo de
experincia subjetivo/objetivo. E h uma outra similaridade: o

84
James Hall, Jung e a Interpretao dos Sonhos, p. 35.
224

trabalho com os sonhos, tanto na Gestalt-Terapia como na yoga
tibetana,  mais experiencial do que analtico.
225




Uma anlise segundo a
Psicossntese                                         85




Conforme assinala Rossi (1972), os sonhos apresentam
geralmente aspectos importantes da personalidade, que podem
estar em processo de mudana, denotados na expresso onrica
que experiencie dois ou mais estados diferentes. Para ele a
individualidade  expressa nos sonhos como algo exclusivo,
singular, estranho ou idiossincrtico. Uma srie de sonhos pode
revelar o desenvolvimento psicolgico da personalidade do
sonhador. Eles esto sempre trazendo ou r    etratando diferentes
aspectos da conscincia em seu desenvolvimento psquico.
Observamos que a anlise dos sonhos na psicossntese se
faz de forma prospectiva e raramente redutiva. Prefere-se
considerar os sonhos como sinalizadores do processo em
desenvolvimento e no como apontadores de causas passadas
dos conflitos atuais. Eles so tidos mais como confirmatrios do
que como mensageiros do Self para o ego. A preocupao do
analista consiste em identificar os aspectos referentes s

85
Citado por Rossi, Gerard (1964) define a psicossntese como "a integrao e
expresso harmnica da totalidade da nossa natureza humana - fsica, emocional,
mental e espiritual".
226

transformaes do paciente mais do que em entender cada
smbolo dos sonhos. A viso  macro, global e no particular.
Quando os sonhos trazem aspectos envolvendo a repetio
das atividades rotineiras dirias,  sinal de que no est havendo
uma mobilizao interna no sentido do desenvolvimento
psicolgico da personalidade do sonhador. Para Rossi isso
significa um boicote do ego desperto em relao ao processo de
desenvolvimento, no permitindo os sonhos prospectivos que
daro sinais das mudanas. Para tanto os sonhos devem
apresentar imagens onricas do sonhador em intensa atividade a
fim de integrar o novo.
Para ele a psicossntese, nos sonhos, se manifesta na
sensao do sonhador em lidar ativamente com as foras
autnomas do inconsciente. Ele explica a psicossntese como:
"uma interao ativa entre as foras autnomas,
manifestada em sonhos e fantasias e que possui um efeito
formativo na criao da nova identidade."86
As mudanas de comportamento ou atitudes quer do
sonhador ou de outros personagens, nos sonhos, so encaradas
como sendo sinais da alterao de identidade dele. E, quando os
personagens so seus familiares, significa o rompimento de
identificao com aqueles parentes.
Para ele  fundamental entrar-se em contato com o que 
autnomo, inconsciente, e passar a dirigir o processo de
desenvolvimento da personalidade. Para isso, por vezes, usa a
tcnica junguiana da imaginao ativa. Alm dela, ele costumava
dar continuidade a um sonho na terapia a fim de encontrar novas
formas de mudana de identidade do eu desperto.




86
Os sonhos e o desenvolvimento da personalidade, P. 195.
227




Uma viso Transpessoal


Embora admitindo a existncia de sono sem sonhos, a
abordagem transpessoal vai incluir o sonho como algo que ocorre
num estado alterado de conscincia.87
A viso transpessoal dos sonhos no despreza as
abordagens mltiplas dos vrios campos do saber humano,
incluindo os enfoques cientficos, filosficos e religiosos. Sua
psicoterapia compreende todas as formas de trabalho teraputico.
O significado mais apropriado aos smbolos onricos ser aquele
trazido pelo prprio sonhador, com nfase no aspecto liberador
de sua interpretao.
Muito embora a abordagem gestltica seja utilizada, a
junguiana, da amplificao dos sonhos, por sua compreenso
abrangente,  muito valorizada no enfoque transpessoal. Algumas
vezes aconselha-se a utilizao de ambas em determinada
seqncia.
Wilber (1990), um dos tericos da Psicologia
Transpessoal, elaborou o quadro, que parcialmente reproduzimos
a seguir, sobre os nveis de conscincia e os sonhos, o que nos d

87
Para Wilber (1990) os sonhos so uma ntima indicao simblica dos aspectos
do universo com os quais j no estamos identificados. O material com que se
produzem os sonhos surge onde h alienao do universo.
228

uma idia de sua viso sobre eles, bem como uma compreenso
extensa do que a Psicologia Transpessoal prope para o estudo
do significado dos sonhos.

NVEL                  SONHOS                    NECESSIDADES
Sombra         Pesadelos, sombra simblica, Necessidade neurtica:
aspectos malvolos, sombra manipulao do poder,
projetada.                       e          sexualizao
obsessivo-compulsiva.
Ego            Remanescentes        do     dia, Necessidade de uma
Gestalten            ambientais auto-imagem acurada e
inconcludas, psicodinmica.     aceitvel. Necessidades
bsicas.
Bio-social     Refletem      convenes     da Bio-socializao      de
sociedade.                       necessidades
existenciais.
Existencial    Fundo de quadro ambiental no Emergncia               de
convencional, sonhos de morte, metanecessidades,
fatores    perinatais,   sonhos necessidade de resistir
ontogenticos.                   ao tempo e de existir
(espao) compensao
das represses.
Transpessoal   Remanescentes da histria Satisfao                 das
filogentica,    encarnacional, metasnecessidades,
arquetpica,      sonhos     de elaborao arquetpica,
percepo       extra-sensorial, relao transindividual,
sonhos translcidos.             evitao da mente.


Na viso transpessoal, inconsciente coletivo e arqutipo so
dois conceitos que permitiram expandir a significao dos sonhos
do nvel pessoal para o transpessoal, coletivo ou individual.
Entre as formas no-interpretativas de trabalhar com os
sonhos, a abordagem transpessoal v positivamente a inovadora
direo tcnica dada pela Gestalt-Terapia.
A Psicologia Transpessoal considera que da atividade
onrica ordinria so obtidos dados muito teis  compreenso
229

dos processos psicolgicos, os quais contribuem enormemente
para a psicoterapia.
No entanto, apoiando-se em descobertas cientficas na rea
da Parapsicologia, a Psicologia Transpessoal leva em conta a
existncia de outras categorias de sonhos. Tais sonhos referem-se
aos eventos psi (telepatia, clarividncia e precognio) onricos.
Segundo Holzer (l976), os sonhos paranormais autnticos
constituem por si mesmo mensagens que no requerem
interpretaes.
Jung admitiu a possibilidade de que os sonhos contenham
informaes desconhecidas do ego vgil, baseando-se na idia de
que o inconsciente se manifesta nos sonhos. "Qualificou os
fenmenos de percepo extra-sensorial, ou fenmenos psi,
como sincronsticos."
Para Hall (l985), os sonhos de eventos sincronsticos,
quando so notados, devem ser tratados na mesma base de
outros materiais psicodinmicos, mas com particular nfase sobre
o motivo pelo qual o inconsciente usou a sincronicidade e sobre o
que quis chamar a ateno. Nunca se deve "rechaar" a
sicronicidade nem lhe atribuir valor excessivo, pois isso poder
distorcer a estrutura da anlise.
Na abordagem transpessoal da conscincia onrica tambm
podem ser includos os chamados "sonhos lcidos" (Tart, l969).
Trata-se de experincia na qual o ego onrico sabe que est
sonhando e tem certo controle sobre o contedo do sonho.
Segundo Ullman (l985), algumas pessoas podem ainda dar
um passo adicional e usar a experincia do "sonho lcido" como
ponto de partida para um "teste fora do campo"; sentem que
esto se afastando do corpo fsico e podem se ver dormindo
tranqilamente.
Para Holzer (l976), esses sonhos de OBE (Out-of-the-
Body Experience) no podem ser tratados psicologicamente ou
230

atravs de anlise dos smbolos, porque, no caso, as pessoas
realmente vivenciaram claramente aquilo que dizem ter
experimentado.
Tart tambm fala dos high dream, que define como:
"Uma experincia que ocorre durante o sono, na qual
voc se encontra em outro mundo, o mundo do sonho, e onde
voc reconhece que est em estado alterado de conscincia, o
qual  similar, porm no necessariamente idntico, ao high
induzido por um psicodlico." O high dream se assemelha ao
sonho lcido.
Para Williams (l980), alguns sonhos podem ser trabalhados
como transpessoais. So os que carregam, no seu contedo,
material no criado pelo ego ou pela escolha consciente da
personalidade.
De acordo com Williams, as experincias transpessoais
onricas podem vir de dentro da psiqu e da personalidade, tal
como de parte do sonho como produto de uma "fonte" alm do
ego ou, em termo junguiano, do Self. Tambm podem vir do lado
de fora e serem vividas e experienciadas como fenmenos
psquicos e realidades transcendentes.
A identificao dos sonhos transpessoais tambm pode ser
estabelecida atravs dos seus smbolos. Os sonhos que refletem
experincias superiores so repletos do simbolismo universal do
Self e, em razo disso, de energia transcendente.
Esses smbolos muitas vezes oferecem indicaes de alguns
aspectos da personalidade do sonhador, geralmente um aspecto
espiritual que precisa ser desenvolvido. Por exemplo, sonhar com
uma parede, uma porta fechada, uma estrada retrocedendo ou
escalar montanhas, precipitar-se em abismo, vastas paisagens e
outros, so smbolos que podem oferecer indcios transpessoais
(Mintz, l983, e Williams, l980).
231

Freqentemente, esses sonhos de aspectos transcendentes,
evocam no sonhador sentimentos de reverncia em relao aos
seus contedos. Trabalhar com seus significados promove uma
transformao significativa na vida, numa direo curativa e
benfica.
Welwood, citado e adaptado por June Singer88 , coloca a
existncia de quatro nveis de processo de trabalho com os
sonhos: o contextual, o pessoal, o transpessoal e o holstico.
Apesar dos esforos multidisciplinares na direo da
compreenso dos sonhos, entendemos que toda cautela 
necessria ao lidar com imagens onricas. A Psicologia
Transpessoal se prope a acrescentar novos esclarecimentos ao
problema dos sonhos, por expandir os limites existentes no nosso
entendimento acerca do crebro e da mente, da vida consciente e
inconsciente, da vida pessoal e transpessoal.




88
Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 70.
232




Sonhos no processo de
individuao


Para Jung, "a individuao, a realizao prpria, no 
apenas um problema espiritual, e sim o problema geral da
vida."89 Sem sombra de dvida esse  o grande objetivo do
sonhar.  uma tendncia arquetpica do Self, o processo de
diferenciao do coletivo. O sonho est a servio desse processo.
Por mais fragmentrio que seja, ele representa uma via de acesso
s etapas daquele processo.
Os sonhos referentes ao processo de individuao
geralmente ocorrem em sries conectadas entre si, cuja
interpretao isolada seria um equvoco. Eles trazem, inicialmente,
a conscincia e o inconsciente em integrao, sendo este
alcanando aquela, isto , contedos inconscientes tornando-se
conscientes. Mostram, muitas vezes, uma situao de crise (ou
leso do ego) e incio de um processo penoso que envolve o
confronto entre o ego e sua sombra. Figuras bizarras e
ameaadoras so exemplos dos receios do ego em continuar esse
processo. Smbolos da resistncia ao confronto e dos


89
C. G. Jung, Obras Completas, Vol. XII, par. 163.
233

mecanismos de defesa do ego, surgiro como confirmao do
que  negado por ele, centro da conscincia que, historicamente,
tende a desenvolver-se separada do inconsciente. Figuras do sexo
oposto ao sonhador tendem a surgir como uma necessidade de
integrao com a polarizao oposta  conscincia.
Na srie de sonhos do processo de individuao no  raro
o surgimento de escadas como a simbolizar os degraus em que se
d o processo de transformao e suas peripcias. s vezes, a
escada possui sete degraus, numa referncia aos processos
alqumicos antigos.
Nos sonhos ocorrem imagens de natureza arquetpica que
surgem como a descrever o processo de desenvolvimento da
personalidade, muitas vezes mostrando a tomada de conscincia
da aproximao do ego com o Self. Para alcanar esse fim, o
inconsciente produz sonhos mostrando a necessidade de lidar
com contedos do inconsciente pessoal primeiro, para depois se
ir ao coletivo. Os sonhos onde se atinge um pice, um ltimo
degrau, podem significar a necessidade de sair do processo de
conscientizao do inconsciente pessoal e sinalizao para o incio
de uma nova etapa. Ver-se em sonhos, nos primeiros degraus da
escada, significa a necessidade de integrar alguns contedos
infantis.
Nesse processo,  comum surgirem imagens onricas
personificadoras da racionalidade e do intelecto, a assumir
posio secundria, solicitando ao ego dar lugar  emoo, ao
sentimento,  intuio, enfim,  funo inferior da conscincia. Elas
tambm costumam ajudar o ego no processo de individuao, o
que no deve, porm, ser motivo para que se confie a vida aos
sonhos.
O smbolo da mandala representa o novo centro
deslocado do ego, o Self. Ela se reveste de vrias formas nos
sonhos: o crculo, a esfera, o quadrado, a flor, a quadratura do
234

crculo, etc., ou objetos que se lhes assemelhem. A mandala,
enquanto smbolo onrico, impe um padro de ordem ao caos.
Nos sonhos ela representa a tentativa da psiqu de organizar os
opostos irreconciliveis. O aparecimento de um smbolo que
represente o Self nos sonhos, como por exemplo uma mandala,
certamente estar trazendo  conscincia algo que diga respeito ao
ego, por este ter se originado por uma necessidade daquele
ncleo arquetpico. Ao ego desestruturado, surge nos sonhos um
smbolo do Self perfeitamente definido e constitudo.
O indivduo, enquanto vivendo o processo de individuao,
ter sonhos significativos em relao a orientao que precise. As
imagens procuraro mostrar-lhe a necessidade de:
1. Tornar consciente o inconsciente;
2. Dar menor poder ao ego;
3. Desligar-se das influncias psicolgicas parentais;
4. Tornar-se independente;
5. Diferenciar-se do coletivo aprendendo a conviver com
tendncias opostas e precavendo-se das arquetpicas;
6. Eliminar projees e enxergar as transferncias, bem
como reconhecer as personas de que se utiliza para
conviver socialmente e sua excessiva valorizao;
7. Perceber seus mecanismos de defesa que tentam evitar
a aproximao dos contedos inconscientes;
8. Aceitao de sua sombra;
9. Confrontao com a nima/nimus e percepo de
suas projees;
10. Dissoluo dos complexos para enxerg-los e
trabalh-los;
11. Deslocar o centro orientador da personalidade do ego
para o Self;
12. Estabelecer o encontro com o Self.
Os sonhos iniciais do processo costumam causar certo
235

incmodo natural para o sonhador. Posteriormente, passam a
trazer-lhe relativa segurana.
236




Formas de se trabalhar os
sonhos


Os sonhos podem ser ou no interpretados verbalmente
numa terapia. Sua anlise pode ser feita a partir de uma
representao novamente simblica. Pode-se utilizar instrumentos
teraputicos com aquela finalidade. Um deles  o desenho.
Desenhar o sonho ou seus aspectos significativos  uma das
formas de materializar o smbolo, conscientizando-se dele.
Outra  a utilizao da caixa de areia, principalmente para
os tidos como pesadelos. A simbolizao a      travs da caixa de
areia serve como alvio de tenso provocada pela descarga do
sonho.
A tcnica utilizada por Perls, na Gestalt-Terapia, da
dramatizao dos sonhos  extremamente til para se trabalhar
com os sonhos, cujos resultados teraputicos so considerveis.
A representao dos contedos surgidos nos s       onhos deve ser
conduzida por profissional experiente no reconhecimento dos
complexos e arqutipos do inconsciente coletivo, tendo em vista
sua possibilidade de constelao sem a percepo do paciente.
237

Imaginao ativa

Esta tcnica de acesso ao inconsciente, de forma direta,
criada por Jung, que a considerava uma forma de auxiliar e
acompanhar a anlise90 , permite que o contedo inconsciente seja
encorajado a vir  conscincia sob a mediao do ego. Escolhe-
se um sonho e focaliza-se a concentrao nele, simplesmente
fixando-o ou observando-o. A partir da tenta-se descobrir que
tipo de imagem surge nesse estado de esprito contemplativo do
sonho.  como tentar sonhar acordado, dando continuidade a um
sonho lembrado. Para Jung91 , assim como surgem nos sonhos, na
imaginao ativa tambm aparecem os smbolos do si-mesmo. A
imaginao ativa  uma espcie de meditao, onde o ego
mantm sua integridade e permite que as reaes imaginadas,
mesmo aquelas que contrariem seu senso, apaream
espontaneamente.

Uma outra forma de se trabalhar os sonhos em terapia 
solicitar ao paciente que se imagine num cinema vendo um filme, o
qual  seu prprio sonho. Pergunto-lhe com quem ele est vendo
o filme, o que ele sente naquele ambiente do cinema, se havia algo
no cinema que chamou sua ateno durante o filme; finalmente
fao-lhe perguntas sobre o prprio filme.  interessante que
surgem vrios relatos de sensaes durante o filme e o paciente s
notou que as sentia no sonho quando passou a "situar-se" naquele
local fechado. Rever as cenas do sonho como espectador poder
fazer com que o sonhador consiga, no s dar continuidade ao
sonho, como tambm, verificar que ele comeou antes da parte
lembrada.


90
Obras Completas, Vol. XIV, par. 327.
91
Idem, par. 141.
238

O trabalho com argila tambm representa uma excelente
fonte de compreenso dos sonhos. Na manipulao do barro
mole, construindo e refazendo formas, o sonhador no s poder
direcionar a energia psquica presente no sonho, como tambm
trazer novo material em continuidade a ele. Com a argila, ele
consegue dar continuidade  reestruturao dos contedos
psquicos da mesma forma que num sonho.
239




Sonhos criativos


So sonhos que antecedem a criatividade das pessoas.
Alfred Adler (1870-1937), estudioso da psicanlise, como Jung,
dissidente da escola freudiana, afirmava que os sonhos podiam
desempenhar a funo de resolver problemas que no momento
estavam sem soluo.
Um exemplo dessa afirmao foi o sonho do famoso
qumico F. A. Kekul. Ele sonhou com uma cobra com sua cauda
na boca (a cobra que engole a prpria cauda  chamada de
uroborus, um dos smbolos do retorno ao inconsciente). Ele
buscava uma forma de conceber a estrutura da m         olcula do
benzeno, que foi delineada como um anel, aps o sonho.
O fato de uma pessoa desejar sonhar com uma
determinada coisa, idia ou pessoa, no significa, por mais que o
faa intensamente, que seu pedido ser integralmente satisfeito. O
inconsciente poder produzir um sonho no necessariamente em
resposta ao desejo, mas em ateno ao fato do ego ter desejado.
Os smbolos onricos produzidos trazem aspectos que
transcendem ao desejo do ego e se referem, em sua maioria, aos
aspectos da totalidade psquica.
Outro relato interessante  o sonho que Jacopo, filho de
Dante Alighieri, teve oito meses aps a morte do pai, em que o
240

autor da Divina Comdia lhe aparece e mostra-lhe onde se
encontravam os ltimos treze cantos do Paraso, captulo final do
clebre livro. Conta o filho que o pai apareceu num sonho e
informou-lhe que seus escritos estavam em um armrio embutido
numa parede, por detrs de um tapete, na antiga casa onde
morara, ora j habitada por outro proprietrio. Logo aps o
sonho, Jacopo acordou e, no meio da noite foi acordar Piero
Giardino, discpulo de Dante e, com ele, foi  referida casa,
acordando seu proprietrio, que aquiesceu na investigao, e l
puderam constatar a veracidade do sonho, e assim a Divina
Comdia pode ser publicada na ntegra.92
Para se ter sonhos criativos deve-se permitir que o ego se
distraia do objeto do desejo e passe a ligar-se  inspirao
onrica. Para tal, antes de dormir, deve-se solicitar ao Self que
colabore na busca de solues ao que se deseja alcanar. A
criatividade poder vir de forma direta, como nos exemplos
citados, como tambm de forma simblica. Caber ao ego
desperto a capacidade de interpretar os smbolos exteriorizados
nas imagens onricas.




92
O poder dos sonhos, Brian Inglis, Editora Pensamento, 1990, So Paulo, citado
por Martin Claret.
241




Sonhos premonitrios ou
profticos


Geralmente os sonhos que se referem a eventos futuros so
imprecisos e no apresentam informaes muito seguras para o
sonhador, motivo pelo qual no devem ser levados literalmente a
srio, como se a vida devesse se guiar pelas premonies
onricas. Quando muito, devem ser tratados como probabilidades
e no como certezas.
H os que so profticos, que parecem trazer ao consciente
algo que estava ocorrendo ou vai se processar algum tempo
depois. Para o psiquismo no h tempo nem espao. As coisas
ocorrem como num mesmo instante.
Ao contrrio do que se pensa, a Psicologia, no que diz
respeito ao sonho premonitrio, no considera apenas seus
aspectos subjetivos, mas tambm se ocupa, interagindo com a
fsica quntica, de entender sua possibilidade enquanto produto
ocorrido na mente humana.
Jung preocupou-se em estudar a questo do tempo, atravs
do que ele chamou de sincronicidade ou princpio da conexo
acausal, que descrevia ocorrncias simultneas de dois eventos
distintos, sendo um externo e outro interno, que pareciam ter o
242

mesmo significado ou alguma correlao significativa no
aparente. Ele criticava em seus estudos uma causalidade rgida ou
a inexistncia de interaes instantneas no universo. Um
determinismo absoluto contrariava sua idia de uma psiqu no
sujeita ao tempo nem ao espao. O sonho se desenrola como se a
situao fosse no tempo presente, trazendo, quele momento,
imagens passadas e futuras, num contexto nico e, s vezes,
intercalando-as. As cenas apresentadas devem merecer ateno
do sonhador e de seu analista quanto aos episdios pretritos de
sua vida. As imagens futuras apontam para uma percepo da
intencionalidade do sonhador.
Quando um paciente relata um evento sincronstico, vale
lembrar que o analista no se deve deter na sincronicidade em si,
enquanto fenmeno, mas principalmente no elemento "escolhido"
para estabelecer a conexo entre o interno e o externo. A anlise
deve recair sobre o significado desse elemento na vida do
sonhador e na forma como se deram os eventos.
Os eventos sincronsticos ocorrem com muita profuso em
nosso cotidiano, muito embora no lhes notemos. Durante os dias
em que escrevia estas pginas, tive a oportunidade de ir a uma
conferncia sobre transio planetria em que o expositor falava
de um complicado mecanismo semelhante a uma teia de aranha.
Como ele estava de costas para mim, que como convidado,
sentara-me  mesa da conferncia, pude notar, sem que ele nem o
auditrio percebessem, por ser muito extenso, uma minscula
aranha descendo do teto, presa por um imperceptvel fio, por
detrs dele, e pousando lentamente no cho. Quando ela
comeou a descer, ele tinha acabado de pronunciar a palavra
aranha. Este  um daqueles eventos em que no se percebe
qualquer correlao causal, porm de alguma forma esto
ocorrendo no mesmo tempo e lugar e para a conscincia de
algum. Houve a uma dupla conexo acausal: uma entre o que ele
243

falava e a aranha, e outra entre esse evento da conferncia e o
fato de, naquele dia, eu estar escrevendo sobre o assunto. Ambos
s foram percebidos por mim.
Alguns eventos tidos como explicados pela sincronicidade
podem ser mais bem entendidos a partir dos estudos de J. B.
Rhine, na Duke University, na Carolina do Norte, Estados
Unidos.93
H pessoas cujos sonhos so, em sua maioria,
premonitrios. Muitos so sonhos de maus pressgios que,
geralmente, deixam os sonhadores extremamente tristes por se
verem como uma espcie de "profeta do mau agouro". Acham
que tudo que sonham de ruim vira realidade.
Embora os sonhos interpretados por Jos do Egito,
constantes no livro bblico Gnesis, sejam considerados como
profticos, pode-se afirmar que, para se chegar  concluso sobre
sua veracidade, necessitou-se da anlise dos smbolos neles
contidos. Isto faz com que estabeleamos uma diferena entre
certos sonhos profticos e sonhos simblicos, ou ento conceber
uma variante deles. H sonhos profticos ou premonitrios, sem
smbolos, que no necessitam de uma interpretao e outros que
necessitam ser interpretados. Nos primeiros, o acontecimento
futuro aparece lmpido, claro e preciso. No segundo caso, como
nos sonhos interpretados por Jos, o acontecimento futuro vem
revestido pelos smbolos, carecendo de interpretao.
Como bem assinalou Jung, em entrevista a Freeman, da
BBC de Londres, uma situao antevista coletivamente poder
provocar sonhos que se assemelham a uma premonio. As
possibilidades da ocorrncia de algo podero se tornar coletivas e
conscientizadas, o que levar uma pessoa, ou muitas, a terem


93
H. G. Andrade, Parapsicologia Experimental, Editora Pensamento, So Paulo -
SP.
244

sonhos antecipatrios sem serem premonitrios. Uma possvel
guerra ou uma calamidade, cuja probabilidade seja
psicologicamente experimentada antecipadamente por uma
populao, provocar sonhos que apresentaro imagens de sua
provvel ocorrncia tanto quanto de sua negao.
Ele considerava que h sonhos que "so apenas uma
combinao precoce de possibilidades que podem concordar,
em determinados casos, com o curso real dos acontecimentos,
mas que podem, igualmente, no concordar em nada ou no
concordar em todos os pormenores. S neste caso  que se
poderia falar de profecia."94




94
Obras Completas, Vol. VIII, par. 493.
245




Sonhos compensatrios


Muitas vezes os sonhos se produzem no intuito de
compensar desejos (conscientes ou inconscientes) que pressionam
o ego quando este se encontra impossibilitado de realiz-los. Essa
compensao decorre da relao complementar entre o Self e o
ego, entre a vida inconsciente e a consciente.
Para Ouspensky, o sistema compensatrio dos sonhos
obedecia a uma lei geral de contraste, em que o oposto no sonho
 bvio, em face deles serem o negativo em relao ao positivo
da vida.
Jung, no pargrafo 170 do Volume VII, das Obras
Completas, escreveu: "..., a grande maioria dos sonhos  de
natureza compensatria. Eles sempre acentuam o outro
lado, a fim de conservar o equilbrio da alma."95 Porm ele
coloca que essa no  a nica finalidade dos sonhos. Ele
considerava o sonho, no s como uma fonte preciosa de
informaes, mas tambm como um instrumento educativo e
teraputico eficientssimo.
Para ele "a funo geral dos sonhos  tentar
restabelecer a nossa balana psicolgica, produzindo um

95
O grifo  do original.
246

material onrico que reconstitui, de maneira sutil, o equilbrio
psquico total." O sonho tem ento a funo de compensar as
deficincias da personalidade do indivduo, orientando-a quanto
ao seu destino futuro.  nesse sentido que os sonhos no devem
ser desprezados.
Quando se assume uma atitude unilateral na conscincia,
excessivamente voltada para um aspecto particular, os sonhos
produzem uma compensao visando o reequilbrio psquico entre
os opostos.
Embora considerasse os sonhos como de natureza
compensatria, ele no negava a possibilidade da existncia de
sonhos "paralelos". Sobre isso ele afirmou: - "No contesto de
modo algum a possibilidade de sonhos `paralelos', isto , de
sonhos cujo sentido coincida com a atitude da conscincia ou
venha em apoio desta ltima. Mas, na minha experincia,
pelo menos, estes ltimos so relativamente raros."96
Naturalmente ele estava se referindo aos sonhos confirmatrios.
Os sonhos compensam distores do ego em relao  sua
prpria conduta quando complementa aes conscientes no
totalmente realizadas. No sonho, o sonhador poder realizar o
ida
que a v social o impediu, pela necessidade de preservar sua
persona.
Outra compensao se d quando o sonho vem em auxlio
do ego que no percebe necessidade de modificao de seus
rumos em relao ao processo de individuao.
James Hall coloca um terceiro processo compensatrio
para o sonho, no qual ele `pode ser visto como uma tentativa
para alterar diretamente a estrutura de complexos sobre os




96
C. G. Jung, Obras Completas, Vol. XII, par. 48.
247

quais o ego arquetpico se apia, para a identidade em nveis
mais conscientes'97 .
Quando o ego no  suficientemente estruturado, os sonhos
no s se comportam de maneira compensatria, mas tambm
como um auxiliar ao desenvolvimento e fortalecimento do ego.
A depender da situao do complexo e da posio do ego
desperto, os sonhos podem apresentar smbolos em oposio, em
confirmao ou modificando suas atitudes.
Os sonhos compensatrios modificam as vises distorcidas
ou incompletas do ego vgil. Nesse sentido eles tm uma funo
complementar, pois ocupam um vazio deixado pelo ego que, por
mais que o queira, no consegue ter domnio completo da
realidade consciente, muito menos do inconsciente.




97
Jung e a Interpretao dos Sonhos, p. 32.
248




Sonhos na gravidez


A anlise e interpretao dos sonhos no podem prescindir
do conhecimento da condio psquica do sonhador. O estado
fsico, emocional, bem como o universo social em que vive, so
fatores relevantes para o deslindamento de seus sonhos.
Existem estudos em que se afirma a influncia do sexo do
sonhador nos seus sonhos, porm no se pode afirmar que eles
difiram significativamente, ou modifiquem sua forma de
apresentao, por essa condio.  claro que as caractersticas
do sonhador fazem seu sonho, mas o sonhar  uma atividade
universal, isto , todos sonham da mesma forma, segundo uma
condio cerebral e psquica padronizadas. Os sonhos so
diferentes como so singulares os sonhadores. Os sonhos de um
homem sero diferentes dos de uma mulher por eles serem
pessoas diferentes, mas no por terem essa ou aquela condio
sexual anatmica. Parece-nos que estabelecer uma diferena no
sonhar pelo tipo de sexo  o mesmo que estabelecer diferena
pela raa, o que implica numa generalizao perigosa. Como o
dia-a-dia de um homem, assim como sua infncia, difere do de
uma mulher, face s caractersticas culturais e regionais, seus
sonhos apresentaro imagens e smbolos coerentes com suas
histrias de vida. Ao que tudo indica, as diferenas existentes
249

entre os sonhos dos homens e os das mulheres se devem s
diferentes condies socio-culturais em que se situam eles.
O fato do homem, segundo Jung, ir em busca de sua nima
e a mulher de seu nimus, poder lev-los a interpretar seus
sonhos segundo essa busca, porm a elaborao onrica, a
disposio de conectar contedos inconscientes  semelhante. Da
mesma forma, a gravidez no altera o s      onhar, mas provoca a
utilizao de certos smbolos, particulares e universais, com maior
intensidade.
A relao que a mulher tenha com seu beb interferir nos
smbolos onricos apresentados. Nos casos em que h uma certa
rejeio, por mais leve que seja, da me em relao a seu beb,
isto , no que diz respeito  no aceitao da gravidez, tambm
haver interferncia na formao dos smbolos onricos. As
circunstncias fsicas da gravidez, o fato de ser a primeira, sua
relao com o pai biolgico, a aceitao social em relao 
gestao, so fatores intervenientes na produo dos smbolos. A
interpretao dos sonhos das grvidas no pode prescindir dessa
considerao.
O sonho de mulheres, segundo relata Kenneth Rubinstein98 ,
possui mais experincias emocionais do que o de homens. Os
sonhos de homens apresentaro mais atividades tipicamente
masculinas do que os das mulheres.
A gravidez  um estado cujo psiquismo da gestante se
altera face  existncia de um outro em seu contexto. As
referncias de Thomas Verny99 sobre a vida intra-uterina nos
remetem  percepo da atividade inconsciente da vida de um
feto. Pelos seus estudos no se pode afirmar que inexista uma



98
Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 130.
99
The Secret Life of the Unborn Child , Dell Publishing, New York-USA, 1986.
250

vida consciente como tambm atividades inconscientes, e at
elaboraes onricas.
Patrcia Maybruck,100 num trabalho publicado em 1989
sobre gravidez e sonhos, comenta que o padro de sono das
grvidas, por ser irregular, induz a uma maior possibilidade de
lembrana dos sonhos, alm do fato de acordarem mais vezes
durante o sono e de dormirem mais do que as no grvidas.
Adianta tambm, que se pode perceber, pelos sonhos, a
possibilidade de que a mulher esteja grvida. Ela coloca que os
sonhos no incio da gestao so povoados de animais aquticos
e no meio da gravidez eles apresentam animais terrestres, como
cachorrinhos, gatos e coelhos.
Stanley Krippner, que realizou estudos sobre sonhos de
mulheres grvidas, relata que na maioria deles constavam
referncias  gua,  arquitetura, a pequenos animais e a membros
da famlia.
So comuns sonhos em que a sonhadora se sente presa a
algo, principalmente no incio da gestao, como correntes ou
fios, alm de imagens onricas indicando algo em crescimento.
Esse crescimento tambm pode ser observado se comparar
elementos semelhantes, em sonhos distintos, que se apresentam
em estgios de desenvolvimento (tamanhos) diferentes.
As grvidas, geralmente, sonham com seus bebs, com os
objetos que lhes digam respeito, e, muitas vezes, amamentando-
os. Sonham com o sexo de seu beb, tendo em vista sua grande
ansiedade em obter uma resposta a respeito, s vezes, diferente
do real.
Em geral as grvidas tendem a ter sonhos com seus futuros
filhos. Segundo a viso esprita, face ao encontro espiritual que
porventura venham a ter com eles. Os sonhos podem se

100
Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 148.
251

apresentar como pesadelos a depender da condio espiritual do
reencarnante. Os sonhos das mulheres que iro engravidar podem
revelar aspectos importantes da personalidade do reencarnante. 
atravs dos sonhos que as revelaes ocorrem, no que diz
respeito s situaes com as quais o reencarnante vai se defrontar.
As mulheres que provocaram abortos freqentemente tm
pesadelos, pela culpa que costuma acompanhar suas vidas.
Vem-se perseguidas, agredidas, angustiadas e, por vezes,
violentadas, fruto dos processos referentes ao aborto praticado.
Muitas vezes os temas de seus pesadelos se devem ao fenmeno
da obsesso espiritual, quando ocorre durante o sono, pelo
esprito que fora impedido de reencarnar.
252




Sonhos dentro de sonhos


No  raro sonhar-se que, no momento do sonho, est-se
sonhando, isto , no sonho o sonhador tem um sonho. Geralmente
tal acontece em face da necessidade de justificar algo que se
encontra sob censura do ego onrico e/ou que est influenciado
pelo ego desperto.
Sonhar sonhando representa a entrada em outro nvel de
(in)conscincia durante o sono. O segundo sonho, que ocorre
naquele momento, representa uma instncia mais profunda do
inconsciente, a que o ego raramente tem acesso. A interpretao
desse segundo sonho  extremamente difcil e complexa, pois tem
um significado mais oculto do que o dos sonhos comuns.
Quando esse fenmeno ocorrer, o analista pode separar os
dois sonhos e tentar estabelecer correlaes entre eles de modo a
obter uma viso ampla da mensagem de ambos e em que pontos
elas se conectam.
Nesses casos de sonhos duplos, quem sonha  o ego
onrico, e  sobre ele que se refere o segundo sonho. Jung afirma
que "O inconsciente percebe, tem propsitos e intuies, sente
e pensa como a mente consciente." Equivale afirmar a existncia
de um ego (onrico) diferente do Self e do ego desperto, cujas
`faculdades' permitiriam, de alguma forma, o sonhar. Porm, isso
253

no nos permite afirmar que o inconsciente deve ser visto como
uma personalidade  parte do indivduo, pois ele est sempre
presente em todos os processos psquicos, permeando as
atitudes, desejos, emoes e intuies humanas. No h ego sem
influncia do inconsciente.
Pode-se interpretar o sonho ocorrido dentro de outro
sonho como algo da esfera do ego onrico, portanto da
inconscincia, no que diz respeito  relao com o Self. O sonho
dentro de outro sonho  o negativo dele, sendo o positivo para o
ego desperto.
254




Os sonhos e a arte


Desde os tempos mais remotos que o ser humano, nas mais
diversas culturas, vem representando os contedos do
inconsciente atravs da arte. Seja na msica, seja na escultura,
como tambm na pintura, ou em outra qualquer, as formas de
expresso tm variado de acordo com as caractersticas
tipolgicas de cada artista.
As artes em geral se assemelham aos sonhos pela tentativa
em ambos de representar uma realidade inacessvel  lgica do
ego. So expresses simblicas de objetos desconhecidos que
pretendem mostrar-se ao ego.
As caractersticas tipolgicas (introverso e extroverso),
quando cruzadas s funes racionais e irracionais (pensamento,
sentimento, sensao e intuio), produzem, em cada indivduo,
modelos e padres tpicos de habilidades que o levaro a realizar
estilos distintos em suas capacidades artsticas.
De alguma forma os artistas, poetas principalmente, sempre
se colocaram entre a conscincia e o inconsciente de uma maneira
bastante freqente. O mundo dos sonhos lhes  particularmente
prximo, pois suas obras de arte os colocam acima do nvel do
ego.
255

Independente de nossa capacidade artstica e de termos ou
no dons especiais para a elaborao de obras de arte, mesmo
que no consideradas como tal, durante o sono, atravs dos
sonhos, nos revelamos artistas de primeira linha, produzindo obras
cujo surrealismo causa espanto aos mestres deste gnero.
Muitas vezes os artistas retiram suas idias e modelos dos
sonhos ou das ocorrncias durante o sono. Vrias obras musicais
e
foram compostas aps seus autores declararem t rem entrado
num certo estado de sono ou torpor. Os artistas captam das
profundezas do inconsciente os motivos ou imagens para suas
obras.
Vale lembrar que as imagens traduzidas em obras de arte
so geradas pelo consciente ou pelo inconsciente. As imagens da
conscincia so reprodues da realidade exterior vista pelo
artista. Essas imagens podem surgir nos sonhos e no so
formulaes do inconsciente, mas to somente utilizadas para
representar seus contedos. As imagens do inconsciente, pessoal
ou coletivo, so representaes das emoes e experincias do
indivduo, bem como fruto de contedos arquetpicos, que v           o
surgir nos sonhos com caractersticas distintas daquelas
pertencentes  esfera da conscincia.
Um dos exemplos claros da influncia do inconsciente nas
artes so as obras surrealistas. Dizia-se popularmente que a
pintura surrealista era a "arte dos sonhos", pois a arte, para ser
imortal, teria que ir alm dos limites normais, isto , ir  esfera dos
sonhos. Muitos dos pintores surrealistas procuravam retratar em
suas obras, de forma figurativa, o mundo onrico, dentre eles, o
notvel Salvador Dal.
Alguns artistas costumam guardar seus instrumentos de
trabalho junto  cama, pois, assim que acordam e, s vezes, ainda
deitados, retratam seus sonhos em obras de arte, que hoje se
encontram em grandes museus no mundo.
256

A propriedade do inconsciente de gerar mensagens
criativas estabelece conexo com a capacidade artstica do
indivduo. Essa conexo, aflorada nos sonhos, se produz pelo
processo de diferenciao do coletivo.
A teraputica ocupacional, introduzida com sucesso na
psiquiatria, possibilitou a realizao simblica, e providencial, dos
contedos inconscientes. Nessa mesma linha de raciocnio, pode-
se estabelecer um paralelo com a realizao do inconsciente
atravs da arte, pela sua possibilidade de deslocamento do
excesso de energia psquica inconsciente. O uso teraputico da
arte em pacientes psiquitricos no objetiva a realizao de obras
de arte, mas to somente a expresso das emoes mais
profundas do indivduo. No se trata de buscar uma esttica
artstica, mas apenas a possibilidade para o indivduo de projetar
seus conflitos pela "linguagem plstica".101
Mais do que esboos ou garatujas de produes artsticas,
as realizaes onricas projetadas numa obra so como que auto-
retratos da psiqu, que se permite uma representao simblica.
A linguagem do inconsciente se assemelha  artstica, onde os
elementos, aparentemente desconexos, tm um sentido prprio e
surpreendente.

Jung

"No  suficiente explicar, em todos os casos, o
contexto conceitual do contedo de um sonho. Muitas vezes
impe-se a necessidade de esclarecer contedos obscuros,
imprimindo-lhes uma forma visvel. Pode-se fazer isso,
desenhando-os, pintando-os ou modelando-os. Muitas vezes
as mos sabem resolver enigmas que o intelecto em vo lutou
por compreender. Modelando um sonho podemos continuar a
sonh-lo com mais detalhes, em estado de viglia, e um
acontecimento isolado, inicialmente ininteligvel, pode ser
integrado na esfera da personalidade total, embora
inicialmente o sujeito no tenha conscincia disso. A
formulao esttica deixa-o tal como , e renuncia  idia de
descobrir-lhe um significado. Isso faz com que certos
pacientes se imaginem artistas  naturalmente mal
compreendidos. O desejo de compreender o sentimento do
material produzido que renuncia  idia de cuidadosa
formulao, para ele tem incio com uma associao causal
tosca, e por isso carece de base satisfatria. S se tem alguma
esperana de xito, quando se comea com um produto j
formulado."102

Em outro trecho,103 Jung j salientava os efeitos teraputicos
da arte em seus pacientes, reduzindo inclusive a quantidade e
intensidade de seus sonhos.
A realizao de uma obra de arte, seja produto de um
sonho ou no, atinge a integrao de contedos pertencentes ao
inconsciente, porm ainda no organizados no ego. A expresso
artstica, presente na obra e, principalmente, no momento da
criao, , sobretudo, um fator transcendente para a realizao da
necessria integrao de opostos. A direo seguida na realizao
das obras de arte, em todos os campos,  a do processo de
individuao, presente na dialtica entre as imagens do
inconsciente e o ego.104
A arte surge como uma proposta para reorganizar o ego a
partir do fortalecimento da capacidade criativa existente em todos

258

os seres humanos. Esse poder criativo, ento agindo de forma
bruta e inconseqente, encontrar uma diretiva atravs da arte.


Reflexes finais

Nada pode nos garantir que todas as teorias existentes
sobre os sonhos no possam ser aspectos parciais do
entendimento de uma importante funo psquica. Eles podem,
dentro desta perspectiva, referir-se a: premonies, respostas a
desejos, prenncio de doenas, movimentos corporais noturnos,
lembranas de vidas passadas, desdobramentos, imaginaes
fantasiosas, encontros espirituais, resultantes dos pensamentos
diurnos, lembranas da infncia, elaboraes simblicas do
inconsciente, conselhos teis para o desenvolvimento psquico,
influncia divina, fonte de idias criativas, sinais de problemas
mentais, orientaes para a vida de viglia, etc.
Da mesma forma que as teorias explicativas sobre os
sonhos podem ser abordagens complementares, as prticas e
tcnicas utilizadas para sua compreenso e uso na vida de viglia,
podem, tambm, ser aplicadas isoladamente ou em conjunto, sem
prejuzo ao sonhador.
A interpretao dos sonhos  uma atividade pouco
relevante para a grande maioria das pessoas. Sua importncia
poder se acentuar no futuro quando se conhecer melhor a mente
humana. Os sonhos podem ser responsveis por uma nova etapa
260

na evoluo psquica do ser humano, se a eles se aplicarem
tcnicas de aperfeioamento.
Pode-se perceber que existem muitas teorias a respeito dos
sonhos bem como explicaes e interpretaes as mais diversas,
porm nenhuma certeza. Muitas crenas, muitas crticas
polarizadas e antagnicas entre si. Sabe-se, certamente, que o
sonho  um fato cuja testemunha principal, e talvez nica,  o
prprio sonhador. Fico simblica, subjetividade, realidade
espiritual, tudo se mistura num universo nico na mente do
sonhador, incio e fim do que se chama sonho. Independente
desse aparente caos de teorias, eles se prestam ao
desenvolvimento da totalidade psquica, ao ser humano integral.
 importante ficar-se atento ao risco das generalizaes. O
mundo dos sonhos, to real quanto o mundo sentido pelos nossos
rgos e descrito como o verdadeiro,  desconhecido na sua
totalidade. Ele, como tudo que o ser humano estuda,  entrevisto
numa pequena faceta acessvel no nvel psquico em que o
prprio ser humano consciente se situa. A mente, que estuda a si
mesma, certamente sozinha no conseguir faz-lo em sua
totalidade.
O sonho parece ser um grito de alerta do ego que luta pela
sua sobrevivncia ou contra sua morte aparente. Ele representa a
esperana da noite escura do sono. Produo espontnea e
inquestionvel dos escaninhos da mente que nunca dorme.
A interpretao dos sonhos sempre foi entregue aos magos,
feiticeiros e adivinhos para que os explicassem e dessem um
sentido real, hoje, porm, eles se tornaram objeto de investigao
cientfica e no s do domnio dos psiclogos, analistas e
terapeutas, mas tambm do domnio pblico.
H que se considerar os aspectos contextual e cultural na
sua anlise e interpretao. Cada poca e cultura podero
estabelecer paradigmas diferentes. Pode-se observar, em todos
261

os sistemas interpretativos, uma certa viso etnocntrica e
tradicional que os torna parciais.
A maioria dos estudos sobre sonhos, ou mesmo os
paradigmas subjacentes s suas anlises e interpretaes, parecem
levar em conta que eles (os sonhos) so produzidos pelo ego (nos
seus desejos inconscientes) e para o ego, como se ele fosse o
centro das atenes. Os sonhos irrompem na conscincia atravs
do crtex e no so produtos planejados, mesmo quando se tenta
sonhar antecipadamente com algo. So frutos de conexes cuja
objetividade escapa  certeza dos estudiosos, que so unnimes
em afirmar que h uma objetividade, mas  de se perguntar para
que e para quem.
As respostas sero provisrias, mesmo aquelas oriundas
daqueles que tm a certeza de deterem a verdade, cuja
relatividade desafia o tempo. Assim como o pensar humano 
inerente quele que o faz, o sonhar  intrnseco ao sonhador. S
ele sabe o que se passa em seu mundo objetivo das imagens
desafiadoras dos sonhos. O ego onrico  a testemunha solitria
das aes que se processam no mundo dos sonhos.
As preocupaes sobre causalidade so de todos os
tempos e so inerentes  espcie humana, e elas nos levam 
certeza de propsitos em tudo que se refere  vida. Mesmo que
e
se diga que aquela causalidade  fruto d uma viso d da    ual,
mente que se fragmentou, uma explicao vai ser exigida por
conseqncia do fato dela ter sido suscitada nos sonhos. Muito
alm da causalidade se coloca a finalidade, que nos remete 
necessidade de entender propsitos.
O tema dos sonhos sempre se revelou num fascnio para as
pessoas. O prprio nome nos remete a um mundo mgico e
fantstico, do qual parece que viemos ou algo neles temos a nos
regozijar. Eles, por ocorrerem num momento de abaixamento da
conscincia, denotam um qu de mistrio e sagrado ao mesmo
tempo. A experincia do sonho ocorre num estado alterado de
conscincia, abaixo do nvel da conscincia desperta. Parecem
pensamentos no pensados ou elaboraes mentais irrompidas 
conscincia sem que esta tome qualquer iniciativa. So emanaes
no controladas pela conscincia, no sendo possvel sonhar-se
exatamente como e com que se deseja.
O sonho  impondervel, improvvel salvo pelo
depoimento do sonhador, porm suas conseqncias so
observveis. Mas, em que meio eles ocorrem? Como so
provocados? Que estrutura os provoca? O Self? O ego vgil? O
ego onrico? So interrogaes desafiadoras  nossa mente lgica.
Talvez as respostas s sejam alcanadas quando nos situarmos
alm do concretismo lgico-matemtico e penetrarmos nos
domnios da emoo e da intuio.
Jung vai explorar os sonhos como poucos, em sua
volumosa obra, dando-lhes um carter de importncia
fundamental no processo teraputico, fazendo deles o principal
apoio  entrada nos domnios do inconsciente.
Os sonhos ocorrem a partir de uma brecha que o
inconsciente abre para o consciente, motivada por fatores
externos ou internos. Alguns parecem originar-se dos mais
recnditos lugares do inconsciente. Outros demandam da
superfcie do inconsciente pessoal e, em alguns casos, retratam
um instantneo do psiquismo, isto , do estado geral do indivduo,
estabelecendo uma relao complementar entre as instncias
psquicas, consciente e inconsciente.
O sonhador deve sempre se perguntar aps a lembrana de
um sonho:  Qual a inteno desse sonho? Que efeito ele
pretende ter? As respostas podem ser obtidas com a ajuda de
algum, o qual no deve se limitar a dar interpretaes mgicas e
desconexas.

Deve-se sempre questionar ao sonhador o que ele sente em
relao s imagens do sonho, pois, geralmente, ele se refere a um
determinado problema sobre o qual o sonhador tem uma viso
consciente equivocada. O questionamento que se deve fazer ao
sonhador  semelhante a uma anamnese mdica, isto : - Como
foi o sonho? Como voc se sentiu no sonho? E depois que
lembrou? Quando? Por que? Onde? Com quem? etc.
O enredo de um sonho parece obedecer a um esquema
semelhante ao existente na estrutura do mito. Ele, o sonho, 
estruturado como um padro de coordenadas que conduzem a
uma idia central. s vezes parece-nos que o mito forja o sonho.
Um mesmo sonho pode conter elementos contraditrios
entre si, que se opem na conscincia, representando aspectos
que necessitam conciliao. Nesse tipo de sonho costumam surgir
elementos que tendem a confundir o analista que, sempre que
possvel deve manifestar sua incapacidade, mesmo que
momentnea, de entend-lo.
A influncia da era do mundo virtual sobre os sonhos pode
transform-los em peas da imaginao e da fantasia, a servio do
irreal e do inconsistente. Porm, a tecnologia vai oferecer uma
maior quantidade de imagens e smbolos que se prestaro a
liberar contedos semelhantes aos apresentados nos sonhos, a
servio do processo de individuao.
Os sonhos revelam estruturas ou complexos intrapsquicos
do sonhador e suas relaes com os outros, com seu prprio
mundo interno e com o mundo das imagens objetais.
Os sonhos expressam: um tema onrico principal, uma
perspectiva de realidade psicolgica do sonhador, um simbolismo
particular, ncleos de significado, padres de energia, uma
expressividade emocional. Eles so uma das formas de expresso
da energia psquica interior.
264

Os sonhos expressam tambm, e devem ser vistos sob os
aspectos: dos sentimentos, da sensibilidade e da intuio. Sua
anlise e compreenso pelo ego desperto devero conter essas
condies psquicas.
No se lida diretamente com os sonhos, mas com a
lembrana deles, isto , do sonho ao relato, h o momento da
lembrana. Desta, ao relato, ocorrem alteraes significativas em
face da linguagem utilizada pelo sonhador para descrever as
prprias imagens onricas. Wynn Schwartz105 afirma que "Aquilo
que  contado ao analista  modelado no s pelo contedo
original do sonho, mas tambm pelos sentimentos do
sonhador, a respeito e no contexto das complexidades da
relao com o analista."
A conscincia  dual. O sonho  mono (unidimensional).
No h separatividade nos sonhos. Eles apresentam imagens
instantneas e globais. Para alcanar sua compreenso nica 
preciso meditar sobre eles, continu-los, dialogar com suas
figuras, desenhar suas imagens, enfim viver com elas. Mesmo que
apresentem como lembrana uma nica imagem isolada, em lugar
do sonho todo, aquela imagem  o ponto de convergncia de uma
rede de significados que merece ateno.
Uma das mais conhecidas e mais largamente usadas
tcnicas para a explorao do inconsciente, extensamente
adotada por Freud e seus seguidores,  a da anlise dos sonhos.
Embora no entremos aqui numa discusso do sistema de
interpretao de Freud, assinalaramos que, embora os sonhos
propiciem acesso ao inconsciente do indivduo, verificamos
freqentemente que eles do acesso a apenas uma pequena
parte dele. Em muitos indivduos, s uma parte do inconsciente 
capaz de se expressar atravs dos sonhos.

105
Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p.58.

Muita gente no leva a srio os sonhos, porm nem sempre
sabe que segue teorias religiosas, filosficas e at polticas, que se
originaram atravs de sonhos de seus profetas e lderes.
Os sonhos, na primeira metade da vida, geralmente se
referem ao mundo exterior,  vida de adaptao,  necessidade do
fortalecimento do ego. Na segunda metade da vida eles se
referem  vida interior,  totalidade,  necessidade de entender seu
significado.
Estudar os sonhos  dedicar-se a uma atividade importante
e intensa na vida do ser humano. Em mdia sonhamos cerca de
cem mil vezes (mdia de quatro por dia durante cerca de setenta
anos), o que coloca o sonhar como atividade extremamente
freqente em nossas vidas. Com essa intensidade, certamente a
natureza pretende mostrar o quanto ela  importante.
Quantas pessoas dizem: - minha vida no tem sentido! Elas
no sabem, mas certamente esto falando do ego e de suas
necessidades. Outro sentido, o real, pode ser encontrado na
anlise dos sonhos. Prestar ateno aos sonhos poder dar
sentido  vida das pessoas. Os processos to decantados de
autoconhecimento e autodescobrimento podem ser mais bem
compreendidos pela percepo dos sonhos, que indicaro as
correes de rumo que devem ser feitas pelo ego desperto a fim
de alcanar a autotransformao.
Os sonhos operam como se o ego desperto tivesse uma
viso unilateral, incompleta, negligenciada ou imperfeita da
situao global da personalidade. Por esse motivo os sonhos so
complementares e operam como um (supra)senso de orientao
da conscincia, uma espcie de comentrio supra-racional. Eles
se processam num momento em que o inconsciente sobrepe-se 
conscincia, permitindo-a, posteriormente, ter acesso aos seus
contedos.  nesse sentido que eles so a via real ao
inconsciente, atravs principalmente dos complexos.
Por isso, quem se identifica com a metade diurna de sua
prpria existncia psquica, s pode conceber os sonhos noturnos
como nulidades desprovidas de valor, embora a noite possa ser
to longa quanto o dia, e toda conscincia esteja baseada numa
evidente situao de inconscincia, a tendo suas razes e a se
extinguindo a cada noite.
Ser que um dia assistiremos o sonho em real time,
quando uma tela venha a mostrar o que se passa no crtex
humano? No tenho dvidas que sim, e nessa poca, m         uitas
dvidas cairo por terra, mas outras certamente surgiro. O
avano cientfico, com o mapeamento cerebral e a evoluo da
informtica, possibilitar uma melhor compreenso dos sonhos,
sobretudo de sua origem e finalidade.
O ego  o sonho do Self.


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Contra capa

Sonhar  uma atividade inerente  existncia do inconsciente, pois  sua
expresso natural e de importncia fundamental ao equilbrio psquico.
Nos sonhos encontramos um mundo numinoso, mgico, pouco compreensvel,
mas belo e intrigante. No mundo dos sonhos, objetos, animais e pessoas
se misturam como numa orquestra, formando um conjunto harmonioso e
coerente em si, sob o comando de seu maestro, o sonhador. Sua estrutura
sempre fascinou o ser humano pela identidade de suas imagens com a
natureza essencial dele prprio. Nascido e gerado nas profundezas do
psiquismo, os sonhos trazem consigo os resduos pertencentes 
trajetria da humanidade ao longo do processo de desenvolvimento da
conscincia superior. Neste novo sculo de luzes e imagens
multicoloridas e do grande avano tecnolgico, j ingressos no Terceiro
Milnio, estamos na iminncia de descortinar um dos vus que encobrem a
verdadeira natureza do ser humano. Novas e a rrojadas idias viro tomar
o lugar da era quntica e, certamente, daro surgimento a uma nova
cincia que permitir uma compreenso maior do significado dos sonhos.

Orelhas

Esquerda

Este  mais um trabalho do estudioso das cincias psquicas Adenuer
Novaes que nos traz novos elementos para a compreenso do significado da
vida humana. Visando proporcionar, numa linguagem simples e direta,
estudos psquicos, novos subsdios sobre as relaes dos aspectos
consciente e inconsciente, vem nos informar a respeito dos sonhos e de
como podemos aprender a lidar com eles em proveito do nosso
desenvolvimento pessoal.

Direita

Os sonhos so mensagens da alma para a prpria alma em ascenso na busca
do si-mesmo. So instantneos ou retratos da psiqu a servio do seu
prprio aperfeioamento.

"A vida em sua plenitude no precisa ser perfeita, e sim completa. Isto
supe "espinhos na carne", a aceitao dos defeitos, sem os quais no h
progresso nem ascenso." C. G. Jung.
